quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Dualidade (Vana Comissoli)

dualidade


Maria e Estela, irmãs gêmeas idênticas. Nomes tão díspares. Os pais, ao terem gêmeos, tendem a dar nomes semelhantes, não que isso seja bom, é até mesmo ruim, amalgamam os filhos e eles se enroscam num só tronco, quando muito com quatro pernas, mas a tragédia permanente de duas cabeças está sempre presente. Inexorável.


Conosco não foi assim,desde o começo as diferenças foram estabelecidas. Meus pais teriam pressentido o inevitável e escolheram nomes díspares? Maria e Estela...


Nasci primeiro, pelo menos era o palpite de minha mãe, estava com o cordão umbilical de Estela enrolado no pescoço e os médicos nem olharam direito a minha cara, embora isso não fosse fazer a menor diferença, correram a salvar minha irmã. Quem ficou cianótica fui eu. Ela prontamente berrou para que o mundo viesse saudá-la, no que ele obedeceu. As visitas que vinham para as duas, logo desistiram de mim,era o mesmo rostinho, mas eu chorava sem parar e não tinha graça nenhuma fazer bilu-bilu para um saco de berros. Muitos dias depois o pediatra se deu conta que leite tinha apenas para Estela, sempre a primeira que entregavam à minha mãe para amamentar. A enfermeira jurou por tudo que era santo que intercalava, podia se enganar, tão parecidas as meninas!


Podem não acreditar, mas eu podia ver Estela piscando o olho e sorrindo matreira.


Crescer não foi problema, o organismo se encarregou de não fazer diferença conforme estava escrito no DNA. Brincávamos juntas, dormíamos juntas, vestíamos igual. Nos retratos nunca sabiam quem era eu e quem era ela. Estela gostava de brincar de imitação,eu não gostava nem um pouco. Não gostava de nada que ela gostava: arrancar as pernas das formigas, chutar o gato que eu amava. Comer fruta verde e passar mal. Quem comia era eu, elas apenas cheirava e revirava os olhos antecipando na minha boca o sabor mais delicioso do mundo.


Naquele dia, Estela parou à minha frente fazendo tudo que eu fazia, normalmente eu acabava chorando e ela rindo, desta vez entrei em pânico, achei que era um espelho. Não era minha irmã que estava ali, fazendo os meus gestos, era eu frente ao espelho e não gostava do olhar penetrante, um brilho verde no fundo que não conhecia. Era eu e não era eu. Estapeei o espelho até ficar com o rosto vermelho, as mãos doloridas e os pulsos sangrando. Os meus berros trouxeram nossa mãe espavorida enquanto Estela ria com um filete vermelho escorrendo da testa e entrando olho a dentro dando-lhe um ar diabólico que me fez gritar mais alto.


Tinha medo dela. Às vezes me assombrava uma estranha sensação de que éramos gêmeas xifópagas onde tínhamos o mesmo corpo sem individualidade, mas cabeças opostas. Minha irmã era sinistra, assim eu a percebia, e seu corpo idêntico me alucinava, como se houvesse algo daquele mal dentro de mim. Éramos inimigas com vínculos severos e atordoantes, que me confundiam.  A reconhecia como se tivesse vivido com ela outras vidas estranhas e escuras. Lembrava seu rosto adulto, diferente do meu, mas com o mesmo olhar verde limo, queria renegá-la e não conseguia.


Um espinho todos os dias era remexido na ferida cada vez que ouvia mamãe nos chamando: Maria! Estela! Estrela matutina, luz do dia, esse deveria ter sido meu nome, mas foi Maria, a enxotada na cozinha, a mais banal das banais. A que os cabelos não brilhavam ao sol, a de pele fosca e sempre ranhenta num resfriado sem fim.


Iguais e tão diferentes! Uma linda, brilhante, sedutora, manhosa, matreira. A outra calada,olhos de desvio, silêncio em movimento, organizada, disciplina férrea. A ordem e a disciplina me preveniam de não escorregar no escuro túnel onde eu trombaria com ela que iria para dentro de mim, rindo de minha falta de jeito. Eu seria consumida.


