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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Noites de Sábado (Robert Brotzke)

Jaraguá do Sul possui uma mistura de gostos, de culturas, de sotaques, de preferências por estilos musicais, e todas elas possuem o seu espaço, e os ambientes em que os amantes de cada estilo se reúnem para se divertir nos fins de semana.

Há aqueles lugares que tocam apenas samba, trazendo um pouco da cultura carioca juntamente com suas músicas e cervejas; tem os ambientes que tocam música mais pesada, tanto do rock nacional quanto internacional; tem as baladas de musica eletrônica, e aquelas que tocam um pouco de tudo, mas especialmente sertanejo universitário e funk, com a vinda de artistas de renome nacional.

Em partes, casa estilo vive muito bem, sem precisar entrar em conflito com o outro, e todos aproveitam o seu merecido descanso se divertindo e bebendo, como todas as juventudes anteriores também fizeram. Porém, devido a sugestão de cada uma das músicas, o ambiente toma um lugar de mais ou de menos sedução, libido e desinibição. Quem nunca presenciou ou participou de uma balada em que nos pequenos corredores que haviam para circulação, as garotas foram descaradamente assediadas, com tapas e apertões na bunda? (algumas vão com shorts bem curtinho, justamente pra isso).

Quando os pais dessas garotas que começaram a sair para a noite há pouco tempo, pediam como ia ser, e pra onde iriam, recebiam a notícia de que todo o pessoal da escola e da faculdade estaria lá, para tranquilizá-los. Um único pedido dos pais, é pra filha jamais ir ao lugar que só toca rock, pois segundo eles, não é um ambiente de família, onde (no ponto de vista deles) só é frequentado por pessoas que bebem, se drogam e que não respeita garota nenhuma.

Duas irmãs, diferentes uma da outra por capricho da natureza, saíram juntas numa determinada noite, mas tomaram rumos diferentes: uma foi pro Pirata, e a outra em uma festinha "open bar" para elas, até a meia noite. No lugar que só toca rock, ela recebe uma fita de maior de idade para poder comprar bebidas, assim como a irmã que foi para a outra balada; Chegando lá, observa um ambiente estilo bar americano de filmes de faroeste, com um rock n' roll tocando ao fundo, algumas mesinhas redondas em frente ao bar, mesas de sinuca distribuídas pelo espaço, e ao canto esquerdo o palco, com os instrumentos musicais de uma banda que se apresentara em seguida.

A outra irmã foi surpreendida logo na entrada por um gogo boy vestido de sunga preta, e uma gravata de garçom, que puxava as garotas mais tímidas (e ainda sóbrias) para o palco, fazendo-as sentar numa cadeira reclinável, onde ela foi vendada e segura por uma mão, que alisava o corpo do indivíduo enquanto o mesmo preparava o drink de Tequila, para deixá-la "enturmada".

Enquanto isso, a primeira garota foi convidada a jogar sinuca com um rapaz cabeludo que se ofereceu pra fazer companhia, e meia hora depois, foram para a direção do palco, onde já começava o solo de guitarra da banda. Ela colocou um pé no palco, com mais ou menos 40 centímetros de altura, e agitava a cabeça sem parar, embalada pelo som distorcido da primeira música da banda. Um pouco atrás dela, uma "roda punk" começa a ser formada, inclusive com as garotas mais revoltadas com este sistema social podre, tornando o ambiente por três minutos, num divino caos organizado.

