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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O sarau de poesias (Sônia Pillon)

A majestosa porta de ferro se abre e a antessala se apresenta
impecavelmente preparada para o recital de poesias. Uma
mesa de centro redonda, com toalha de veludo cor de vinho,
uma mandala formada por cristais e dois castiçais com velas
recepcionava os visitantes e dava o tom retrô ao evento.
O convite indicava que o momento exigia roupagem de
época e alguns convidados levaram a sugestão à risca.
Afinal, a ideia era proporcionar uma viagem no tempo aos
participantes...
Pessoalmente, decidi usar uma saia longa, uma blusa com
botões e tirar do fundo da caixa aqueles colares de pérolas
falsas, até então abandonados, que de repente ganharam vida.
Para completar, um sapato scarpin bordado, comprado em
uma providencial liquidação e utilizado pouquíssimas vezes, e
uma bolsinha de mão, dessas que salvam qualquer modelito,
quando aparece uma festa de última hora...
Pronto! Agora é só recitar os poemas dos dois escritores que
escolhi, com uma linguagem atemporal, e aquele poeminha
modesto, sem grandes pretensões, que escrevi em cima de
reminiscências à beira-mar, criado por mim... Pretendo
utilizar alguns recursos do teatro amador e emprestar emoção
à recitação e, mais importante, fazer de tudo para não
gaguejar na hora, ou errar o texto...
A organizadora toca a sineta e dá as instruções para
o ritual. Um a um, os escritores locais vão timidamente
recitando as poesias de sua escolha. Aos poucos eles vão
se soltando, se deixando tomar pela emoção das palavras
impressas, entrando no clima dos poetas e de suas obras.
Inicialmente, o sarau estava restrito aos escritores
convidados, que se revezavam no toque da sineta e na leitura
das poesias. Depois o público começou a chegar, lentamente
e com certa desconfiança, mas foi ficando. Até os skatistas
que se divertiam com manobras no entorno do prédio
resolveram “conferir o que tava pegando”, atraídos pelo som
produzido pelo violonista.
O clima de magia tomou conta do lugar e o tempo
passava sem que se percebesse. Em determinado momento
do encontro lírico das letras, quando o sol estava se
pondo, o trem passou apitando bem perto e todos ficaram
surpreendidos e encantados ao mesmo tempo. Era um sinal de
confirmação: estava acabando mais uma etapa dos “Saraus de
Poesias nos Trilhos do Trem”. Todos foram embora levando
no peito uma pontinha de saudade...


Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre (RS) e desde 1996 radicada em Jaraguá do Sul (SC).

sábado, 15 de dezembro de 2012

E o trem passou... (Sônia Pillon)

soniapillon@gmail.com

Piuí, piuí, piuí... Tô chegando, tô chegando, tô chegando! Tô levando grãos de milho, soja e óleo... Tô lotado, tô lotado, tô lotado! Sai da frente, sai da frente, sai da frente! Tô deslizando pelos trilhos, rumo a São Francisco do Sul! Piuí, piuí, piuí...

O trem da ALL vem que vem contente! Chega carregado, imponente, com todos os seus vagões. Como em um desfile de escola de samba, com sua comissão de frente, o apito anuncia sua chegada, lembrando aquela famosa marchinha carnavalesca de Chiquinha Gonzaga... Como é mesmo o nome? Ah, “Ô Abre Alas!”...

Do lado de lá e de cá dos trilhos, pessoas e veículos ficam literalmente estacionados com a sua vinda. A cidade para ante sua passagem!...

Mas hoje o trem tem um motivo a mais para se alegrar e estufar o peito de orgulho! Como se não bastassem as memórias de mais de um século, do tempo em que a antiga estação passou a impulsionar o crescimento da cidade, hoje ele será recebido com festa!

É que o trem ficou sabendo que, em sua homenagem, um evento cultural estava em andamento, reunindo poetas e amantes da literatura. Nos trilhos por onde ele passaria, poemas eram recitados com grande emoção, e os sentimentos brotavam do fundo da alma...

Piuí, piuí, piuí... Tô chegando, tô chegando, tô chegando! Tô levando grãos de milho, soja e óleo... Tô lotado, Tô lotado, Tô lotado! Sai da frente, sai da frente, sai da frente! Tô deslizando pelos trilhos, rumo a São Francisco do Sul! Piuí, piuí, piuí...

A hora de entrar na cidade estava cada vez mais próxima. Agora, já dá para avistar um pequeno grupo ruidoso, que estava abanando, sorrindo, pronto para recepcionar o trem e seu séquito de vagões. E quando ele chegou, chegou bem perto... Ah, foi um delírio geral!... Palmas e gritos de alegria à sua chegada! Todos queriam registrar em fotos e vídeo aquele momento histórico e inesquecível...

Piuí, piuí, piuí... Tô chegando, tô chegando, tô chegando! Tô levando grãos de milho, soja e óleo... Tô lotado, tô lotado, tô lotado! Sai da frente, sai da frente, sai da frente! Deslizando pelos trilhos, rumo a São Francisco do Sul! Piuí, piuí, piuí...

E finalmente ele passou! Majestoso, garboso, apitando e fazendo vento à sua volta. Os Saraus de Poesias nos Trilhos do Trem de Jaraguá do Sul, com certeza vão ficar para sempre na memória de seus participantes...

Sônia Pillon é jornalista e escritora, de Porto Alegre (RS) e desde 1996 radicada em Jaraguá do Sul (SC).