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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Roupão (Suzi Daiane)

Que ela tinha um baita par de coxas ela tinha. Eu nunca me preocupei
com isso, afinal peito grande já me excita horrores, mas aquelas coxas... Bem, antes de ficar de pau duro de novo ao lembrar das coxas
de Teresa, deixa eu contar como a conheci.


Era uma manhã de domingo, eu geralmente caminho de chinelo de pano e roupão logo cedo porque gosto de ver a cara de espanto do povo dessa cidade. São uns bestas mesmo. Fazem tipo, uns chegam a atravessar a rua, outros dão risinhos falsos, principalmente as gostosonas que caminham ao lado dos maridos cinquentões cheios da grana. Odeio seus maridos. Adoro as gostosonas.


Mas isso não vem ao caso, porque Teresa não era uma dessas, voltemos ao chinelo de pano e ao roupão. Eu caminhava exatamente vestido assim, e digo exatamente porque eu não usava mais nada. Era só o chinelo de pano e, claro, o roupão. Eu estava indo em direção à padaria, a única da cidade que abre no domingo de manhã. Estava quase lá, mas não entrei.


Teresa me parou na esquina, estava distribuindo uns panfletos de
alguma igreja e, talvez seja por isso mesmo que não reparei nela logo
de imediato. Não! Mentira! Eu não reparei, porque Teresa era gorda e quando digo gorda, quero dizer gorda mesmo.


Teresa tinha tudo farto, tudo mesmo. Olhou-me de cima a baixo, meio que esnobando meu roupão. Desgraçada. E sorriu falsamente. Entregou-me um panfleto, se apresentou e disse: Jesus te ama. Eu me irritei no ato, não por conta de Jesus, mas por conta daqueles olhos esbugalhados de Teresa. Quis esnobá-la também. Peguei o papel, fiz cara de nojo, cuspi e rasguei na frente dela.


Ela ficou puta. Sério! Nunca vi uma beata tão enraivecida como aquela. Aquele monte de carne vermelha começou a tremer, era como um terremoto e um vulcão acontecendo ao mesmo tempo. Ela me deu um tapa. E doeu.


Eu quis revidar, mas a Teresa, bom a Teresa era... uma Teresa putiada e beata e vermelha e gorda. E o seu problema não era um panfleto de igreja rasgado, nem sua infinita banha, seu problema era mesmo com o meu roupão.


Nos conhecemos ali, na esquina, no mesmo lugar que cato as outras, mas não a Teresa. Com ela foi assim eu de roupão e ela vulcão. Eu a
convidei pra um café. Ela negou, de cara, coisa de beata mesmo, mas aí eu fiz menção de abrir o roupão, disse que se ela não aceitasse eu...


E Teresa ficou mais vulcão. Aceitou. Finalmente a padaria.
Teresa não quis comer nada. Grandes coisa, ela ainda era gorda. Eu
comprei um francês e um cappuccino. Sentamos numa mesa bem no canto. A atendente riu quando nos viu chegando. Ela sabe da minha fama, mas a Teresa já era demais.


Não conversamos. Eu comi devagar e fiquei olhando pra ela. Ela me
olhava também. Era tanto silêncio que eu preenchi olhando as coxas
dela que a saia não conseguia tampar. Teresa tinha de por as pernas
pro lado, debaixo da mesa não dava. Que gorda.


Teresa fingia que não via que eu a via, mas não ficava vulcão. Vez ou
outra tapava as coxas com os panfletos da igreja e olhava meu roupão. Olhava tanto que era como se me olhasse por dentro. Olhava meus pelos escapando por cima e olhava querendo ver os pelos que estavam embaixo.


Agora Teresa amassava os panfletos nas coxas e me olhava. Teresa
olhava meu roupão, era como se ela fosse arrancá-lo e me morder
todinho.


Eu não aguentava mais olhar pra Teresa, aquela gigante, aquelas coxas. Meu pau ficando duro. Paguei a conta.


Saímos juntos, ela caminhava ao meu lado e eu não disse nada, fui em
direção ao meu apartamento, ela me acompanhando. Ainda o silêncio.
Eu caminhava olhando pra baixo, pra debaixo da saia de Teresa. Que
coxas, ai meu Jesus que coxas tinha a Teresa.


E numa outra esquina qualquer Teresa parou, estávamos quase lá. Então ela arrancou meu roupão, assim de súbito, e o rasgou. Cuspiu. Eu fiquei parado, não sabendo o que fazer, meu pinto duro comungando o silêncio. Ela fez cara de nojo, e se foi a Teresa, levando suas coxas, o seu Jesus que me ama e o meu roupão.


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Suzi Daiane


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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Águas Doces (Suzi Daiane)


Na época em que os rios eram límpidos e que passar a tarde pescando às margens dos pequenos córregos era a diversão de muitas famílias, os barcos eram feitos de papel e corriam desleixadamente pelas águas doces. Nesses barcos viviam piratas, que não desistiam mesmo diante das mais fortes tempestades, enfrentavam as correntezas até o secar da última gota de sangue em suas veias.


As tempestades sempre existiram, nunca se soube a origem verdadeira delas; se algum gigante as criara para reafirmar seu poder com os trovões, ou se o dono dos céus decidira as enviar para testar quão bravos os piratas poderiam ser. O certo é que os piratas em momento algum davam chance para a fraqueza ou medo, sabiam que suas vidas eram sustentadas por uma base frágil, como muitas vidas o são, e faziam por merecer os dias de liberdade com nuvens claras do céu.


Certa vez, quando atracavam nas águas quentes do rio, foram pegos de surpresa por entulhos, metais e pedaços de plásticos que sujavam as águas e carregavam os barcos para lugares perigosos. Muitos dos barcos foram arrastados para longe, os materiais presos a eles faziam com que afundassem depressa. A esperança parecia dissolver-se. A água veio a encher por completo diversos barcos, que afundaram, levando consigo fiéis piratas.


Restava somente um barco naquela tragédia, até que pedaços de alumínio cortaram sua parte inferior e a água fluíra por dentro do convés. Os piratas viam-se ameaçados. As águas entraram com pressa, trazendo um colorido desconhecido e um odor insuportável que os fazia desmaiar.


O capitão ainda dava ordens, parecia não perceber a gravidade, e só cessou os gritos quando finalmente o barco pareceu velejar de maneira amena. Os piratas abraçaram-se procurando estancar com o próprio corpo as entradas de água. Não houve o que se fizesse parar, o barco afundou logo após bater em uma enorme pedra escondida nas encostas.


Foram tempos difíceis aqueles, todos os barcos e sonhos foram destruídos, milhares de peixes foram encontrados sem vida na beira do rio e piratas desapareceram por todo o sempre.


Muitas famílias ficaram doentes, e, aos poucos, também se esvaíram das proximidades do rio, o líquido que vertia das nascentes se uniu às novas cores e, os poucos moradores que restaram, adaptaram-se à escassez da água límpida. Agora eram conhecedores do sabor de outro líquido, quase um óleo, que tinha qualquer outra aparência e consistência, mas que ainda era chamado de água.


Os piratas de água doce passaram a existir somente nas lembranças. Nas histórias contadas sobre eles, são sempre descritos com uma aparência estranha, muitos sem algumas partes do corpo. Talvez porque realmente as tenham perdido graças aos entulhos; talvez para que assim ninguém se esqueça da bravura de seus corações.




Suzi Daiane é atriz e professora.
Co-autora no livro “Preliminares” e autora do livro “Tonalidades”.