domingo, 29 de julho de 2012

Escritor Convidado: Luiz Carlos Amorim

VALORIZANDO A LITERATURA DE HOJE
Por Luiz Carlos Amorim – Escritor – Http://luizcarlosamorim.blogspot.com

Recebo mais uma carta do professor Celestino Sachet, escritor catarinense estudioso da literatura catarinense. Ele lê tudo o que se produz no Estado. É dele o livro “ A Literatura Catarinense, que registra tudo sobre a produção literária em nosso estado, desde a sua origem mais remota até a época da publicação do livro. A primeira edição do livro saiu em 1985, mas ele está preparando uma nova, atualizada, que deve sair este ano.


Pois o professor Celestino lê tudo, tim-tim por tim-tim do que lhe cai na mão. Por isso ele sabe o que está acontecendo quando se trata da produção literária em Santa Catarina. Mando-lhe regularmente a revista Suplemento Literário A ILHA, do grupo do mesmo nome, do qual sou editor, e ele lê e me retorna comentando o que leu.


Pois a carta que recebi dele é sobre a leitura da edição de número 120 da revista do Grupo Literário A ILHA. Entre outras coisas, ele diz: “Apreciei o texto “Tecnologia de ponta na escola pública”. Também penso que de pouco adianta entupir menininhos e menininhas com os últimos inventos da tecnologia digital. Entendo que adquirir informação não é aprender. Aprender é transformar essa informação empacotada em capacidades para instalar em nossos educandos o hábito da inovação – capacidade para domesticar a informação que nos passam – não importa o meio pelo qual ela chega a nós – e tirar dela o que nos serve para criarmos valores que nos valham na hora em que o desconhecido nos agarrar pela perna.”


Não é a mais pura verdade? Professor Celestino fechou com chave de ouro o meu artigo. E ele continua: “Vamos aos poemas que enfeitam a revista. Há tantos... Fico com “A falta que eu quero”, na última estrofe: ´posso ensinar a fazer / a sentir a minha ausência / melhor, / sentir a falta de outro / que sentir a falta de si´. Está aí um excelente desafio à inovação a partir do próprio título: A falta que eu quero, onde a necessidade pessoal vai além de todas as convenções filosóficas e linguísticas. Sentir a falta do outro é o que a humanidade está precisando.” (O poema é de Adriana Niétzkar e Vanucci Deucher).


Obrigado, professor Celestino, por apreciar a nossa revista. Isso a valoriza.


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SAUDADE
Luiz Carlos Amorim

Ah, essa saudade vadia,
a passear, insistente,
pelo fundo dos meus olhos;
não se decide, afinal,
a ir embora de vez...
Brinca com a tristeza
que transcende o meu olhar,
invade o meu coração
e mata todas as flores
que desabrocharam

em mim...


CHAMA
Luiz Carlos Amorim

Um menino
cruzou o meu caminho.
Despido de tudo,
até quase de vida,
restava-lhe, apenas,
no fundo dos olhos,
uma chama pequena,
quase apagada,
de pura inocência.
Dei-lhe um sorriso,
velho e surrado
de esmola
e fui procurar
a minha chama
perdida...


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Sobre o autor:


Luiz Carlos Amorim é Coordenador do Grupo Literário A ILHA em SC, com 32 anos de atividades e editor das Edições A ILHA, que publicam as revistas Suplemento LIterário A ILHA e Mirandum (Confraria de Quintana), além de mais de 50 livros.
Foi eleito a Personalidade Literária de 2011 pela Academia Catarinense de Letras e Artes e ocupa a cadeira 19 da Academia Sul Brasileira de Letras.
Editor de conteúdo do portal PROSA, POESIA & CIA. e autor de 27 livros de crônicas, contos e poemas, três deles publicados no exterior. Colaborador de revistas e jornais no Brasil e exterior – tem trabalhos publicados na Índia, Rússia, Grécia, Estados Unidos, Portugal, Espanha, Cuba, Argentina, Uruguai, Inglaterra, Espanha, Itália, Cabo Verde e outros, e obras traduzidas para o inglês, espanhol, bengalês, grego, russo, italiano -, além de colaborar com vários portais de informação e cultura na Internet, como Rio Total, Telescópio, Cronópios, Alla de Cuervo, Usina de Letras, etc.



sexta-feira, 27 de julho de 2012

Roupão (Suzi Daiane)

Que ela tinha um baita par de coxas ela tinha. Eu nunca me preocupei
com isso, afinal peito grande já me excita horrores, mas aquelas coxas... Bem, antes de ficar de pau duro de novo ao lembrar das coxas
de Teresa, deixa eu contar como a conheci.


