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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Homossexualidade em cinco atos (Fernando Bastos)

Um


A cada dois dias, um homossexual é vítima de assassinato no Brasil. Nos últimos anos, 26% dos gays da União Europeia sofreram algum tipo de agressão. Em cerca de sete países islâmicos existe a pena de morte para homossexuais. Mais da metade da população brasileira acredita que a homossexualidade é contra a vontade de Deus.


Dois


Até meus vinte e poucos anos, igual a maioria, tinha profundo preconceito contra gays. Minha educação religiosa contribuiu para isso. Ler filosofia e bons autores ligados à psicologia mudou minha visão equivocada. Para saber por que os homossexuais são tão perseguidos, há de se voltar ao passado, como em tudo que se deseja conhecer com mais clareza.


Três


Em todas as culturas antigas, o amor homoafetivo foi praticado e tolerado. Com o advento do judaísmo – que influenciará sobremaneira o cristianismo e o islamismo -, a religião começará uma guerra poderosa contra os homossexuais.


Qual o motivo da Bíblia, através da lei de Moisés, pedir a morte de homossexuais? Para os sacerdotes judeus, Deus era contra o amor entre pessoas do mesmo sexo. O motivo verdadeiro é outro. Os antigos, sempre que desejavam coibir um comportamento, anunciavam ao povo que Deus era o autor da proibição. Os sacerdotes sabiam que se dissessem que eles mesmos criaram o decreto, não teriam êxito; passar a responsabilidade da lei para Deus, dava mais respeito e garantia de acatamento da ordem. Não estou inventando, todos os bons historiadores sabem disso.


Os sacerdotes tinham urgência em coibir a relação homossexual, sobretudo, por dois motivos: primeiro, não gera descendentes e a nação de Israel precisava crescer; mais gente, mais mão de obra no futuro e mais soldados para o exército.  Segundo, por causa da falta de higiene, era alta a incidência de doenças sexuais e morte entre parceiros do mesmo sexo, que significava declínio da força operária e bélica. Lembre que doenças, para os antigos, era sinal de castigo divino.


Quatro


Século 21.


O pastor e deputado Marco Feliciano diz que não é homofóbico, e está sendo injustiçado, que foi mal interpretado. Reclama que todos falam em liberdade de expressão, e ele não pode dar opinião sobre o que pensa dos homossexuais. Na opinião dele, homossexuais são pecadores, devem ter a compreensão e compaixão cristã, mas devem procurar tratamento ou pararem de pecar. É essa a mensagem dele, que encontra apoio em grande parte da população do país.


Num primeiro momento ele está certo. Estamos num país que permite cada um omitir opinião sobre qualquer assunto. Todo mundo tem direito de dizer: sou contra sexo antes do casamento, divórcio, sexo anal, oral, grupal, mulher tomar anticoncepcional e o homem usar preservativo, bem como ser contra relações entre pessoas do mesmo sexo.


O problema começa quando um cidadão, movido pela sua fé religiosa, se intromete na vida sexual dos outros e quer obrigar todos a pensarem como ele. Feliciano tem todo direito de não querer a homossexualidade na vida dele e manifestar sua opinião. No entanto, não pode querer impedir que essas pessoas deixem de seguir seus corações, muito menos sugerir que gays sejam tratados por psicólogos para se tornarem heterossexuais.


O Conselho Federal de Psicologia proíbe tratamento para “cura” de homossexuais, já que não se cura quem não está doente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade do quadro de doenças em 1993 e a partir de lá, é vista como uma orientação sexual, dentro de outras que existem (e não uma “opção”, como alguns falam). Ninguém diz um belo dia: optei ser gay, ou, optei ser hétero.


Nossa orientação sexual tem pouco a ver com o ambiente, apesar de que pode interferir em alguns casos; para a maioria dos cientistas, ela é inata, já nascemos com ela. Acreditar que um tratamento vai tornar um gay em hétero é a mesma coisa que acreditar que pode transformar um hétero em gay. Alguns religiosos dizem que há casos de ex-gays que foram tratados com sucesso. Trata-se, obviamente, de uma falácia.


A tragédia nesses casos é que o gay, acreditando estar em pecado (a família e, especialmente, os líderes religiosos, a convence que está pecando contra Deus), acaba reprimindo seus desejos, e para agradar e evitar tristeza da família, confirma que se tornou hétero. Essa postura de parecer o que não é, de não aceitação da própria sexualidade vai contribuir para lhe trazer mais angústia e sofrimento – como comprovam os estudos desses casos -, pois não estará sendo verdadeiro consigo mesmo.


Cinco


Um grande ato de humanismo de todos aqueles que são contra a homossexualidade seria de não interferir na vida sexual dos homoafetivos. Quantas vidas arruinadas, quantos assassinatos e suicídios, porque parte da sociedade condena o amor entre iguais. Não concordar é um direito, mas respeitá-los como querem ser respeitados, é um dever. Até porque dignidade não está na orientação sexual, mas em atitudes.

sábado, 17 de novembro de 2012

Davi e Jônatas (Fernando Bastos)

 

Israel era governado pelo rei Saul, mas ele fizera o que era mal aos olhos do Senhor, de modo que o profeta Samuel fora chamado para escolher um substituto. Em Belém, ele ungiu um jovem de bela aparência, de cabelos ruivos, chamado Davi. A partir desse dia, o garoto foi tomado pelo espírito de deus, que o acompanhava a todo instante.