Um karma infeliz que divertia minha irmã e me prostrava em cima da cama à busca de entendimento. A ideia de união indissolúvel era cada vez mais forte, apesar de tudo sabia que sem ela não poderia viver. Não havia ligações físicas a se efetuar por diversos órgãos inviabilizando a sobrevivência de ambas, mas havia esta ligação de estalos e gemidos. A gota d’água pingando sem parar. Plim... Plim... Plim... Tapava os ouvidos e a gota continuava no balde de minha cabeça rompendo lentamente o que restava de elo com o mundo.


Eu via os liames se enroscando entre nossas camas nas noites de pesadelo e não conseguia me afastar, tinha medo que a estrangulassem e ela morta, eu também estaria. Não podia permitir melhor a fixação patológica que me mantinha viva. Eu a odiava. Queria ser boa, ter os conhecidos sentimentos gentis e ela... ela me amava tortamente me infernizando com seu riso de princesa. Zombando enquanto todos a ouviam cantar embevecidos. Eu não cantava uma nota sequer no tom certo e não decorava letra de música alguma além de “Atirei o pau no gato”. Logo esta que me doía só de imaginar meu gatinho amparando a lambada. Lambada dada por Estela.


Quando decidiu perto dos 14 anos que pintaria o cabelo, senti que parte de mim sumiria.


- De maneira nenhuma! Somos gêmeas, temos que ser iguais.


- Não, não temos. Só somos gêmeas, não pensamos igual, não sentimos igual. E não pintarás igual a mim, não quero que sejas eu.


Dizia isso com a lâmina apoiada nos pulsos, os olhos fixos nos meus a me castigar. Não sabia o que fazer. Apelei para minha mãe que achou uma grande bobagem, que cada uma fizesse o que quisesse. Éramos apenas gêmeas.


Na escola, ela tinha amigas e eu não desgrudava dela, também queria que as meninas conversassem comigo. Eu era quieta, nunca tinha a piada certa, a perspicácia de perceber as situações: - Ah... é? É? Como assim? – terminava por aqui a minha presença de espírito e Estela ria, fazia chacota de minha timidez paralisante.


Nos pesadelos que sacudiam minhas noites, eu era Estela e Estela... Não existia.


Não sei como ninguém enxergava sua perversidade apesar de fazer tudo às escondidas. Já adolescente, tirava dinheiro da carteira de meu pai e comprava cigarros que fumava no fundo das esquinas, depois, sem que eu visse, guardava as bitucas no meio de minha roupa íntima, onde mamãe acabou achando e eu levei uma surra e castigo de dois dias.


Muito antes de eu pensar em namoradinhos, ela tinha fãs que deixavam de comer merenda para lhe comprar um sorvete. Eu não queria saber de meninos, tinha certeza que se gostasse de algum, ela daria um jeito de pegar para si e sei que ele não hesitaria em fazer a troca. Não queria ser mais infeliz do que era.


Lentamente, fui mudando, o desejo de ser boa foi virando gelo derretido e me esfriando por dentro. Comecei a ter consciência que a odiava de fato e que, enquanto vivesse ao seu lado, eu não passaria de uma sombra.


Na escola, nossas letras absolutamente iguais, eram um problema, ela assinava meu nome nas provas e eu não tinha como provar a usurpação. Ela tirava 10, jurava que a troca tinha sido feita por mim. Sempre duas provas com o mesmo nome e ninguém podia ver nada de estranho nisso?


Aguentei até os 18 anos, a idade da independência, ou quase... Na hora de escolhermos a profissão, naturalmente queríamos a mesma coisa. Pela primeira vez fui esperta e deixei que Estela falasse primeiro, era a forma de conhecer seu segredo bem guardado: o que desejava da vida? Cruzei os dedos sem muita fé para que não fosse o mesmo que eu. Ela respondeu segura: Medicina. Quero ajudar as pessoas e não temo o sangue, nem o sofrimento, trazem sempre a cura. Ou a morte, grunhi.


Foi um dilema, a mesma faculdade? Todos os dias vê-la brilhando enquanto eu me desvanecia cada vez mais? A sensação era de dissolver-me enquanto Estela se tornava cada vez mais brilhante e suas brincadeiras mais ferinas, seu olhar punha maresia nos meus cabelos e nos dos outros como a refrigerar as ideias, menos as minhas. Eu fervia.