No outro lugar, a garota já tinha descido pra pista, quando começa uma sequência de músicas nacionais, do novo cenário musical, e ela começa a dançar sozinha. Não demora muito pra perceber que está dentro de uma rodinha formada por alguns rapazes, que passam a dançar colados com ela, e a oferecer bebidas sem parar. Quando ela se cansa e a música de torna chata, ela vai ao banheiro. Na volta é surpreendida por um dos rapazes da roda, que oferece todas as bebidas que ela quiser naquela noite, e em troca, ela teria que aceitar uma carona pra casa. Ela por um instante evita-o, encarando nos olhos com um sorriso congelado, mas acaba aceitando quando ele é surpreendido por uma das amigas de balada dele, que quando vai dar um beijo no rosto, quase acerta a boca; assim que essa garota se afasta, ela toma de sua mão o copo de caipirinha, e caminha até a mesa do rapaz. Ele se aproxima das escadas que dá acesso à área VIP, e informa aos seguranças que ela pode passar "de boa", e assim ela vai até a mesinha, onde os dois trocam ardentes carícias, e antes que a festa terminasse, vão para o motel.

Acha que a outra irmã não se deu bem na noite? claro que sim! o garoto cabeludo que estava acompanhando-a, também fez a mesma proposta, e ela aceitou também, porque independente do lugar, as duas queriam mesmo é aproveitar a noite da melhor forma possível. A diferença é que pra primeira, o ambiente do Pirata não era tecnicamente sedutor, muito pelo contrário, ali as pessoas vão pra curtir a noite, os casais ficam juntos o tempo todo, sem se preocupar com um bêbado folgado que venha a mexer com a sua parceira. O cabeludo a convenceu após uma longa conversa e fichas de sinuca, e têm tudo pra iniciar um namoro, já que ambos estavam cansados da mesmice que o mundo se transformou... e para a outra irmã, estava em um ambiente propício para a libido e a luxúria, e a ida pro motel foi apenas resultado do álcool no sangue.

No dia seguinte, a irmã que foi curtir um rock contou que não foi junto com a outra, na festa "open bar", e foi duramente criticada pelos seus pais, que falaram que lá não era lugar de moça direita. A outra, apenas sorriu e foi caminhar no parque no domingo a tarde, como o "bom exemplo" da família.


Robert Brotzke

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Dualidade (Vana Comissoli)

dualidade


Maria e Estela, irmãs gêmeas idênticas. Nomes tão díspares. Os pais, ao terem gêmeos, tendem a dar nomes semelhantes, não que isso seja bom, é até mesmo ruim, amalgamam os filhos e eles se enroscam num só tronco, quando muito com quatro pernas, mas a tragédia permanente de duas cabeças está sempre presente. Inexorável.


Conosco não foi assim,desde o começo as diferenças foram estabelecidas. Meus pais teriam pressentido o inevitável e escolheram nomes díspares? Maria e Estela...


Nasci primeiro, pelo menos era o palpite de minha mãe, estava com o cordão umbilical de Estela enrolado no pescoço e os médicos nem olharam direito a minha cara, embora isso não fosse fazer a menor diferença, correram a salvar minha irmã. Quem ficou cianótica fui eu. Ela prontamente berrou para que o mundo viesse saudá-la, no que ele obedeceu. As visitas que vinham para as duas, logo desistiram de mim,era o mesmo rostinho, mas eu chorava sem parar e não tinha graça nenhuma fazer bilu-bilu para um saco de berros. Muitos dias depois o pediatra se deu conta que leite tinha apenas para Estela, sempre a primeira que entregavam à minha mãe para amamentar. A enfermeira jurou por tudo que era santo que intercalava, podia se enganar, tão parecidas as meninas!


Podem não acreditar, mas eu podia ver Estela piscando o olho e sorrindo matreira.


Crescer não foi problema, o organismo se encarregou de não fazer diferença conforme estava escrito no DNA. Brincávamos juntas, dormíamos juntas, vestíamos igual. Nos retratos nunca sabiam quem era eu e quem era ela. Estela gostava de brincar de imitação,eu não gostava nem um pouco. Não gostava de nada que ela gostava: arrancar as pernas das formigas, chutar o gato que eu amava. Comer fruta verde e passar mal. Quem comia era eu, elas apenas cheirava e revirava os olhos antecipando na minha boca o sabor mais delicioso do mundo.