Era uma manhã de domingo, eu geralmente caminho de chinelo de pano e roupão logo cedo porque gosto de ver a cara de espanto do povo dessa cidade. São uns bestas mesmo. Fazem tipo, uns chegam a atravessar a rua, outros dão risinhos falsos, principalmente as gostosonas que caminham ao lado dos maridos cinquentões cheios da grana. Odeio seus maridos. Adoro as gostosonas.


Mas isso não vem ao caso, porque Teresa não era uma dessas, voltemos ao chinelo de pano e ao roupão. Eu caminhava exatamente vestido assim, e digo exatamente porque eu não usava mais nada. Era só o chinelo de pano e, claro, o roupão. Eu estava indo em direção à padaria, a única da cidade que abre no domingo de manhã. Estava quase lá, mas não entrei.


Teresa me parou na esquina, estava distribuindo uns panfletos de
alguma igreja e, talvez seja por isso mesmo que não reparei nela logo
de imediato. Não! Mentira! Eu não reparei, porque Teresa era gorda e quando digo gorda, quero dizer gorda mesmo.


Teresa tinha tudo farto, tudo mesmo. Olhou-me de cima a baixo, meio que esnobando meu roupão. Desgraçada. E sorriu falsamente. Entregou-me um panfleto, se apresentou e disse: Jesus te ama. Eu me irritei no ato, não por conta de Jesus, mas por conta daqueles olhos esbugalhados de Teresa. Quis esnobá-la também. Peguei o papel, fiz cara de nojo, cuspi e rasguei na frente dela.


Ela ficou puta. Sério! Nunca vi uma beata tão enraivecida como aquela. Aquele monte de carne vermelha começou a tremer, era como um terremoto e um vulcão acontecendo ao mesmo tempo. Ela me deu um tapa. E doeu.


Eu quis revidar, mas a Teresa, bom a Teresa era... uma Teresa putiada e beata e vermelha e gorda. E o seu problema não era um panfleto de igreja rasgado, nem sua infinita banha, seu problema era mesmo com o meu roupão.


Nos conhecemos ali, na esquina, no mesmo lugar que cato as outras, mas não a Teresa. Com ela foi assim eu de roupão e ela vulcão. Eu a
convidei pra um café. Ela negou, de cara, coisa de beata mesmo, mas aí eu fiz menção de abrir o roupão, disse que se ela não aceitasse eu...


E Teresa ficou mais vulcão. Aceitou. Finalmente a padaria.
Teresa não quis comer nada. Grandes coisa, ela ainda era gorda. Eu
comprei um francês e um cappuccino. Sentamos numa mesa bem no canto. A atendente riu quando nos viu chegando. Ela sabe da minha fama, mas a Teresa já era demais.


Não conversamos. Eu comi devagar e fiquei olhando pra ela. Ela me
olhava também. Era tanto silêncio que eu preenchi olhando as coxas
dela que a saia não conseguia tampar. Teresa tinha de por as pernas
pro lado, debaixo da mesa não dava. Que gorda.


Teresa fingia que não via que eu a via, mas não ficava vulcão. Vez ou
outra tapava as coxas com os panfletos da igreja e olhava meu roupão. Olhava tanto que era como se me olhasse por dentro. Olhava meus pelos escapando por cima e olhava querendo ver os pelos que estavam embaixo.


Agora Teresa amassava os panfletos nas coxas e me olhava. Teresa
olhava meu roupão, era como se ela fosse arrancá-lo e me morder
todinho.


Eu não aguentava mais olhar pra Teresa, aquela gigante, aquelas coxas. Meu pau ficando duro. Paguei a conta.


Saímos juntos, ela caminhava ao meu lado e eu não disse nada, fui em
direção ao meu apartamento, ela me acompanhando. Ainda o silêncio.
Eu caminhava olhando pra baixo, pra debaixo da saia de Teresa. Que
coxas, ai meu Jesus que coxas tinha a Teresa.


E numa outra esquina qualquer Teresa parou, estávamos quase lá. Então ela arrancou meu roupão, assim de súbito, e o rasgou. Cuspiu. Eu fiquei parado, não sabendo o que fazer, meu pinto duro comungando o silêncio. Ela fez cara de nojo, e se foi a Teresa, levando suas coxas, o seu Jesus que me ama e o meu roupão.


