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domingo, 17 de novembro de 2013

Maria e a himenolatria – herança de um passado patriarcal (Fernando Bastos)

As leis exercem vigilância sobre os crimes conhecidos, a religião exerce-a sobre os crimes secretos.” (François Marie Arouet - Voltaire)


Na maioria das sociedades atuais, a virgindade feminina continua um tabu, e mesmo na ocidental, que se diz laica e democrática, a preservação do hímen está ligada a decência e moralidade. Herdamos a moral judaico-cristã, e o cristianismo nos forneceu o protótipo de “mulher perfeita” – segundo a mentalidade machista e patriarcal.
Sabemos pouco sobre a filha de Ana e Joaquim. A fonte oficial quase nada fala dela, e mesmo assim, mulheres que nunca leram a Bíblia, e até aquelas que se dizem sem religião, são em maior ou menor grau, influenciadas por Maria, a israelita que aos 12 anos (14 ou 16 em outras fontes) foi visitada por um anjo, e após o Sim, engravidou sem a necessidade da seiva masculina, por obra e maestria do Espírito Santo; sendo que, cumprido o tempo necessário da gestação, gerou um bebê de nome Jesus, o filho de Deus.
Maria se tornou para o mundo ocidental, sobretudo a parte católica, a mulher mais influente na questão da moralidade feminina. A humilde hebreia, que não entendia o filho, mas o amava acima de tudo, serviu como uma luva para o clero da cristandade, pois foi usada para convencer filhas, noivas e esposas a não gostarem de sexo, a serem submissas aos homens e só abrirem a boca se um homem permitisse.
Para a doutrina católica ela permaneceu virgem mesmo depois de gerar o bebê (virginitas post partum) e criou--se o dogma da virgindade perpétua, com forte intuito de mostrar que Maria era assexuada, emulando assim as antigas vestais romanas; já os seguidores de Lutero atestam que depois do nascimento de Jesus, ela teve relações normais com José e gerou filhos, deixando de ser virgem. Os que não concordam, dizem que os irmãos a quem Jesus se refere nos Evangelhos, eram filhos somente de José, que os teve antes de conhecer Maria. Não pretendo discutir se Maria teve ou não filhos além de Jesus. Essa querela será discutida ad infinitum, e nunca se chegará a um consenso, cada um vai defender aquilo que lhe é conveniente.
O crucial é focar na “concepção virginal”, o momento em que a noiva de José engravida do Espírito Santo (Deus) indo contra as leis naturais. Por que essa questão é tão relevante? Qual a mensagem velada por trás dessa narrativa, onde a mulher que será a mãe do Redentor, fica desobrigada da relação natural? A mensagem (do clero, formado por homens) é: não é bom que a mulher tenha desejo por sexo, não é bom que ela sinta atração por homem, de modo que há menos risco dela se prostituir, e trair o futuro marido.
A castidade de Maria é o golpe de martelo nos ouvidos femininos, que ouvem desde o berço, que menina deve ser recatada, esperar o “homem certo”, e aceitar o poder masculino. O Mito da Virgem Maria, uma mulher que não conhece homem, no sentido bíblico, é o mais cruel arquétipo feminino, pois ensina a elas que o sexo não é bom, e uma mulher assexuada é o ideal de pureza. Já o arquétipo masculino é do homem viril, capaz de montar um harém, como os reis Davi e Salomão. Essa mentalidade machista ficará arraigada em nossa sociedade, e incrivelmente, são as mulheres que mais contribuem para a preservação desse preconceito, ao doutrinar suas filhas para que sejam “santas” e os filhos garanhões, os que irão “comer” as filhas das outras.
A supervalorização da virgindade feminina tornou-se uma verdadeira cruzada pela himenolatria, com seus defensores pregando que a pureza e a decência estão intrinsecamente ligadas ao hímen ainda não rompido pelo intercurso sexual. Cá no ocidente elas não padecem dos mesmos males de outras culturas, onde com frequência, a mulher que perde a virgindade antes de casar é morta pelos próprios parentes. Contudo, se em nossa sociedade ao homem é dado o direito de ter muitas parceiras na fase solteira, para ela, essa liberdade é mais cerceada. Aceitamos bem a mulher solteira ter intimidades com um homem, desde que esteja namorando, com vistas em casamento. Aquelas que mantêm relacionamentos abalizados apenas em sexo ganham logo uma etiqueta na testa.
A escritora Collete Dowling escreveu em Complexo de Cinderela: “A sexualidade da mulher é tão castrada que ela precisa da desculpa do amor para sentir prazer com o outro.” Isso é tão verdadeiro que mesmo entre as mulheres modernas, há aquelas que condenam suas colegas que têm uma vida sexual livre, com vários parceiros. Mas, assim como suas parentes do Paleolítico, muitas admiram e desejam os homens que saem com muitas mulheres; sinal de que são ótimos reprodutores.
O cientista social Luiz Mott declara: "Bem-aventurada para os crentes, maldita para os incrédulos, a mãe de Jesus carregará para sempre a culpa de ser a autora de um mito que levou e continua levando à infelicidade e à morte milhões de seres humanos culpados por um indevido prazer: o orgasmo".
Com efeito, o relato da mulher virgem que engravida de um deus e gera uma criança divina não é original do cristianismo; nas culturas anteriores é vasto o número de semideuses gerados da união de um deus com uma mortal. Zeus e outros habitantes do Olimpo viviam engravidando belas mortais, geralmente virgens e algumas comprometidas. Em Roma, os imperadores eram semideuses, pois foram concebidos com a semente de um deus com sua mãe mortal. O cristianismo pegou essa ideia, e a transformou para criar sua própria lenda, divulgando assim a importância para as mulheres preservarem a castidade e se afastarem dos perigos do sexo. Maria devia ser o espelho para as filhas de Eva.
Penso que a história ficaria mais bela se fosse contada como provavelmente aconteceu: Maria e José se amaram como qualquer casal, e dessa união nasceu Jesus; talvez ela teve outros filhos, talvez não. O que não podemos é deixar que um conto mítico continue sendo a pedra no meio do caminho que impede a mulher de se sentir plenamente satisfeita em sua sexualidade.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Homossexualidade em cinco atos (Fernando Bastos)

