domingo, 15 de maio de 2011

Seus Olhos (Vilson Rafael Riegel)

Chuva na janela.
Vidro vira vitral.
Seus olhos no lampejo
do raio
na janela.


Seus olhos
no espelho
vidrados
nos olhos meus
fitam também a chuva
no fundo,
no reflexo ,
no vitral.


No lampejo,
refletido
nos olhos seus.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Caixão pro Billy (Fernando Bastos)


Estávamos eu e um amigo conversando sobre gírias de nossa época, isto é, do século passado. Concluímos que a maioria das expressões, antigas ou atuais, não tem origem na região - foi importada de outras terras, de modo que os haoles que gostam de tirar uma palha de nosso jeito de falar, não sabem que muitas vezes nossas gírias vieram de outros lugares. É isso aí papudo.


A antológica Caixão pro Billy, usada quando algo deu errado é própria do manezinho de Florianópolis. É mole pro gaiteiro só podia ser dos gaúchos. Há no entanto, algumas gírias criadas aqui. Por exemplo, “não é vasel” – homenagem a antigo político jaraguaense - significa que algo não é fácil. Não achamos a origem de outra famosa de nossa época: “meu pau do Lelo”, que se referia a algo espantoso. Expressão sem nenhum teor de malícia ou que fizesse uma senhorinha de 80 anos ficar corada.


Por curiosidade, escrevi para meus contatos solicitando que me enviassem gírias conhecidas entre nós e, para meu espanto, saltaram em minha caixa de e-mail mais de 50 expressões “jaraguaenses”.


Eis algumas: Susse no musse - vamos ir - meu caneco! - fica frai, não descabelai – foi lá pra caixa prego - tomá no óschla – uh, seu corno! - é o demonho mesmo – vai caximbar formiga - eu dii (eu dei) - vai toda vida reto – pega asisquerda e depois asdireita – todo mundo xunto reunido – tem xente, uma veiz - capaiz! – meu bonje (forma sincopada de Meu Bom Jesus) – do tempo do Epa...


Quanto a minha conversa com o amigo em questão, uma dúvida nos corroeu. Até agora não sabermos se Billy e Lelo existiram. O que ficou foi que concordamos: caçoar do modo de um povo falar é não entender que cada região tem sua maneira peculiar de dizer as coisas, e sem dúvida, nosso Vale tem um rico e saboroso menu de expressões graças aos imigrantes que aqui desembarcaram e aos “estrangeiros” que fazem dessa terra um lugar especial de se viver.


Fernando Bastos, cartunista e escritor

terça-feira, 10 de maio de 2011

Sem Olhar Pra Trás (Sônia Pillon)

Durante muito tempo fui uma pessoa dócil e boazinha, daquelas que não conseguem dizer um “não”. Na escola, perdi a conta das vezes que abri mão do meu lanche para os colegas e segui com fome. Deixava de brincar no parque, quando criança, para não sujar as roupas, e de sair com as amigas para ir aos bailes da escola, na adolescência, para não preocupar meus pais.

Enquanto as meninas da minha idade se ocupavam com as roupas da moda e maquiagens, geralmente ficava em casa. Quando não estava estudando, me refugiava na literatura, que me permitia viajar pelos lugares mais distantes e viver as mais loucas aventuras.

Conheci Leônidas, o meu primeiro namorado, quando tinha 18 anos. Eu era tímida e insegura como uma Gata Borralheira, e ele, exatamento o contrário! Me acostumei que ele decidisse sobre minhas roupas, os filmes que assistíamos, os amigos e os lugares que visitávamos. Apaixonada, aceitava suas imposições sem protestar, com medo de perdê-lo.

Depois que me formei em Pedagogia na Unerj, comecei a trabalhar com educação infantil. Queria atuar também no ensino médio, mas Leônidas me fez desistir da idéia. Nos casamos seis meses depois da formatura, e a partir daí conheci o inferno! As crises de ciúme de Leônidas, que antes me envaideciam, por considerar uma prova de amor, passaram a me sufocar. - Por que você se atrasou hoje, Catarina? Quem era aquele cara com quem você estava falando na saída da escola? Inútil negar que tinha um amante!

