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quarta-feira, 24 de julho de 2013

Amizade (Patrícia Grah)



Olho ao meu redor e o que vejo são nada menos que fragmentos do meu passado.

Amigos... Ah, os amigos! Que momentos incríveis passamos juntos à eles!

Uma pelúcia recebida como presente de aniversário há alguns anos conta uma história, assim como aquele livro, já amarelando e datando outro momento, conta outra. O porta retrato, recebido por outro, marca um momento único que é relembrado com certa frequência por estar sempre à vista. Um CD conta outra história, um enfeite lembra outra e junto à isto, é inevitável sentir uma certa nostalgia, que se mistura à saudade, que se junta às lembranças de um tempo que não volta mais: dos choros, dos risos, das festas, das discussões, das brincadeiras, dos abraços... Pois mesmo que o tempo passe e a amizade perdure, ela jamais prosseguirá igual. Haverão sempre altos e baixos e sua importância poderá ser ponderada por terceiros.

Por hora, sofremos por nossos amigos, compramos brigas até mesmo supérfluas por eles, e por via, nos decepcionamos por não sermos correspondidos da mesma forma. Mas a questão é que a amizade é um amor imensurável e cada um o sente em uma feição única!

Sofro pelos meus, sinto  coração doer ao vê-los sofrer. Prefiro a honestidade em primeiro lugar, porque a verdade sempre prevalecerá.

Mas uma coisa é certa: se a amizade for verdadeira, ninguém e nem o tempo irão apaga-la! Afinal, como dizia Mário Quintana: “A amizade é um amor que nunca morre!”



Que assim seja!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Perto da Morte (Fernando Bastos)

“Sofia lembrou-se que a avó, no dia em que soubera da
sua doença, dissera algo semelhante. - Só agora tomo
consciência de como a vida é rica - dissera ela.
Não era triste que a maior parte das pessoas tivesse que
ficar doente para reconhecer que a vida era bela?”
(O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder)


Você me disse que precisava falar. O quer foi, amigo, algum problema?

Precisava desabafar com alguém. A gente se conhece há mais de trinta anos, e sei que você é a pessoa certa pra me ouvir, aliás, coisa que você sabe fazer tão bem.
Sua cara não tá boa. Fala, o que houve?
Os médicos sabem. Quando um paciente é avisado que tem uma doença grave, a primeira coisa que faz é prometer que vai mudar radicalmente de vida. Depois de algumas semanas, passado o susto, volta a cometer os mesmos erros, deixa a caminhada de lado, retorna à cerveja e às carnes gordurosas. Assim aconteceu comigo. Você sabe, tenho 60 anos cravados. Uma mulher linda e dedicada, e três filhos, todos crescidos e encaminhados. Mas eu achava que viveria até os 100, e esse foi meu erro. Eu já sabia que minha saúde não andava bem das pernas, mas relaxei, e não me cuidei. Agora a coisa ficou séria. Estive novamente no médico, pra umas baterias de exames. Se eu quiser ter uns anos extras de vida, vou ter que entrar na linha, senão...
Eu já havia te falado sobre isso.
Sei, lembro. Mas eu não tinha noção do tamanho da enrascada. Mesmo assim, te garanto que não temo a morte. E Epicuro me lembra: “Por que ter medo da morte? Enquanto somos, a morte não existe, e quando ela passa a existir, nós deixamos de ser." O que me faz agora me agarrar à vida com unhas e dentes, é que finalmente percebi que a vida é melhor do que eu pensava, apesar de tudo... apesar de tudo, eu quero viver.
Fico feliz que tenhas agora tomado consciência disso...
Você ouviu falar na enfermeira Bronnie Ware, autora de um livro que trata dos arrependimentos de quem está para morrer? Ela o escreveu após anos convivendo com pessoas em estado terminal. O primeiro dos arrependimentos é: “Muito me arrependo de não ter vivido a vida que eu queria viver, mas de ter vivido a vida que os outros esperavam que eu vivesse”.
Você se arrepende do quê?
Nossa! De tanta coisa. Eu faria muita coisa diferente. A primeira, teria sido mais cuidadoso com minha saúde. A outra, teria sido menos inseguro nas minhas relações. Esses dias, prestei atenção à letra Epitáfio, dos Titãs.
Diz assim “Devia ter amado mais/Ter chorado mais/Ter visto o sol nascer/ Devia ter arriscado mais/E até errado mais/Ter feito o que eu queria fazer...”
É linda e profunda essa letra...
Sim, e serve perfeitamente para mim nessa hora.
Nesse instante, meu amigo me abraçou, e algumas lágrimas inevitáveis desceram sobre minhas faces. Eu estava me redimindo de meus pecados.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Gatos (Tiago Nascimento)

Eu tenho um gato.


Anônimo.


Já tive dois.


Um deles preferiu exilar-se no mundo a ter minha companhia cotidiana. Explico-me, era um tanto rabugento naquelas eras.


Com seu desaparecimento mudei. Já disse alguém que só damos valor à alguém quando o perdemos. Talvez estivesse certo...


O fato é que mudei. Tornei-me o melhor dono que um gato poderia querer e ter, pois há uma distância considerável entre querer e ter. Mas isso não vem ao caso agora.


Minha repentina mudança, forçada talvez, fez com que por alguns momentos meu segundo bichano me quisesse ter por perto. Por algumas breves tardes & noites nos aninhamos na mesma poltrona da sala, cada um com suas atividades, cada um com seus afazeres e prazeres: Um filme de Kubrick, tigela de leite quente, um cd de Jorge Drexler,  carícia na orelha esquerda, uma aventura com Hercule Poirot, cobertor quentinho (...)


Mas aí veio a paixão. A arrebatadora paixão. Quantos casamentos já não armou? E quantos divórcios também? A controversa paixão.


Meu segundo gato trocou-me por uma gata qualquer no cio. Respeitei sua opção, afinal sou um dono compreensivo, quase um pai. Mas isso não impediu um ou outro suspiro saudoso de escapulir-me pelo peito acima, boca-nariz abaixo.


Suspirei.


Mas sobrevivi.


E agora, quando já me havia acostumado com a falta dele, com a ausência dos pelos cinza no sofá da sala, com a inexistência de rastros felinos enlameados no chão da cozinha, logo agora; ele volta.


E volta galante. Miando de fome, mas imponente. Senhor de si. Como só os gatos podem ser de vez em quando, quando bem entendem.


Meu companheiro voltou. Voltaram as noites frias debaixo do cobertor com um olho no livro, um dedo no controle remoto, um fone no ouvido, um grito de gol livre da garganta, uma pata no colo, um focinho no leite, um homem e um felino misturados numa poltrona arranhada pelas unhas afiadas de quem será?!


Ele Voltou.


Mas como toda ação causa uma reação, segunda-feira no mais tardar mandarei castrá-lo. Sou um bom dono. Mas também sou ciúmento!




:)