Conhecendo a fama de bom músico, Saul mandou chamar Davi, o belemita, para perto dele. Todas as vezes que um espírito maligno se apoderava do rei, Davi tocava a harpa e Saul se acalmava, de maneira que o filho de Jessé ganhava cada vez mais pontos a seu favor, tornando-se escudeiro do rei. Quando Davi lutou contra o gigante Golias e o derrotou com uma simples funda, todos o temeram, pois sabiam que deus estava com ele. Como prêmio pelo ato de bravura, o rei o convidou para morar em seu palácio. Jônatas, filho de Saul, no mesmo instante em que viu Davi, apaixonou-se pelo belemita. Quando Davi saiu da reunião com o rei, Jônatas chamou-lhe num canto e disse, Davi, filho de Jessé, eu o amo como minha própria alma, façamos um pacto para nunca nos separarmos!


Após um carinhoso abraço, Jônatas presenteou Davi com seu manto, dando-lhe também armadura, espada, arco e cinto. Davi foi nomeado chefe dos guerreiros. A cada nova batalha crescia sua fama de grande líder, a ponto das israelitas cantarem, “Saul matou aos milhares, Davi, às dezenas de milhares”.  Aos poucos, a admiração do rei Saul pelo jovem belemita se transformava em ódio. O rei ardia em uma inveja que lhe corroía as entranhas, e logo começou a maquinar um plano para matar Davi.


Um dia, enquanto Davi tocava cítara para o rei, Saul arremessou duas vezes a lança contra ele, mas lépido que era, Davi saiu incólume do ataque. Saul pensou consigo mesmo, Esse filho de uma vaca é protegido do Senhor; então , que não seja a minha mão que o ferirá, mas a dos filisteus.


Saul mandou chamar Davi e lhe disse, Filho de Jessé, em troca de seu êxito nas batalhas, vou lhe dar por mulher minha filha mais velha, contanto que continue a ser um filho valoroso e destemido nas guerras do Senhor. Davi não quis aceitar a mão da filha do rei, julgando-se não merecedor de tão elevada honraria; essa foi a desculpa, mas o motivo da recusa foi que já estava ligado até a medula  ao amor de Jônatas. Entretanto, acabou aceitando depois de ouvir os rogos de Saul.


Como não tinha dote para pagar pelo casamento, Davi foi engenhosamente mandado à linha de frente na luta contra os filisteus, para, segundo imaginava o rei Saul, fosse morto em campo de batalha. No entanto, além de voltar vivo, Davi ainda trouxe duzentos prepúcios de soldados mortos em batalha. Era o dote que Saul pedira.


Conforme o trato, Mical foi entregue como mulher a Davi, mas a ira de Saul pelo tocador de cítara aumentava dia após dia. Numa reunião de emergência, em que chamara seus melhores generais e o filho Jônatas, o rei disse, Matem o belemita! Jônatas saiu correndo e avisou seu amado, Meu pai deseja sua morte. Fuja, querido, enquanto há tempo. Davi fugiu e foi morar em Ramá, junto ao profeta Samuel.


Numa noite, enquanto jantavam, o rei disse, Hoje é o segundo dia que Davi não aparece para cear conosco; onde ele está? Jônatas respondeu, Ele pediu-me para ir a Belém realizar um sacrifício em família e eu deixei. Mas o rei já suspeitava da relação proibida de ambos, e grande foi a explosão de fúria do monarca de Israel, atirando pratos e jarra de vinho contra o chão. Então, mirando a cara de Jônatas, gritou, Seu filho de uma cadela, todo o povo sabe que você escolheu Davi para sua vergonha e vergonha da sua mãe. Enquanto Davi estiver vivo, você não estará seguro, nem seu trono. Agora, parta e traga-me a cabeça dele.


Jônatas foi ao encontro do amado, e quando Davi avistou a figura do filho do rei, saiu de seu esconderijo e o beijou. Dependendo da versão bíblica, foi apenas um abraço, mas de qualquer modo, a essa altura, por mais que os defensores da tese de que o amor entre Davi e Jônatas era como de dois irmãos, se deixarmos os preconceitos tolos de lado, veremos que sim, havia entre eles um amor homoafetivo, do qual ninguém pode negar. Muitos, de fato, se mostram contrários às provas desse amor homossexual, pois pelos padrões da moral homofóbica da Bíblia, não pegaria bem que gerações mais tarde, o Messias cristão seria descendente de um gay, ou bissexual, como preferem alguns autores, o que, para os conservadores, isso abalaria profundamente a reputação do filho de deus.


Tempos depois, os filisteus atacaram Israel, e mataram Saul e seu filho Jônatas. Quando a notícia chegou aos ouvidos de Davi, ele compôs um cântico fúnebre em honra de Saul e Jônatas, o verdadeiro amor de sua vida. À noite, ao redor da fogueira, sob olhar dos companheiros de luta, o belo filho de Jessé se cobriu de cinzas, rasgou as vestes e, com a alma enlutada, cantou num brado dolorido,


“Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; muito querido me eras! Maravilhoso me era o teu amor, ultrapassando o amor de mulheres.” (Segundo livro de Samuel 1,26).


 Fernando Bastos, cartunista, ilustrador e escritor.