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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Profissões (Marcelo Lamas)

Já dizia um amigo, filósofo de bar: “Toda profissão tem seu drama”. Geralmente os pedidos de consultoria acontecem em todos os setores, como alguém que chega pro veterinário e diz: “Podes dar uma ‘olhadinha’ no meu cachorro?”. Esses pedidos começam com um prenúncio, seguido de um predicado elogioso: “Tu que és um escritor moderno, sabes se ‘paraquedas’ tem hífen?”.
Certa vez recebi um telefonema de uma desconhecida:
- Oi tudo bem? Sou amiga da fulana, ela te indicou pra me ajudar. Tu que és professor, podes me ajudar a resolver um problema?
- Opa, se eu puder te ajudar.
- Eu mandei uma sandália pro conserto e fiquei sem grana pra buscar. Quando arrumei o dinheiro, já haviam se passado três meses e eles venderam pelo preço do serviço para outra pessoa. É correto isso?
Depois de sugerir que ela procurasse o Procom pra se aconselhar, a conversa seguiu e ela perguntou: “De que mesmo que tu és professor?”. Futuramente ela cursou e formou-se naquela faculdade.
Outro dia, passando pela mesa de uma novata, no meu outro trabalho, a guria me chamou:
- Me disseram que tu também és professor. É verdade ou é pegadinha?
- Ah, sim, é verdade.
- Podes me explicar como funciona esse negócio de série A e rebaixamento?
Bem, a jovem estava mergulhada num ambiente excessivamente masculino e estava tentando entender o assunto das horas vagas. Tentei ajudar:
- São quatro séries. Os últimos da série A são rebaixados para a B e assim por diante. Os primeiros vão pra Libertadores.
Eu precisei de um papel, pois não consigo explicar nada sem escrever. Uma limitação minha, não da menina. Ela seguiu:
- Quem faz mais gols, faz mais pontos? O que é “pontos corridos”?
Expliquei que a vitória vale três e o empate um. Que todos jogam contra todos, duas vezes.
Naquela altura, a menina já estava com o jornal aberto na tabela de classificação.
Foi aí que eu perguntei:
- Pra qual time você torce?
- Como eu faço pra escolher?
Surpreso, respondi:
- Torça para o Grêmio.
- Ah! É? Qual é o critério pra escolha?
Fiquei sem resposta, falei que depois eu lhe explicava e voltei a trabalhar, afinal era para aquele fim que eu estava lá.



Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Memórias de um professor aposentado (Fernando Bastos)

Certa vez, quando eu contava com meus cinquenta anos; lá se vão mais de duas décadas, e dava aula de Filosofia na Universidade F..., percebi que uma garota que sempre tivera participação ativa nas aulas, começara a faltar com frequência. Aqui vou chamá-la de Maria, para proteger sua identidade. Maria tinha 22 anos, e fui saber que estava depressiva e andava se entupindo de calmantes. A mãe a levara a um psiquiatra e ele prescreveu os devidos medicamentos. Naquele ano ela não voltou a estudar. Foi se tornando escrava dos remédios e não saía mais de casa. Nem banho tomava. Fiquei sabendo de tudo isso na festa de aniversário de uma amiga dela do curso que eu ministrava. Ela mesma me contou, quando me encontrou sozinho tomando meu uísque na varanda da casa. Era a primeira vez em um ano e meio que ela saía de casa. Estava irreconhecível, bem mais magra, uma palidez de papel na pele e com um olhar de zumbi. No entanto, conservava ainda aquela beleza jovial de uma personagem de um quadro de Botticelli. Foi levada à força pelas primas a tal festa. Para meu espanto, ao me ver, ela abriu um sorriso e me cumprimentou:
- Oi professor, como vai?
- Oi, guria, respondi, Que bom te ver. E tu, como vais?
Em uma hora de conversa ela me falou da sua infância, da rígida educação de base católica em casa, das múltiplas recomendações a se manter afastada dos garotos, que “só pensam em transar com as meninas”, do exagerado cuidado de seus pais para que não namorasse antes de se formar na faculdade. Com uma sinceridade invejável, Maria me contou que entrou em depressão porque não podia namorar, queria fazer sexo e os pais a cerceavam vinte e quatro horas por dia. Com vinte e dois anos, ainda era virgem! Disse a ela que ser virgem naquela idade não era comum, mas também não era nenhum fim do mundo. Que ela não devia se preocupar com isso, mas sim, com sua saúde e bem estar. Não foi difícil notar que todo o problema dela, sua apatia pela vida era em função da perda de liberdade, sobretudo pelo direito em extravasar sua sexualidade reprimida. Convidei-a para uma noite de amor, e, juro a vocês, não me surpreendi quando ela aceitou. Saímos à francesa, e fomos direto ao meu apartamento. Naqueles tempos eu era um coroa desejável, estava com o corpinho em dia, pegava onda na Joaquina ao lado de campeões, de forma que não fiz feio. Quando tiramos a roupa, fiz apenas um pedido. O quê, ela perguntou. Não terá penetração, respondi. Por quê, disse ela, esperando que seria desvirginada naquela noite. O senhor não me achou atraente, estou tão feia assim? Não é isso, respondi. E, por favor, não me chames de senhor. Está bem, disse ela com um sorriso meigo, desculpa. Tu és bela, eu disse, e sinto-me envaidecido por tua confiança em mim. Porém, o que tem de menos importante hoje é tu perderes a virgindade. E a beijei. Não dei tempo para ela falar. Beijei-a com centenas de beijos, desde os lindos pés até a as pontas dos cabelos. Ela chegou ao orgasmo pelo menos quatro vezes. Minha língua estava afiada aquela noite, e meus dedos habilidosos. Exausta, ela me agradeceu, Obrigada professor, nunca imaginei que sexo fosse tão bom. E ainda sou virgem! Abracei-a e disse, Não tenhas pressa. Quando te sentires pronta, aí sim será o momento. Na segunda-feira ela voltou ao curso. “Milagrosamente”, no dia seguinte ao nosso encontro, ela largou de vez os antidepressivos.


Fernando Bastos, cartunista e escritor