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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Espelho, Espelho Meu (Vana Comissoli)


Margaerith mirou-se no espelho e sentiu o “Não” ordenando que parasse. Vacilou, mas não deixou de fitar o belo, translúcido rosto. Nunca vira olhos tão amendoados e profundos de um verde esmeralda camuflado num debruado de cílios longos e macios, negros como na noite mais fechada onde, a custo, a lua rasga espaços prateados.
A boca era cheia, sedimentada em rochas sensuais que se derretiam quando sorria. Balançou os cabelos negros, macios e salpicados de brilhante purpurina onde a luz incidia. Nem Vênus de Samotrácia teria um nariz tão perfeito e indiscutivelmente divino. Talvez o de Perséfone pudesse lhe fazer frente.
Tinha que reconhecer embora a modéstia lhe negasse esse direito: era linda. A mulher mais linda que o espelho já fixara.
Espelhos não são mesmo confiáveis por que um risinho de Silvana rosnou em sua boca e Margaerith se esfumaçou torcendo a boca cheia de escárnio onde os lábios afinaram em dois traços duros e os olhos fixaram um ponto que era nada e enegreceram em fundos poços. Os cabelos mostraram as pontas queimadas e duplas onde um creme ou condicionador poderia fazer milagres, mas não fazia.
A ira entonteceu os sentidos e levantou a mão para agredir a imagem tão verdadeira ou nem tanto, ou qual era a verdadeira face em meio à distorção que se oferecia quase prazerosamente aos desavisados? Golpeou sem muita força. Bem no fundo sabia que o sangue traria junto uma aguda dor de corte e de novo teria a ferida aberta por meses a fio sem que cicatrizante algum pudesse sanar o problema enosado no soco.
Lembrou que em algum lugar distante, perdida numa floresta onde tudo era pequeno demais e as cavernas lustravam diamantes que ninguém usaria, vivia uma princesa que esquecera o caminho de casa ou fora largada lá para viver uma vida que não deveria ser sua. Uma princesa deveria sempre se mirar em espelhos de cristal onde a imagem não acataria o peso dos anos e não haveria bruxas a espiar do outro lado para ver a pele se desmanchando.
Talvez se houvesse alguma mágica que lhe permitisse atravessar o espelho e enxergar pelo outro lado não sendo bruxa, pudesse perceber enfim a face que trouxera ao mundo para construir alguma coisa que esquecera por completo de tanto procurar a imagem dentro do espelho.
Quando chagava neste repetido ponto era hora do espelho falar e lhe dizer coisas ocultas que não queria ouvir e insistiam em bater à porta. Nesta noite ele se manteve quieto como todos os outros seus semelhantes, fossem feitos de água, prata ou vidro. Incrivelmente todos os príncipes que tivera saíram a cavalgar seus cavalos brancos pela sala pequena demais para tanta gente. Maçãs envenenadas se trincavam entre seus dentes e sentia o gosto acre da cicuta escorrendo pela garganta enquanto apertava forte na mão o vidro repleto de comprimidos fatais.
Alguns buscavam o beijo de Margaerith e outros mergulhavam incansavelmente na vagina de Silvana sem que nelas houvesse prazer por um ou por outro. Quem sabe aquele menino que, lá atrás, onde o tempo já esqueceu, pudesse fazer algum milagre e trazê-la de volta deste sonho real que vivia já há mais de quarenta anos e do qual não conseguia acordar.
Muita gente se pôs a chorar.Ela estava irremediavelmente morta dentro do vidro onde uma camada de prata, alumínio ou amálgama de estanho, se depositava quimicamente coberta com uma substância protetora.Ou era prisioneira das duas imagens dúbias? Ou de si mesma que não desabrochava nunca?
Se existem diversos tipos de espelhos, por que não encontrava nunca um do tipo plano que produzisse uma imagem virtual e simétrica dela mesma? Afinal a imagem dada por um espelho plano é do mesmo tamanho que o objeto, é virtual, uma vez que não se pode projetar num alvo, é direita e é simétrica, ou seja, invertida lateralmente. E real por refletir o que havia de concreto dentro do rosto espelhado, com olhos, boca, nariz e cabelos que não se torcessem ou distorcessem ao bel prazer em figuras que se sobrepunham conforme o latejar do coração e da mente.
Escapou da imagem misturada e antropomorfa e o olhar escorregou pelas paredes onde, pendurada por um prego desajeitado, uma menina se equilibrava instavelmente numa foto preto e branco. Era quase engraçado reconhecer que era bonitinha, mas não era a menina mais linda do mundo e talvez nem sequer uma princesa e não era também uma bruxa ou mulher malvada. Era apenas uma menina meio assustada com doces olhos expectantes que balbuciou algo em seu ouvido.
A mão se abriu e os comprimidos se misturaram aos cacos do frasco estilhaçado no chão. Em seguida, um raio flutuante entrou pela janela atravessando a grossa chuva e fez com que o espelho arrebentasse em mil pedaços. Um velho pensamento supersticioso escreveu rápido na lembrança: espelho quebrado são sete anos de azar. Estranhamente seriam seus sete anos de novas possibilidades já que azar significa o contrário de tudo que já aconteceu. Depois disso talvez não houvessem mais Margaerith e nem Silvanas a embaçar imagens. Por fim aparecesse a Maria das Marias, esse nome de batismo que misturou todas as imagens num enroscado sabor de desconhecimento.
Buscou a vassoura e recolheu os cacos assobiando pela primeira vez na vida. Uma imagem nunca é o que mostra, é apenas reflexo de algo que se transforma conforme a luz e o movimento e talvez fosse mesmo essa coisa cambiante, mas entre uma e outra haveria a si mesma num desfecho que não importa saber qual é, basta que se saiba que mostrará não mais imagens, mas uma pessoa real.