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Suzi Daiane


www.tonalidadesuzi.blogspot.com
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msn: suzidaiane@hotmail.com

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Conto quase crônica, lembrando Marilyn Monroe (Inacio Carreira)

Para Norma Jeane Mortenson *




Ao longo do tempo, depois de muitas confidências, conselhos, trocas de informações, descobertas de gostos (in)comuns, souberam-se amigos. A amizade é um sentimento que, após implantado, cresce tomando todos os espaços, confunde-se com outros sentimentos, às vezes. Mas requer cuidados, a amizade. Como bem disse Saint-Exupéry, “Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas”. Algumas farpas foram trocadas, claro, como em todo o relacionamento sincero, onde cada um sente-se no direito de dizer isto e aquilo ao outro, às vezes magoando (sem intenções, claro, sem intenções...), mas, nada que abalasse a troca de e-mails, postagens no facebook, telefonemas, indicações para este livro, aquele filme... "Gostas desse cantor?"


 "De repente, não mais que de repente", como disse muito bem o Poetinha, (quem ele pensa que é para aquilatar o Vate?) ela sumiu. Das mensagens enviadas voltavam apenas confirmações, automáticas, de recebimento. Estaria viajando? Sim, parece que ela disse sair em viagem paga pelos filhos, presente-surpresa, alegria alegria: excursão internacional num país vizinho, sul-americano igual ao nosso. Daquele que dizemos ter rixa. Mas, exageros à parte, tudo fica sendo uma grande brincadeira de meninos grandes, sabemos de muitos brasileiros que se abrigam de nossa falta de civilidade nesse país ombreado, dito e havido detentor de cultura europeia.


Ele foi ao seu estado, também vizinho, recentemente. Mal se falaram ao telefone: ela estava (estará ainda?) engajada num serviço que toma quase todo o seu tempo, além do filho que voltou ao ninho; a filha que está longe e inspira cuidados; os demais filhos, de perto e de longe, já com proles e cônjuges, cheios de histórias, pedidos de colo; a manutenção do apartamento; os fazeres e afazeres de seus muitos dotes, pois que pinta, borda, prega botões (não, este final é propaganda de máquina de costura...)!


Se o alheamento for causado por alguma dessas hipóteses ele ficará feliz por ela. Pois que a tem em boa conta. Falaram-se muito, escreveram-se mais ainda, visitaram-se pouco: ele, umas três ou quatro vezes, ao longo de mais de dez anos, foi ao encontro dela. Ela, apenas uma vez visitou-o. São ambos muito ocupados, cheios de compromissos pessoais, artísticos, sociais...


Se este texto fosse uma carta ela veria estas letras? Ele sabe que não verá a resposta, se vier. Pois, – lembrando a Marilyn Monroe –, os telefones para quem ligou não foram atendidos. Inclusive o dela, agora, que responde com uma monofônica monotonia, até entrar na gravação da concessionária do serviço. Chanel nº 5 é muito caro para nossa economia, que gira conforme a música do Fundo Monetário Internacional, movida a dólares. E a euros.


“Mas está muito frio!”, ele reclamou...


Inacio Carreira


 




* Norma Jeane Mortenson (Los Angeles, 1º JUN 1926 — Los Angeles, 5 AGO 1962), foi uma das mais célebres atrizes norte-americanas com o pseudônimo de Marilyn Monroe.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Tempo (Marcio E. Ochner)

Nas horas que cabiam, observava as paredes perdidas ao movimento do tempo, desconcretavam-se virando areia...
Das folhas verdejantes que se abriam ali em caminhos fissurosos, desconstruíam o homem, sem ele mesmo notar.
Cada tijolo vibrava ao novo dia, perdendo sua cor majestosa, pela imponência solar.
Cada vivente que passava ali, nem o viam-no passar...
Pois o tempo estava ocupado, trabalhando na massa nuclear.

domingo, 22 de julho de 2012

Silêncio (Tiago Nascimento)

Helena parou abaixo dos umbrais da porta e sorriu. Disse de si para si que já era. Que já não estava mais ali quem sofreu, quem penou. Pensou rapidamente um verso, uma antiga canção popular, nenhum deles lhe ocorreu no momento, mas deu de ombros. Na hora do recomeço a melhor música pode ser o silêncio.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Chapéu Vermelho (Vana Comissoli)


