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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sombra e destino (Marcelo Lamas)

Desde menino fui perseguido pela sombra do meu sobrenome no futebol da cidade que nasci. E este virou nome de guerra, pois havia uma safra muito grande de Marcelos no colégio – na mesma sala éramos 9 – e assim, desde cedo fui chamado pela alcunha originada entre a Galícia, no interior da Espanha e Portugal. Como o meu pai e os meus tios tinham sido futebolistas conhecidos, quando algum transeunte ouvia meu sobrenome, me questionava: “Tu és filho do Lamas? Jogas futebol como ele?”.


Relutante, eu evitava participar dos jogos temendo não corresponder às expectativas. Só aceitei entrar no time da sala para jogar a Gincana de 1985, porque não tinha goleiro. Dali para frente passei a ser o arqueiro da escola e ficava na reserva da equipe da empresa que meu pai trabalhava.


Depois de alguns anos, tive que mudar de posição, pois a minha estatura era bem menor que as dos outros goleiros. Então passei a jogar de zagueiro e até hoje jogo futebol com meus amigos na retaguarda.


No final do ano passado fui assistir a um treino do Museu EC, clube de veteranos que meu pai frequenta e que tem maioria sexagenária. Como estava muito quente, faltou gente para jogar e fui escalado para ficar de goleiro.


Consegui a proeza de tomar 10 gols, sendo o último por cobertura.


Ao longo da minha carreira esportiva tive derrotas, aprendizados e fiz inúmeras amizades.


Também tive boas vitórias, inclusive naquela Gincana do colégio em 1985, que teve a minha modesta participação. Ao final daqueles jogos ocorreu um inesperado empate na somatória dos pontos das várias modalidades (corrida do saco, cabo de guerra, corrida do ovo, caçador, futebol, vôlei, entre outros). Às pressas, pois a noite chegava rapidamente naquele inverno do extremo-sul do país, os professores acharam um jeito de definir a sala campeã.


E eu fiz a redação que desempatou a gincana.

Desde lá, não sei definir qual dos dois esportes é o meu favorito.

Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sobre Escrever (Marcelo Lamas)

“Estava apenas no exercício de meu ofício, que é duro e sério – de dizer, redizer, desdizer, contradizer o que seja, sempre bem e da melhor maneira; mas é também ofício divertido – de fazer de conta, imaginar, admitir que tudo é verdade e que não se está mentindo nem inventando; e que é, enfim, um ofício mágico – de recriar o mundo, ordenar e desordenar vidas, interferir na realidade e irrealidade”.

Trecho da entrevista do escritor Sr. Aldyr Garcia Schlee, autor de Linha Divisória, Contos de Futebol, Os Limites do Impossível – Contos Gardelianos e Don Frutos. O autor concorre ao Prêmio Fato Literário 2010 – Personalidade, na Feira do Livro de Porto Alegre.

Abraço do Marcelo Lamas.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Traços em letras sobre historias vivas (Adriana Niétzkar)

CRIO!
o inexistente
IGNORO!
o real


Fecho os olhos
para povoar meu mundo
ACREDITO!
eles não têm livre arbitrio
IGNORO
crescem sozinhos
minhas letras são apenas mais um traço
acima de linhas vivas
nasceram de mim
crescem em mim
terra que dá os nutrientes
que não comanda
o crescimento
e a morte...

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

No ginecologista (Marcelo Lamas)

Há tempo que a visita estava prometida. Por duas vezes recebi de presente livros escritos pelo Dr. Lori Krusser. O médico renomado no pampa gaúcho é daqueles que merecem ser chamados de doutor. Da escola antiga, em que o médico ia à casa do paciente e que as consultas não eram relâmpagos. O médico olhava no olho do doente. Especialista em seres humanos, o Dr. Lori fazia todo tipo de atendimento e cirurgias.

Depois de ler os livros do Dr. Lori, cheios de causos de cidades do interior, escrevi-lhe uma carta comentando sobre a riqueza da sua literatura. De alto nível, ambos: “Prosa à sombra do cinamomo" e “Gado da mesma marca”, com pleno teor de sentimento em suas linhas, coisa que só os grandes escritores conseguem fazer, como Erico Verissimo. E este não é um pensamento isolado meu, pois o senhor de cabelos grisalhos foi convidado para participar da Academia Sul-Brasileira de Letras. Recusou o convite, acreditando modestamente que, com apenas duas obras, não era digno de ocupar uma cadeira de imortal.

Assim, procurei o Dr. Lori para termos uma conversa sobre a arte de escrever. Ele marcou no seu consultório, às três e meia da tarde, depois da última consulta.
Quando cheguei, antecipado, li na porta: DR. LORI KRUSSER — GINECOLOGISTA.
Pensando no mico de entrar num consultório daquele, lembrei do provérbio popular: “Já que estamos no inferno, o que custa dar um abraço no diabo?” Entrei e fiquei lá no meio da mulherada, que aguardava consultas com ele, sua filha e seu genro, todos médicos de senhoras.
Algumas me olharam estranhamente, mas graças à modernidade globalizada, logo me senti invisível, tudo normal.
Mas, quando a recepcionista me chamou pelo nome, todos, digo, todas, riram.


O homem septuagenário me recebeu feliz, por conhecer alguém que admirava seu trabalho de contador de histórias.
Entre muitos, me contou um causo da época em que era jovem e visitava sua cidade natal de Santaninha, no centro do RS, onde uma mulher grávida estava com muita hemorragia. O médico fez o primeiro atendimento e seguiu numa carroça junto com a paciente para o hospital, onde conseguiu controlar a perda de sangue, salvando a mãe, mas o bebê infelizmente não teve a mesma sorte.
Com a mesma modéstia de quem não aceitou a homenagem das letras, disse: “Não fui eu quem salvou a mulher. Foi o Homem lá de cima. Ele “apenas” me utilizou como instrumento”.





Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com