Naquele dia, Estela parou à minha frente fazendo tudo que eu fazia, normalmente eu acabava chorando e ela rindo, desta vez entrei em pânico, achei que era um espelho. Não era minha irmã que estava ali, fazendo os meus gestos, era eu frente ao espelho e não gostava do olhar penetrante, um brilho verde no fundo que não conhecia. Era eu e não era eu. Estapeei o espelho até ficar com o rosto vermelho, as mãos doloridas e os pulsos sangrando. Os meus berros trouxeram nossa mãe espavorida enquanto Estela ria com um filete vermelho escorrendo da testa e entrando olho a dentro dando-lhe um ar diabólico que me fez gritar mais alto.


Tinha medo dela. Às vezes me assombrava uma estranha sensação de que éramos gêmeas xifópagas onde tínhamos o mesmo corpo sem individualidade, mas cabeças opostas. Minha irmã era sinistra, assim eu a percebia, e seu corpo idêntico me alucinava, como se houvesse algo daquele mal dentro de mim. Éramos inimigas com vínculos severos e atordoantes, que me confundiam.  A reconhecia como se tivesse vivido com ela outras vidas estranhas e escuras. Lembrava seu rosto adulto, diferente do meu, mas com o mesmo olhar verde limo, queria renegá-la e não conseguia.


Um espinho todos os dias era remexido na ferida cada vez que ouvia mamãe nos chamando: Maria! Estela! Estrela matutina, luz do dia, esse deveria ter sido meu nome, mas foi Maria, a enxotada na cozinha, a mais banal das banais. A que os cabelos não brilhavam ao sol, a de pele fosca e sempre ranhenta num resfriado sem fim.


Iguais e tão diferentes! Uma linda, brilhante, sedutora, manhosa, matreira. A outra calada,olhos de desvio, silêncio em movimento, organizada, disciplina férrea. A ordem e a disciplina me preveniam de não escorregar no escuro túnel onde eu trombaria com ela que iria para dentro de mim, rindo de minha falta de jeito. Eu seria consumida.


Um karma infeliz que divertia minha irmã e me prostrava em cima da cama à busca de entendimento. A ideia de união indissolúvel era cada vez mais forte, apesar de tudo sabia que sem ela não poderia viver. Não havia ligações físicas a se efetuar por diversos órgãos inviabilizando a sobrevivência de ambas, mas havia esta ligação de estalos e gemidos. A gota d’água pingando sem parar. Plim... Plim... Plim... Tapava os ouvidos e a gota continuava no balde de minha cabeça rompendo lentamente o que restava de elo com o mundo.


Eu via os liames se enroscando entre nossas camas nas noites de pesadelo e não conseguia me afastar, tinha medo que a estrangulassem e ela morta, eu também estaria. Não podia permitir melhor a fixação patológica que me mantinha viva. Eu a odiava. Queria ser boa, ter os conhecidos sentimentos gentis e ela... ela me amava tortamente me infernizando com seu riso de princesa. Zombando enquanto todos a ouviam cantar embevecidos. Eu não cantava uma nota sequer no tom certo e não decorava letra de música alguma além de “Atirei o pau no gato”. Logo esta que me doía só de imaginar meu gatinho amparando a lambada. Lambada dada por Estela.


Quando decidiu perto dos 14 anos que pintaria o cabelo, senti que parte de mim sumiria.


- De maneira nenhuma! Somos gêmeas, temos que ser iguais.


- Não, não temos. Só somos gêmeas, não pensamos igual, não sentimos igual. E não pintarás igual a mim, não quero que sejas eu.


Dizia isso com a lâmina apoiada nos pulsos, os olhos fixos nos meus a me castigar. Não sabia o que fazer. Apelei para minha mãe que achou uma grande bobagem, que cada uma fizesse o que quisesse. Éramos apenas gêmeas.