Vana Comissoli

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Futura Mente (Vana Comissoli)

- Apenas uma queda de pressão.
Sorri, afinal já tinha acontecido tantas vezes. De repente a cortina se fechava, as pernas bambeavam enquanto as glândulas sudoríferas bombeavam a todo suor.
Mas desta vez...

Uma floresta negra, A Floresta Negra! Quase na fronteira com a França. O cuco cucando relógio ao fundo, enquanto riscas de alemão corrigiam: Schwarzwald. Ok, que seja em sua língua mãe, tem direito, assim a floresta é mais negra.
As árvores, colunas góticas, furam o céu, onde céu nem se vê mais. As copas são grossas cortinas fechadas. Suas raízes existem em dois níveis que me tonteiam:
As que entram terra à dentro e posso acompanhar até perder o fôlego, sufocado pelo calor e os gazes vulcânicos. Aí fincam suas coifas famintas reproduzindo células e mais células até que eu não saiba mais de onde veio o quê. Não consigo entender como a fornalha da terra as alimenta em vez de matá-las inexoravelmente. Procuro a visão fervente e encontro o vazio.
As superficiais, dando aparente equilíbrio. Retorcidas, bulbosas, arroxeadas. Vez em quando explodindo hematomas-geiseres de sangue. É nessas que tropeço a cada passo. Caio, levanto e ando em círculos até criar uma trilha de alívio. O alívio vem do fato que pisoteio tanto o mesmo lugar que acabo me acostumando e não me assusto mais.
Nesta floresta é sempre noite. Explodem fogos fátuos violentando o escuro para alumiar buracos, troncos vencidos, tocas de susto. Restam luminescências que previnem meus tropeços. Há corujas também, de tempos em tempos ouço seus pios. Dizem que é sabedoria, em mim provocam arrepios.
O lugar é conhecido por ser de mau agouro, sombrio e misterioso. Muitas lendas e histórias macabras são creditadas a esta floresta. Vejo os fantasmas arrastando os lençóis em lúgubres uivos rosnados.
Ando por aqui procurando amoras para fazer uma torta que nem conheço, mas sinto o doce na boca. As silvestres são as melhores, tem o sabor de nossas mãos com um pouco de sangue onde espinhos vociferaram. É meu desafio, transformar o pavor escondido na floresta numa bela torta que comerei de garfo e faca e beberei, em homenagem a mim, um cálice de fino champanhe rosado.
Os caminhos se tornam mais intrincados. O chão é instável e pedregoso, não consigo ter certeza de onde e no que piso. Às vezes cheira à flores silvestres e outras, improváveis, criadas em finas estufas. Ainda outras, um odor nauseabundo de fossa servida, putrefação. Talvez haja um pântano nas proximidades.
Mistérios sonâmbulos que me parecem familiares apesar do medo que sinto em revelá-los.
Por momentos um resquício de raio solar corta o emaranhado das copas e penetra na escuridão. Por que não o sigo voltando para o agasalho de minha casa? A torta será tão importante assim? Se não tiver a receita ficará algo intragável. Não lembro se sei os ingredientes toso e muito menos o modo de fazer.
A coruja pia, seu soar se decifra em urgências de ficar, minha casa está desabando, de qualquer modo choverá em mim. Ficarei por aqui, de alguma forma esta floresta tenebrosa me seduz e me chama.