Não abri mão de meu sonho, queria dissecar as pessoas, descobrir onde se escondiam as almas e por que se enovelavam deste jeito atroz. A busca era mais forte do que eu. Haveria de suportar a presença de minha irmã apesar da gastrite que tinha quando passávamos muitas horas juntas e da urticária infeliz que me cobria o corpo caso minha mãe, inadvertidamente trocasse nossas roupas que continuavam iguais. Por que nos vestíamos igual se a mudança era tão simples? Eu não consegui mudar. Sofri e fiquei doente nas poucas tentativas que fiz, a depressão me vencia. Caixas e caixas de remédios tarja preta e fotos sobre a cama de nós duas iguais com expressões tão antagônicas. O claro e o escuro? A sombra e a luz? O bom e o mal? Não creio nesta dicotomia ridícula e infantil. Apenas diferenças que amarguram.


Logo em seguida, dois anos apenas... Por exaustão? Desistência? Incapacidade? Escolha? Desígnio? Sofremos um terrível acidente de carro.


Hoje estou deitada neste caixão e o cheiro das flores que morrem me incomoda. Estela não repousa no dela, senta-se tricotando calmamente uma esquisita roupa de bebê com duas pernas e quatro braços.


Outra vez? Quantas vezes ainda?


Consegui me levantar e saí. Na minha lápide recém colocada, meu nome em dourado, imagina só! Dourado!


Com saudades, nossa única e amada filha


Maria Estela Gomes Carneiro.


Seus amoráveis pais.


Vana Comissoli

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Há três dias do fim do mundo (Fernando Bastos)

Se você não esteve em Marte nesse último ano, já deve saber sobre a onda de pânico que se assolou mundo afora por conta da famosa previsão Maia do fim do mundo marcada para meia-noite do dia 21 de dezembro de 2012. Daqui há três dias.
Uma pesquisa realizada pela Ipsos Global Public Affairs, com sede em Nova York, mostra que cerca de 10% da população mundial acredita na previsão Maia sobre o fim do mundo para esse ano.
A NASA, preocupada com o pânico das pessoas – que ligam, mandam e-mail e cartas perguntando se é verdade que o mundo vai acabar dia 21 -, divulgou um vídeo explicando porque o mundo não vai acabar nessa data. Todos os argumentos dos que acreditam nas previsões maias são derrubados com elegância pelas explicações cientificas (http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI299017-17770,00CIENTISTA+DA+NASA+EXPLICA+POR+QUE+O+MUNDO+NAO+VAI+ACABAR+EM.html).
Há casos de pais que disseram estar decididos a cometer suicídio junto com os filhos, para poupá-los de ver o fim do mundo. Segundo a pesquisa, os mais crentes de que o mundo vai de fato acabar, estão os jovens abaixo dos 35 anos, as crianças e as pessoas com menor grau de instrução.
É impossível saber quantas previsões de fim do mundo já foram feitas desde que o ser humano olhou para o céu e começou a questionar a existência. Mas há registros em quase todas as culturas antigas que já tentavam predizer quando tudo iria acabar. Como tais previsões sempre falham, logo tratam de inventar uma nota data. O ser humano gosta de ver o circo pegar fogo. No último dia do ano 999, igrejas ficaram lotadas na Europa, e houve grande número de suicídios, ricos doando seus bens aos pobres, genros fazendo as pazes com as sogras, etc.
Isso se repetiu recentemente, no último dia de dezembro de 1999. Com menos pânico, pois o ser humano evoluiu bastante e já não é tão crédulo como há mil anos.
Mas uma previsão que eu faço você pode acreditar: assim que amanhecer o dia 22 de dezembro desse ano e o mundo ainda estiver de pé, alguns profetas já estarão esfolando os cotovelos pensando em uma nova data para o próximo fim do mundo.

sábado, 15 de dezembro de 2012

E o trem passou... (Sônia Pillon)

soniapillon@gmail.com

Piuí, piuí, piuí... Tô chegando, tô chegando, tô chegando! Tô levando grãos de milho, soja e óleo... Tô lotado, tô lotado, tô lotado! Sai da frente, sai da frente, sai da frente! Tô deslizando pelos trilhos, rumo a São Francisco do Sul! Piuí, piuí, piuí...

O trem da ALL vem que vem contente! Chega carregado, imponente, com todos os seus vagões. Como em um desfile de escola de samba, com sua comissão de frente, o apito anuncia sua chegada, lembrando aquela famosa marchinha carnavalesca de Chiquinha Gonzaga... Como é mesmo o nome? Ah, “Ô Abre Alas!”...