Ele passou a me bater. Foi nessa época que os meus sorrisos desapareceram dos lábios. As surras que eu sofria deixavam marcas profundas no rosto, no pescoço e no corpo, mas atingiram principalmente a minha alma, durante 10 longos e intermináveis anos!...

Uma manhã acordei de um pesadelo terrível: Leônidas tinha me matado com sete tiros, e eu estava estendida no chão, em meio a uma enorme poça de sangue. Suando frio e aos prantos, naquele momento decidi que cometeria um crime perfeito. “Quem tem de morrer é ele!”, pensei. Comecei a planejar a forma de matá-lo. Ele era cardíaco e hipertenso, e nunca ligou para dieta. Estava vinte quilos acima de seu peso e relaxava nos horários de tomar o remédio. Era sempre eu que o alcançava os comprimidos!...

A noite chegou e me esmerei no jantar. Preparei leitão assado, salsichão, e salada de maionese, que ele adorava! Ele comeu até se fartar, sem ligar para o excesso de calorias que estava ingerindo.

Como previ, de repente ele começou a ficar vermelho, com falta de ar, e a reclamar de forte dor no peito. Ele me fazia sinal para que alcançasse o remédio, mas eu não movi nenhum músculo sequer! Com os olhos arregalados, ele continuou com as mãos estendidas, agora com um olhar de quem tinha entendido tudo, estrebuchando até cair morto.

Ao constatar que tinha me livrado dele, gritei e toda a vizinhança me acudiu. Eu soluçava, me jogava no chão e me abraçava ao seu corpo, aparentando desespero. “Coitada!”, diziam. “Ela adorava aquele desgraçado, apesar de tudo!”, pensavam.

Três meses se passaram. Já estava na hora da segunda parte do plano. A própria família de Leônidas me aconselhou a viajar para um retiro, para me curar da "depressão"!... Cheguei em casa e preparei as minhas malas, apressadamente. Lembrei que na Suíça, agora, é inverno. Retirei cuidadosamente o quadro de Di Cavancanti, acionei o segredo do cofre, peguei os dólares e fui embora para sempre, sem olhar para trás!...

Sônia Pillon

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Caminhar II (Tiago Nascimento)



Caminhar.
Nada mais faz o homem do que isso.
O que acontece entre um passo e outro são detalhes, não importam.
Viver é caminhar.
Viver é se mover.

Por vezes lento por vezes lépido.
Às vezes com medo em outras vezes intrépido.
Por vezes em silêncio, em outras com estrépito.

Caminhar. Caminhar.
Se movimentar de lá pra cá, de cá a acolá.
Andar. Andar. Andar.
Viver é nunca parar.
Morrer é nunca mais andar.

Por isso levante-se, vá!
Caminhe.
"Caminhando o caminho se faz"...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Inversamente proporcional (Fred Paiva)

Andava por aí,
meio mulher, meio retângulo,
despreocupada,
parassimpática...
lambendo seu sorvete espiral,
enrijecendo meio mundo
sem nem perceber
um tico da intenção
pingada do todo
antônimo a si,
assintótica aos picos...

(Fred Paiva)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Quase um santo (Inacio Carreira)

O Zé ficou triste quando ouviu a notícia. Morrera um grande homem.

- Poxa, disse consternado para o Jão, o vice morreu.

- Pena que não foi o titular, retrucou o outro, puteado.

- Diz isto não, cara... Quantas vezes o Zé lutou contra a morte e venceu? É um herói. Até que a marvada levou ele, que aqui ninguém fica mermo.

- Venceu porque tinha grana. Lembra da dona Zica, da vendica? Foi de primera, não teve escolha. E a Lindinha, do Tonhão? Ficou mesmo foi na fila de espera. Agora, esses bacana, vão em tudo que é médico do mundo, são mais bem tratado que cavalo de corrida... Acha que eu vou ficá triste? Foi tarde... O que ele fez enquanto tava lá? Reclamou dos juros alto, que interessava pra ele, como gente grande dos panos...

- Fala assim, não... Sofreu tanto...