Na escola, ela tinha amigas e eu não desgrudava dela, também queria que as meninas conversassem comigo. Eu era quieta, nunca tinha a piada certa, a perspicácia de perceber as situações: - Ah... é? É? Como assim? – terminava por aqui a minha presença de espírito e Estela ria, fazia chacota de minha timidez paralisante.


Nos pesadelos que sacudiam minhas noites, eu era Estela e Estela... Não existia.


Não sei como ninguém enxergava sua perversidade apesar de fazer tudo às escondidas. Já adolescente, tirava dinheiro da carteira de meu pai e comprava cigarros que fumava no fundo das esquinas, depois, sem que eu visse, guardava as bitucas no meio de minha roupa íntima, onde mamãe acabou achando e eu levei uma surra e castigo de dois dias.


Muito antes de eu pensar em namoradinhos, ela tinha fãs que deixavam de comer merenda para lhe comprar um sorvete. Eu não queria saber de meninos, tinha certeza que se gostasse de algum, ela daria um jeito de pegar para si e sei que ele não hesitaria em fazer a troca. Não queria ser mais infeliz do que era.


Lentamente, fui mudando, o desejo de ser boa foi virando gelo derretido e me esfriando por dentro. Comecei a ter consciência que a odiava de fato e que, enquanto vivesse ao seu lado, eu não passaria de uma sombra.


Na escola, nossas letras absolutamente iguais, eram um problema, ela assinava meu nome nas provas e eu não tinha como provar a usurpação. Ela tirava 10, jurava que a troca tinha sido feita por mim. Sempre duas provas com o mesmo nome e ninguém podia ver nada de estranho nisso?


Aguentei até os 18 anos, a idade da independência, ou quase... Na hora de escolhermos a profissão, naturalmente queríamos a mesma coisa. Pela primeira vez fui esperta e deixei que Estela falasse primeiro, era a forma de conhecer seu segredo bem guardado: o que desejava da vida? Cruzei os dedos sem muita fé para que não fosse o mesmo que eu. Ela respondeu segura: Medicina. Quero ajudar as pessoas e não temo o sangue, nem o sofrimento, trazem sempre a cura. Ou a morte, grunhi.


Foi um dilema, a mesma faculdade? Todos os dias vê-la brilhando enquanto eu me desvanecia cada vez mais? A sensação era de dissolver-me enquanto Estela se tornava cada vez mais brilhante e suas brincadeiras mais ferinas, seu olhar punha maresia nos meus cabelos e nos dos outros como a refrigerar as ideias, menos as minhas. Eu fervia.


Não abri mão de meu sonho, queria dissecar as pessoas, descobrir onde se escondiam as almas e por que se enovelavam deste jeito atroz. A busca era mais forte do que eu. Haveria de suportar a presença de minha irmã apesar da gastrite que tinha quando passávamos muitas horas juntas e da urticária infeliz que me cobria o corpo caso minha mãe, inadvertidamente trocasse nossas roupas que continuavam iguais. Por que nos vestíamos igual se a mudança era tão simples? Eu não consegui mudar. Sofri e fiquei doente nas poucas tentativas que fiz, a depressão me vencia. Caixas e caixas de remédios tarja preta e fotos sobre a cama de nós duas iguais com expressões tão antagônicas. O claro e o escuro? A sombra e a luz? O bom e o mal? Não creio nesta dicotomia ridícula e infantil. Apenas diferenças que amarguram.


Logo em seguida, dois anos apenas... Por exaustão? Desistência? Incapacidade? Escolha? Desígnio? Sofremos um terrível acidente de carro.


Hoje estou deitada neste caixão e o cheiro das flores que morrem me incomoda. Estela não repousa no dela, senta-se tricotando calmamente uma esquisita roupa de bebê com duas pernas e quatro braços.


Outra vez? Quantas vezes ainda?


Consegui me levantar e saí. Na minha lápide recém colocada, meu nome em dourado, imagina só! Dourado!


Com saudades, nossa única e amada filha


Maria Estela Gomes Carneiro.


Seus amoráveis pais.


Vana Comissoli