Do lado de lá e de cá dos trilhos, pessoas e veículos ficam literalmente estacionados com a sua vinda. A cidade para ante sua passagem!...

Mas hoje o trem tem um motivo a mais para se alegrar e estufar o peito de orgulho! Como se não bastassem as memórias de mais de um século, do tempo em que a antiga estação passou a impulsionar o crescimento da cidade, hoje ele será recebido com festa!

É que o trem ficou sabendo que, em sua homenagem, um evento cultural estava em andamento, reunindo poetas e amantes da literatura. Nos trilhos por onde ele passaria, poemas eram recitados com grande emoção, e os sentimentos brotavam do fundo da alma...

Piuí, piuí, piuí... Tô chegando, tô chegando, tô chegando! Tô levando grãos de milho, soja e óleo... Tô lotado, Tô lotado, Tô lotado! Sai da frente, sai da frente, sai da frente! Tô deslizando pelos trilhos, rumo a São Francisco do Sul! Piuí, piuí, piuí...

A hora de entrar na cidade estava cada vez mais próxima. Agora, já dá para avistar um pequeno grupo ruidoso, que estava abanando, sorrindo, pronto para recepcionar o trem e seu séquito de vagões. E quando ele chegou, chegou bem perto... Ah, foi um delírio geral!... Palmas e gritos de alegria à sua chegada! Todos queriam registrar em fotos e vídeo aquele momento histórico e inesquecível...

Piuí, piuí, piuí... Tô chegando, tô chegando, tô chegando! Tô levando grãos de milho, soja e óleo... Tô lotado, tô lotado, tô lotado! Sai da frente, sai da frente, sai da frente! Deslizando pelos trilhos, rumo a São Francisco do Sul! Piuí, piuí, piuí...

E finalmente ele passou! Majestoso, garboso, apitando e fazendo vento à sua volta. Os Saraus de Poesias nos Trilhos do Trem de Jaraguá do Sul, com certeza vão ficar para sempre na memória de seus participantes...

Sônia Pillon é jornalista e escritora, de Porto Alegre (RS) e desde 1996 radicada em Jaraguá do Sul (SC).

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Poema Pelo Mundo (Adriana Niétzkar)



Chove,


mas é verão.


Escuta Raul!


Eu sempre gostei da chuva...


mas tinha medo!




O céu muda de cor


e continua sendo o mesmo céu


ainda que de ponta cabeça.




A alma não altera com o corpo;


As pessoas não mudam.


Há pessoas que perdem o medo


de ser-ver.




Quanto mais terras se pisa


mais se descobre a si


não importam os hábitos das mãos


ou as cores nos olhos.


Importa o que faz com sua alma


e a do próximo


e nos próximos.




Sedas não saciam sedes


ou a falta de luz.


Que importa o calor no escuro?!


Com a luz, há sombras.


Mas elas acolhem em dias de sol.




Há sim


meus olhos tem mudado de cor....

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O samba engana (Ítalo Puccini)

samba


Com o perdão da rima bastante pobre no título, leitor, escreverei esta croniqueta discorrendo (que verbo horrível) sobre a contradição que o samba apresenta aos ouvintes da “boa” música – e aqui o adjetivo boa está entre aspas porque me parece sempre necessária uma reflexão acerca das dualidades bom/mau, mal/bem, entre outras, algo que não farei nestas breves linhas, é claro.


Conforme canta o Seu Jorge, “o samba taí, o samba tá, tá no sangue daquele que sabe sambar” – e até dos que não sabem, ainda bem. Porque não curte samba só quem samba. Há quem seja apenas um bamba, um alguém que apenas arrisca uma trocada de pernas e uma gingada, quase sempre errando, e nem por isso menos contente.


Mas quem é que se atreve a dizer do que é feito o samba? Os Los Hermanos é que não (e aqui não há nenhum desmerecimento ao conjunto carioca de nome argentino, e sim apenas uma observação: eles não são peritos em samba). Mas compuseram uma beleza de música, com esta indagação acima. E acrescentando que se samba por gostar de alguém. E que um bom samba não tem lugar. E não tem mesmo. Vale fundo de quintal, vale sacada de prédio, vale calçada e vale a romantizada botecagem no bar.
(Só não vale confundir samba com pagode. Assunto pr’uma outra croniqueta).