- E o povão, sofre não? Esse aí se juntou ao barbudo “dos trabalhador” pra usar o poder e ganhar mais. Que nem aquela mulherzinha da fábrica de sabão, como é mesmo? A suplício...

- Suplicí... aquela que mandava os ôtro gozá... Bem relaxada, ela...

- Sim, relaxados são eles todo, e a gente ainda sustenta essa máquina de fazê corrupto.

- Mas ele foi perseguido, como todo mundo que se destaca na vida. Lembra aquela uma que diz que é filha dele?

- ... e que ele foi no programa do gordo pra dizer que era filha da puta? Bem sacana ele... Foi ganhá a simpatia do povo dizendo que ia em putero que nem todo mundo... Todo mundo não, que eu nunca fui dado a essas coisa, ficava mesmo no cinco contra um enquanto não arrumei a Zefa pra trepá... Deus mandou cresce e multiplicá, não ficá indo em putero dá dinheiro pra vagabunda...

- Olha o preconceito, cara, isso dá cadeia. Puta agora é profissão.

- Sim, hoje tudo dá cadeia, menos metê a mão no bolso do cara honesto. Vê o salário mínimo? Eles brigam pra aumentar cinco real mas o deles não tem limite. E ainda ganha até telefone de graça, de graça não, nós paga...

- Quanta revolta, cara, fala assim não. É verdade, mas não precisa falá. Resolve?

- E aí vem a televisão e mostra o povo chorando porque um ricaço morreu. Tu já ouviu falá de uma tal de revolução da francesa? Aquela, quando eles derrubaram um negócio lá na França. Negócio de bartira, pastilha, bastilha, acho que é isso...

- Ouvi não, fugi da escola...

- Eu também fugi, quer dizer, nem fui. Modo de dizê, só... Mas escutei uns velho falando... Passaram o facão em tudo que era ricaço. Não que a gente devesse fazê isso aqui, não, que sou contra violência, mas e a violência que fazem com a gente? Esse negócio de doença, cara...

- É, nisso concordo contigo, continua a lei do “sabe com que tá falano”... do “quem pode mais chora menos”, do “salve-se quem puder”... A lei da selva.

- Tu tá vendo muita novela, cara... Papo estranho, esse teu.

- Novela nada. Eu tenho tempo pra isso? Vez em quando vejo o jornal, ou o futebol na TV do barzinho da esquina, ou em alguma loja no centro. Mas em casa... Quando não está estragada a gurizada só quer saber de ver aqueles programa de perseguir bandido, parece a suáti... Mas a gente sabe que é tudo encenação, teatro, não é assim que diz?

- E enquanto isto o povão otário chora a morte do ricaço. Comeu do bom e do melhor, correu o mundo todo, foi tratado como otoridade na vida e na morte, e eu vou ficá com pena? Quem tem pena é galinha, sô... Do jeito que a coisa tá, só falta agora fazê feriado, ou dia santo, pra homenageá o home...

- Talvez fosse bão, sim... Nós temo o Padim Ciço, mas é só no norte... E essa madre, mas é no sul. Tinha que tê um santo de todos os brasilero, que nem a Cidinha, mas essa é maior...

- Santo brasileiro? Só se for protetor das casa de luz vermelha... O santo das putas. Que nem aquele bandido, também da luz vermelha, quase um herói. Tem até filme. Vítima da sociedade, como eles diz.

- Credo em cruz! Arreda...

Inacio Carreira

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ninguém sabe... Ninguém viu (Vana Comissoli)

Coitadinho, falou Maria das Dores espremendo uma lágrima seca. Benzeu-se e seus lábios se moveram num Pai Nosso meio torto.

Maria tinha um apelido na comunidade, Maria Povão, apelido mais comum do que a merda que volta e meia aparecia insistentemente nas vielas. Gostava de feijão com arroz e macaxeira, novela das seis porque a das oito despertava sensações proibidas pelo pastor. Desde que começara a freqüentar a igreja não ia mais ao bailão e nem arrebitava a bunda quando passava na frente do homario que estacionava no bar do Zeca. Estava meio chato, mas fé é fé e ela se esforçava. Quem sabe assim Deus olhava para baixo e mandava um salariozinho melhor e um homem crente e sério? Não custava tentar... Pelo menos um ano apostaria no Senhor. Tinha aquela escapadela da cervejinha do sábado, mas também, ninguém é de ferro. Hoje era diferente, o homem tinha morrido e o povo todo estava consternado, rolava a cerveja da tristeza que todo mundo sabe que alivia o coração. Até o pastor perdoava e mandava a sua.