Eu não tinha sono, mas também não sabia há quanto tempo caminhava. Podia ser um dia, uma hora ou apenas um minuto. Talvez devesse descansar. Talvez devesse tentar qualquer coisa que me fizesse parar.
Procurei algum canto protegido para deitar-me. Foi quando ouvi o rugido. Estremeci. Dentro da floresta houve agitação de pássaros, corridas de animais menores, percebi que algo se aproximava e vinha com destino bem decidido: eu. É minha hora, pensei, servirei de pasto às feras.
Imediatamente meus sentidos reagiram, não queria saber de Tanatos na minha cola.
O monstro apavorante e armado de estranha espada apareceu entre as árvores e arrepiei. Lutaria por minha vida. Imediatamente prostrei-me. Não teria forças, ele era grande demais, cruel demais.
Quando estava sobre mim, a bocarra aberta, enxerguei seus olhos de horror e os reconheci. Eram meus olhos. Estarrecido e abandonando a defesa, examinei: o monstro era eu transformado, tinha muito menos anos, muito menos resistência, mas era eu. Como poderia comer a mim mesmo?
Ele atacou, me esquivei e lutamos por tempo infindável. A cada estocada que me atingia eu ficava mais fraco, recolocava a arma em sua mão para que voltasse a me ferir.. Meu corpo se reduzia a quase nada e eu pensava o mesmo que o monstro pensava: destruir... destruir...
Destruir? Só havia eu para ser destruído! Estava ordenando que destruísse a mim mesmo? A cabeça começou a rodar, a pressão caiu. Essa minha pressão... Cai quando mais preciso dela.
Brilharam vaga-lumes, fiquei sabendo que a noite chegara. Sua luz era um quase nada em meio à escuridão, mas me deram um alento. Faziam vôos incríveis sobre mim e pousavam em meu corpo. Tinham mensagens de seres mágicos, deduzi, ao pousarem no monstro ele se encolheu... Encolheu. Quando vi não passava de um menininho chorão que me despertou muita pena. Tão indefeso... A seu lado uma fantasia inflável de monstro esvaziava mostrando sua insignificância.
Respirei aliviado, tinha certeza que este monstro não mais me ameaçaria. Nem monstro era! Teria sido criado por mim? Isso não me pareceu importante. Estava acabado e resolvi continuar procurando as amoras. De dia ou de noite, aqui isso também não importava e estava decidido a fazer minha torta especial
Atravessei as árvores caminhando a esmo e vi ao longe uma luzinha. Então existia mesmo uma casa de bruxa na floresta? Não me deixaria enganar. Que fosse feita de confeitos! Bem sabia que a proprietária não era nada doce.
A senhora estava à porta quando me aproximei. O aroma de seus cabelos chegou a mim antes que pudesse ver seu nariz torto, tinha certeza que era torto, pontudo e com verruga. Na certa tirara o chapéu preto e cônico. Era um odor suave carregado de lembranças, tinha cheiro de bebê sendo amamentado. Isso me desconsertou, não estava preparado para este tipo de engodo. Aproximei-me.
Minha mãe sorriu para mim e me convidou a sentar:
- Deves estar cansado, meu filho, vem, estava te esperando.
Minha santa mãezinha morando neste lugar?
Em seguida enxerguei seu relho e corria atrás de mim me chamando de malandro, espirocado e outros nomes que pensei ter esquecido. Deixei que me alcançasse e me batesse até minhas costas não aguentarem mais e o sangue escorrer, pedaços de carne machucada se desprendiam.
- Mamãe, mamãe, eu preciso tanto de ti! Não me bata, me pega no colo!