Um


A cada dois dias, um homossexual é vítima de assassinato no Brasil. Nos últimos anos, 26% dos gays da União Europeia sofreram algum tipo de agressão. Em cerca de sete países islâmicos existe a pena de morte para homossexuais. Mais da metade da população brasileira acredita que a homossexualidade é contra a vontade de Deus.


Dois


Até meus vinte e poucos anos, igual a maioria, tinha profundo preconceito contra gays. Minha educação religiosa contribuiu para isso. Ler filosofia e bons autores ligados à psicologia mudou minha visão equivocada. Para saber por que os homossexuais são tão perseguidos, há de se voltar ao passado, como em tudo que se deseja conhecer com mais clareza.


Três


Em todas as culturas antigas, o amor homoafetivo foi praticado e tolerado. Com o advento do judaísmo – que influenciará sobremaneira o cristianismo e o islamismo -, a religião começará uma guerra poderosa contra os homossexuais.


Qual o motivo da Bíblia, através da lei de Moisés, pedir a morte de homossexuais? Para os sacerdotes judeus, Deus era contra o amor entre pessoas do mesmo sexo. O motivo verdadeiro é outro. Os antigos, sempre que desejavam coibir um comportamento, anunciavam ao povo que Deus era o autor da proibição. Os sacerdotes sabiam que se dissessem que eles mesmos criaram o decreto, não teriam êxito; passar a responsabilidade da lei para Deus, dava mais respeito e garantia de acatamento da ordem. Não estou inventando, todos os bons historiadores sabem disso.


Os sacerdotes tinham urgência em coibir a relação homossexual, sobretudo, por dois motivos: primeiro, não gera descendentes e a nação de Israel precisava crescer; mais gente, mais mão de obra no futuro e mais soldados para o exército.  Segundo, por causa da falta de higiene, era alta a incidência de doenças sexuais e morte entre parceiros do mesmo sexo, que significava declínio da força operária e bélica. Lembre que doenças, para os antigos, era sinal de castigo divino.


Quatro


Século 21.


O pastor e deputado Marco Feliciano diz que não é homofóbico, e está sendo injustiçado, que foi mal interpretado. Reclama que todos falam em liberdade de expressão, e ele não pode dar opinião sobre o que pensa dos homossexuais. Na opinião dele, homossexuais são pecadores, devem ter a compreensão e compaixão cristã, mas devem procurar tratamento ou pararem de pecar. É essa a mensagem dele, que encontra apoio em grande parte da população do país.


Num primeiro momento ele está certo. Estamos num país que permite cada um omitir opinião sobre qualquer assunto. Todo mundo tem direito de dizer: sou contra sexo antes do casamento, divórcio, sexo anal, oral, grupal, mulher tomar anticoncepcional e o homem usar preservativo, bem como ser contra relações entre pessoas do mesmo sexo.


O problema começa quando um cidadão, movido pela sua fé religiosa, se intromete na vida sexual dos outros e quer obrigar todos a pensarem como ele. Feliciano tem todo direito de não querer a homossexualidade na vida dele e manifestar sua opinião. No entanto, não pode querer impedir que essas pessoas deixem de seguir seus corações, muito menos sugerir que gays sejam tratados por psicólogos para se tornarem heterossexuais.


O Conselho Federal de Psicologia proíbe tratamento para “cura” de homossexuais, já que não se cura quem não está doente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade do quadro de doenças em 1993 e a partir de lá, é vista como uma orientação sexual, dentro de outras que existem (e não uma “opção”, como alguns falam). Ninguém diz um belo dia: optei ser gay, ou, optei ser hétero.


Nossa orientação sexual tem pouco a ver com o ambiente, apesar de que pode interferir em alguns casos; para a maioria dos cientistas, ela é inata, já nascemos com ela. Acreditar que um tratamento vai tornar um gay em hétero é a mesma coisa que acreditar que pode transformar um hétero em gay. Alguns religiosos dizem que há casos de ex-gays que foram tratados com sucesso. Trata-se, obviamente, de uma falácia.


A tragédia nesses casos é que o gay, acreditando estar em pecado (a família e, especialmente, os líderes religiosos, a convence que está pecando contra Deus), acaba reprimindo seus desejos, e para agradar e evitar tristeza da família, confirma que se tornou hétero. Essa postura de parecer o que não é, de não aceitação da própria sexualidade vai contribuir para lhe trazer mais angústia e sofrimento – como comprovam os estudos desses casos -, pois não estará sendo verdadeiro consigo mesmo.


Cinco


Um grande ato de humanismo de todos aqueles que são contra a homossexualidade seria de não interferir na vida sexual dos homoafetivos. Quantas vidas arruinadas, quantos assassinatos e suicídios, porque parte da sociedade condena o amor entre iguais. Não concordar é um direito, mas respeitá-los como querem ser respeitados, é um dever. Até porque dignidade não está na orientação sexual, mas em atitudes.