Caetano é de cantar que o samba ainda vai nascer, que o samba ainda não chegou, que o samba é pai do prazer e filho da dor, e que desde que o samba é samba é assim: a tristeza é senhora. E é aí que eu retomo o título: o samba engana. Engana porque, ao apresentar um ritmo envolventemente-gostoso, faz o sujeito que é bom da cabeça cair em uma alegria contraditória à letra que está sendo cantada; faz vibrar de alegria o corpo que saracoteia ao som de trem das onze, e que não percebe que não se pode mais ficar um minuto com a pessoa amada, pois, perdendo o trem que dali às onze horas sairá, só amanhã de manhã.


As mulheres são cantadas em todos os sentidos no samba. Mais do que isso: são cantadas as dores que provocam nos sambistas e compositores – e nos homens em geral. Essas moças tão diferentes, não é mesmo, Chico? Fica fácil embalar-se no ritmo dessa canção, sem atentar-se para a dor da moça que, diferente, está me passando pra trás.Por mais que no fundo ainda me queira bem, ela guarda desdém, a safada. Igual a tantas outras.


O samba é aquilo que nos leva a andar com a cabeça já pelas tabelas. Porque um samba leva a uma lembrança – ou a uma cerveja –, que leva a outra, que leva a uma roda de pernas a bambar, que leva a um samba e batem-se panelas e palmas e. E de repente as mãos são erguidas, a voz vai alta e o coração não dá o alerta de que se está cantando “Tu te lembras da partida / Acenaste um pano branco / Mãos ao ar, fala contida / Choro preso em acalanto”.


Tá legal, eu aceito o argumento de que há também o samba de letra entusiasmada, afinal, como é bom viver e não ter a vergonha de ser feliz, não é mesmo? Assim como faz bem aquele sambinha lento, pra dançar mais abraçado, aquele samba que vem pra curar o abandono, ou até mesmo para torná-lo mais grave. São nossos sambas da benção, lembrando-nos de que a tristeza pode até não ter fim – apesar do ritmo contagiante – e de que, apesar de ser preciso um bocado de tristeza pra fazer um samba com beleza, é melhor ser alegre que ser triste, sim.


E não nos esqueçamos de que não se deve deixar o samba morrer. Não se deve deixar o samba acabar. Por mais que ele doa e engane.


Ítalo

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Carência (Marcelo Lamas)

Transferido para a cidade do interior, Arthur precisou saber quem era o síndico para
resolver um problema de falta de água quente no apartamento. Ao descobrir que era uma
mulher, imaginou viúva, aposentada que passara seus dias pegando no pé do porteiro e
da zeladora. Quando a porta do 504 abriu, ele deu de cara com uma japa mestiça com
admiráveis nuances e percebeu que Adriana era casada, pois, viu uma enorme fotografia de
casal na parede.


Embora no trabalho as coisas estivessem indo bem, ele sentia falta de socializar-
se noutros ambientes. Foi quando cruzou com Adriana na garagem, acompanhada do seu
marido, vestido de branco. Médico ou dentista? – pensou. À noite, decidiu procurá-la no
face, pois ela certamente teria amigas, também interessantes, para lhe apresentar.


Ela o adicionou e passaram a conversar todas as noites. Acostumada a ser
cortejada pelos homens, inconscientemente, o desinteresse dele a atraia. Também não era
do feitio dele envolver-se com mulheres comprometidas. Embora fosse bonita, inteligente e
bem resolvida, sutilmente ela dava sinais de baixa auto-estima, mal-amada talvez.


Ela sugeriu que saíssem para conhecerem-se melhor. Ele perguntou como ficaria a
situação do marido. Adriana disse que já havia pensado num plano. O encontro seria numa
cidade vizinha. No dia marcado, a pedido dela, tiveram que abortar o plano, pois chovia
muito e uma viagem não seria conveniente. Ele achou que tudo seria cancelado. Adriana
remarcou para um restaurante dali mesmo e apareceu com uma amiga, fazendo o papel de
pretendente dele. Depois de uma conversa boa, saquês e afins, decidiram ir embora. No
estacionamento ela sussurrou para ele deixar a porta do apartamento aberta.