Parecia que isto lhe dava mais raiva e brabeza, recrudesciam as chibatadas.
De novo Tanatos espiou. De novo reagi. Por que estaria sempre escondido atrás dos seres da floresta? Não haveria de me levar. Não ainda.
Voltei para minha mãe com os braços cobrindo a cabeça para que seu relho pegasse em lugares mais resistentes, menos mortais. Seus olhos estavam extremamente tristes e ela não tinha relho algum, tinha cansaço e uma meninice estampada na face. Abraçou-me.
Todo o frio saiu de mim e pude, pela primeira vez, receber seu afago verdadeiro que curou imediatamente minhas feridas. Beijou-me dizendo:
- Meu filho, agora estás pronto para seguir. A floresta é imensa e muitos outros animais te assolarão, sempre existe mais um, mas olha para trás, pelo caminho por onde chegaste aqui.
Para minha surpresa havia ainda floresta, tinha desejado que não. Era uma floresta muito diferente, as árvores também subiam ao céu, porém as estrelas brilhavam lá no alto e a lua clareava tudo. As sombras não desenhavam galhos retorcidos como garras, mas estradas abertas, seguras.
Podia parar aqui e voltar, não me perderia. Sem amoras?
De dentro da casa de minha mãe saiu circunvolusionando um delicado cheiro de torta de amoras. Fiquei feliz, com certeza minha mãe me daria a delícia e eu não precisaria mais andar na floresta que ainda me amedrontava. Pedi na certeza da aquiescência.
- Não filho, esta torta é minha. Entrei na floresta e colhi as amoras, se eu te der ficarei sem nada e tu terás nada para comer. A fatia que te cabe já comeste. Tens que buscar tuas próprias amoras e fazer a tua torta.
Ia me irritar, bater o pé fazer manha, deixar o coração ficar ferido. Era este o costume, depois carregaria para sempre a imagem da rejeição. Antes que eu começasse ela sorriu e fez um gesto que mostrava quão seria inútil e como só a mim perturbaria.
Despedi-me, ela beijou-me dizendo como sempre estivera à minha espera e como sempre estaria. Podia voltar quando quisesse, cada um comeria sua torta com prazer e repartiríamos pedaços. Explicou-me que só quando temos nossa própria receita é que podemos partilhar algo realmente doce.
Segui ainda olhando para trás por um bom tempo. O próximo monstro foi menor e o outro muito estranho, não me lembrava ninguém, mas era menor ainda. Caminhei penetrando cada vez mais à floresta e ela não era tão ameaçadora apesar de continuar não a conhecendo.
Cheguei numa nova clareira, havia muitas, lá pela terceira que encontrei tive certeza disso. Nesta havia uma frondosa amoreira e em galhos ao meu alcance se penduravam as mais belas amoras que já vi.
Era hora de voltar. Finquei uma bandeira colorida no chão, sabia que estaria ali novamente e deveria marcar onde começaria o desconhecido que era enorme, mas não me punha medo. Os monstros, o desconhecido, as bruxas, os duendes malvados, todos poderiam caber no meu bolso se assim eu decidisse e a cada um que diminuísse estaria apto para conhecer a floresta, pelo menos um bom pedaço, até que encontrasse Tanatos sorrindo e não rosnando para mim.

- É a pressão, caiu outra vez!
Esses médicos são tão bobos! Mas ela não cairia mais, sabia que entrar na floresta não precisava ser de joelhos.

Vana Comissoli