“Que alegria para nós chegarmos ao fim de nossa vida com a mesma certeza do dever cumprido.” Ai que bonito que foi ouvir estas palavras na TV enquanto o caixão desfilava todo pimpão com aqueles guardas bonitos como santos perfilados ao lado. Santa mãe! Só mesmo um homem bom de verdade para merecer aquilo tudo. Quem me dera um soldado desses! Sargento então... Seria a sorte grande. Ouviste, Senhor? UM SARGENTO ESTÁ DE BOM TAMANHO!

Combinou com as amigas que iriam à avenida se despedir. Seria uma choradeira daquelas, também com uma alma deste prumo passando na frente! Seria choro bom, de devoção. Ainda bem que era da terra do homem, do contrário só na TV mesmo. Era bonito do mesmo jeito, mas a emoção, os lenços brancos não ficam tão encantadores.

Sempre se podia ouvir umas barbaridades porque estes políticos se julgam o máximo e falam mal até de morto bem aventurado. Acredita que teve um, querendo ser presidente e fingindo que não, que teve a coragem de falar rindo com aquela carona de macho enchendo a tela: "Uma hora tem que morrer!” Cruz credo, sacrilégio falar mal de morto, dá azar. E se vira alma penada e vem puxar os pés de noite? Eu, hein? Melhor enaltecer, eta palavra bem chique essa, mas foi o que o repórter usou para falar do homem. Enaltecer... O que era mesmo? Acho que é crescer prá cima, foi isso que o homem fez, cresceu assim ó, num zapt! Mentira, cresceu devagarinho, definhando na frente dos olhos da gente.

Ficou ouvindo a trajetória do santinho até de madrugada, nesta noite nem fiscalizou o filho que estava andando em má companhia. Lutou como um mouro, o Willian Bonner disse...O que será mouro? Se tivesse amansa burro nesta hora até que tentava procurar, embora seja bem difícil mexer naquele livrão pesado que só ele. Pena que não deu tempo do homem fazer um montão de coisa que disse que se empenharia em fazer, mas também, coitadinho, demorou anos nessa tal luta de mouros. O Olavo da Lucinda é que foi ligeirinho da mesma doença. Também esses Estados Unidos que curam todo mundo é caro de ir. Porque será que não curaram o homem? Bem bom que o Olavo foi rápido. Prá que sofrer? Bobagem, a hora bate e ninguém vira semente.
“Aparentemente parece uma contradição alguém que está com seu quadro de saúde tão debilitada dizer que a situação está tão boa, que não tem como melhorá-la. Mas quando se tem a consciência tranqüila do dever cumprido, ou pelo menos fez tudo o que podia, dando o melhor de si, a morte se apresenta como um pódio onde os melhores são premiados.”

Já pensou dizerem isso da gente depois de morto? Ai, que lindeza! Não é como a gente da comunidade que o caixão nem foi comido ainda e já estão contando todos os podres. Pobre da Neusali ficou mal falada que só ela e olha que dava um duro danado no tanque para sustentar o filho drogado e maluco. Porque será que o homem nunca veio na comunidade para ajudar o Sergionor? Quem sabe ele deixava a porcaria se tivesse uma escola igual a do homem, nessas é que se aprende coisas boas. Mas... É a vida. Tá morto, tá na boca do povo, prá bom, ou prá ruim. Mas este, este era bom, o pessoal graúdo, metido a entendido é que gosta de malhar, só para parecer melhor do que é. Depois Maria não entendia mesmo de juros altos, mensalão, guindado a alguma coisa que dava uma grana preta. Então podia ficar com a verdade verdadeira: era santo, ninguém fica com aquele sorriso de novela saindo do hospital depois de um mundaréu de operação em tudo que é canto se não for santo. Maria chorou quando ele apareceu na cadeira de rodas, pediu aos santos que o pastor disse que não existiam e que ela concordava, mas no segredo da alma sabia que eles valiam a gente na hora do aperto e também chamou os anjos de asas lindas para cobrirem a cabeça do homem.