Daquele dia em diante, ela passou a desviar dele. Só dirigiu-lhe a palavra para dizer
que seu casamento tinha melhorado muito e que não queria problemas.


Seduzido, ele a procurou inúmeras vezes, mas não teve êxito. Vai ser difícil
esquecer a lingerie preta e de tudo o que aconteceu naquela noite.


Nota do autor: esta história é uma homenagem deste escriba ao centenário de
Nelson Rodrigues, o escritor que afirmava ver o mundo pelo buraco da fechadura: “Não vou para o inferno. Mas não tenho asas”. 


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Escritora Convidada: Elyandria Silva

O LEITEIRO


A cena visitou minha mente naquele instante duvidoso. Era bem cedo. Ainda na cama, sonolenta, escutava o barulho de palmas lá embaixo. Segundos depois minha vó descia a longa escada de nossa casa, abria a porta, tão fechada quanto entrada de calabouço, com uma enorme tramela na horizontal. Poucas palavras trocadas com um homem, trotes vagarosos de cavalo pela rua, o retorno pela escada e a porta sendo fechada. Quando levantava lá estava a garrafa transparente de leite, ainda morno, em cima da mesa. O homem era o leiteiro que, praticamente todos os dias, trazia o nosso leite. Nunca vi seu rosto e durante anos ele foi apenas uma voz que ouvia pela janela. Certa vez ganhamos leite de graça por um ano por conta de uma aposta. De presente de casamento meus pais ganharam uma leiteira que apitava escandalosamente quando o leite estava quente. O leiteiro, sujeito simples e caipira do interior, quando ouviu isto de minha mãe, não acreditou e disse que nos daria leite de graça por um ano caso comprovassem o feito. Perdeu a aposta! Encantado com a geringonça doméstica ele fez questão de cumprir o que prometeu até o último mês, embora meu pai relutasse em aceitar.
Muito tempo depois, eu, a garota que aguardava a chegada do litro branco e morno para levantar e tomar o café me via ali, mais uma vez, diante da comprida prateleira com tantas opções de tipos no supermercado. Olho para a fila do pão e uma ideia inusitada me ataca: uma vaquinha devidamente instalada dentro do supermercado, as pessoas pegando senha, o Sr. Leiteiro sentado no banquinho tirando o líquido das tetas da vaca, enchendo as garrafas, fazendo a chamada do número e entregando aos clientes. Volto para a realidade, me dá uma saudade do tempo em que a vida, de maneira geral, não era encaixada, em que a falta de opção era algo bom. Desejei abrir os classificados dos jornais e ler anúncios do tipo “Precisa-se de leiteiros com experiência. Paga-se bem. Urgente!” ou então “Abertas inscrições para o curso de leiteiro”. Foi para minha surpresa que encontrei este curso na internet com módulo I e II, estrutura curricular, direito a certificado após passar nas provas, claro, tudo pelo valor de 12 pagamentos de R$ 30,00 mensais. Uma barbada não? É, a vida moderna tem dessas coisas!
Fiz a escolha e segui com um poema de Carlos Drummond lá no canto do pensamento “Então o moço que é leiteiro/ de madrugada com sua lata/ sai correndo e distribuindo/ leite bom para gente ruim”. Isso é assim mesmo, são essas lembranças líquidas que, às vezes, nos transportam, por segundos, para uma lasca fina do passado.


Sobre a autora:
Elyandria Silva é graduada em Administração, com pós graduação em psicopedagogia. Além de atuar como cronista fixa e blogueira de literatura do Jornal O Correio do Povo ministra oficinas literárias e de crônicas.
A escritora l
ançou recentemente o seu terceiro livro, Labirinto de nomes (crônicas, Moleskine Editora, 2012). Antes a autora já havia publicado os livros Fadas de Pedra (contos, 2009) e Um lugar, versos e retalhos (poemas, 2010) ambos pela Design Editora.
Além dos livros publicados Elyandria, que transita bem por vários estilos, já havia participado das seguintes coletâneas:

Contos Jaraguaenses (Contos, Design Editora, 2007).
Jaraguá em Crônicas (Crônicas, Design Editora, 2007).
Preliminares (Contos e poesia, SESC, 2009).
Palavra em Cena (Textos teatrais, Design Editora, 2010).
Mundo Infinito (Contos, Design Editora, 2010).