Imagina se seria ela, Maria Povão, que ia discutir alegando que o homem tinha lá suas pendengas e até filha de prostíbulo tinha embaixo dos panos. Ai, bem que ela queria ser filha deste lugar em vez de ficarem dizendo que a mãe deu para o leiteiro e por isso ela nasceu com esses olhos verdes luzindo na pele mulata... Ah, seus tempos! Eles fizeram sucesso. Era boa de bunda e de peito também, saía na escola na frente de ala. Nossa! Sai diabo, pensando essas coisas enquanto o homem nem esfriou. Será que não passarão a novela hoje? Seria uma pena, o capítulo seria de lascar. Luto é luto, tem que se ajoelhar. O homem até subia a tal rampa do Planalto que devia ser uma beleza de encerada, bem que gostava de ser a limpadeira daquele espação todo, garanto que pagam bem melhor que a dona Judite, mão de vaca. Eta pensamento teimoso, toda hora fugindo do defunto. Rico é legal, é defunto e não presunto. Não reclama Maria, disse para si mesma, até que é meio igual, tudo termina em “unto”.

Pensando bem, todo mundo acaba embaixo da mesma terra, claro que a dele é mais transada, até tem casinha em cima, ou será que vão queimar o homem? Deus me livre, tomara que não inventem isso que é coisa do diabo, o pastor disse, só para a gente não encontrar o caminho de Sião. Gente malvada essa.

Claro que o homem era bom, teve político de todos os partidos emocionado, vi com esses olhos na TV, falando maravilhas dele e olha que estes caras gostam bastante de um descalabro em cima uns dos outros. Tudo uma corja de sem vergonhas, menos este, o morto era bom demais. Filho legítimo do bom povo de Minas, igual ela. Ai que emoção, vinha lágrimas aos olhos só em pensar que era mineiro igual ela. O presidente, opa, ex presidente, a gente esquece que tem aquela sapatão agora lá em Brasília, pois ele chorou, enxugou os olhos que eu vi na TV e até visitava o doentinho no hospital. Dava umas entrevistas de apertar o coração, mas nunca perdeu a esperança da vivença eterna do companheiro. Vem cá... Todo mundo morre, né? Até Jesus morreu, foi matado tá certo, mas se foi do mesmo jeito. Na cruz ainda por cima, ainda bem que acabaram com essa covardia de pregar pessoas senão metade da comunidade já estaria espetada pelos pregões. Deus nos livre e guarde!

Maria saiu ao pátio, chamou a vizinha por cima da cerca torta:

- Cinara! Cinara! Aparece mulher!

Lá veio a amiga balançando as coxas troncudas com as varizes de um dedo fazendo aqueles desenhos de estrada.

-Que foi Maria? Tá desavisada? O homem morreu! Não aguento a dor no coração.- Cinara segurou os peitos no sufoco.

- Claro que sei. Acha que sou por fora? Não tem um canal da TV que fale outra coisa. É que eu queria segredar.

- Desembucha criatura, tem coisa melhor que esta? – Cinara se entusiasmou.

- Não, é que já estou meio de saco cheio de ouvir esta lengalenga, dói demais, até parece que eu via o homem todo o dia.

- Isso é mesmo, mas não te amofina quem sabe amanhã acontece outra coisa bem legal e os repórteres mudam de saco prá mala.

Algumas semanas depois um esquizofrênico deu tiro para todo lado dentro de uma escola e morreu criança de dar dó. Que nem o dó que Maria teve daquela menina, como era mesmo o nome? Esqueci, mas eu sei que o pai atirou da janela e teve aquele outro, como era mesmo? Foi arrastado pelos bandidos pendurado no carro. Nossa! Tanta desgraça que a gente esquece.

Quem era mesmo o homem? Zé era o Zé. E agora José?