Mania, gosto, estética, esquisitice, arcaica escolha, podem chamar do que quiserem, mas eu amo chapéus! Principalmente os vermelhos. Minhas primeiras lembranças são de tocas e capuzes vermelhos, a explicação que encontrei é que minha mãe e eu somos do signo de Áries e, portanto, vermelho é nossa cor.
A medida que cresci sofistiquei minha sensibilidade e passei às boinas à francesa e chapéus. Fui motivo de gozação na escola, mas na faculdade já começaram a achar um charme e se tornou parte de minha identidade. Não era para esconder cabelos feios, sempre os tive sedosos e brilhantes, castanho claro onde o sol coloca pinceladas douradas nas pontas suavemente encaracoladas.
A primeira notícia que se tem de um chapéu numa cabeça feminina data aproximadamente dois mil anos antes de Cristo. Com o passar dos séculos foi deixando de ser usado como proteção do sol para se transformar em acessório embelezador e, não raramente, indispensável.
Os chapéus sempre foram muito utilizados pela realeza que tinha na rainha francesa Maria Antonieta (a mais “fashion” das rainhas) uma grande fã e, atualmente, todas as suas variações, são a paixão da futura princesa da Inglaterra, Kate Middleton, embora a preferência seja a casquete que é um charme e não precisa ser tirado à mesa. Se não princesa, alguma coisa que o valha para o povo britânico que se ufaniza com sua nobreza.
Pois é, eu sei tudo sobre chapéus, cada um com seu fetiche, embora digam que apenas os homens os têm. Se fetiche é masculino sou homem, embora tudo em mim o negue. As bobagens que inventam! Freud tinha razão, um charuto, à vezes, é apenas um charuto.
Minha avó sentava-se empertigada na poltrona mais adequada a um soltar de corpo, era o jeito dela, ou talvez temesse amassar o indefectível chapéu. Fazia algum tempo que não falava coisa com coisa, os médicos ainda investigavam a possibilidade de Alzheimer. Aos 95 anos que diferença faria se fosse isso ou aquilo? Minha mãe passou por nós e falou baixinho balançando a cabeça resignada: Caduquice... Caduquice... Daqui a pouco serei eu. Tropeçou no tapete em seguida, saiu mancando. É a velhice é resignação que dá topada no dedão de todo mundo que se aproxima dela.
Vovó Nívea mexia os lábios sem que eu conseguisse entender uma palavra do que dizia, ajeitava os cabelos sob o chapéu de abas caídas que um dia fora útil em praias ensolaradas.
Ora, uma menina moça deve usar chapéus, mostra sua linhagem, sua posição na sociedade. E são tão sedutores, imagina um romance sob um chapéu, um beijo roubado, o rubor escondido pela sombra provocada no rosto.
Entendi uns fiapos da frase solta e compus uma compreensão interna. Vovó teria voltado no tempo? Não sei se era triste acompanhar o que considerávamos declínio, ou se era uma alegria saber que ela não sintonizava na falência, na escuridão que lentamente a envolvia. Prefiro crer que assim fosse melhor: eternamente a jovem que fazia footing na calçada de paralelepípedos lisos e desenhados da rua mais conhecida da cidade: a rua da Praia que teve praia em perdido tempo quando ainda não tinham aprisionado o Guaíba e suas águas beijavam quase o centro da cidade.
Quando eu crescer, conhecerei um belo homem de chapéu, daqueles que tem a peninha colorida na copa. Ah... que romântico...
Fiquei imaginando o Nando de calça jeans, jaqueta de motoqueiro de chapéu de feltro muito composto na cabeça. E se ficasse bem? E se a calça tivesse friso? E se a camisa fosse de colarinho e não a camiseta casual chic? E se ele tivesse carro em vez de moto e abrisse a porta para mim? E se me mandasse flores? E se fizesse poemas de amor?
Cinturinha de vespa, que orgulho tenho da minha, feita no elástico da cinturita. Ter 18 anos é uma delícia e logo casaremos. Serei moderna, casarei de chapéu e sem véu. Um casamento de verão, minha ousadia convencerá que seja no jardim do clube e todas minhas amigas estarão com suas lindas luvas brancas, saias esvoaçantes sobre a armação e belos chapeuzinhos com renda para encobrir o flerte. Logo casarei...
Vovó falava alto e claro agora e parecia não me ver, fiz movimentos com os braços para chamar sua atenção e, só depois de algumas tentativas, percebi que ela se limitava a imitá-los como se estivesse frente a um espelho. Sorria quando eu sorria e quase encostou o nariz no meu para dizer sussurrando que estava muito magrinha, amanhã começaria a comer mingau, precisava de umas carnes. Pensei no trabalhão e esforço que eu fazia para não comer chocolate, malhar três vezes por semana, pizza só uma vez por mês, tudo para impedir que o ponteiro da balança desse um pulo de susto quando me pesasse.
Dois filhos, um casal. Certamente é o que toda mulher sonha. Maurício e Marília. Combina perfeitamente. Serão lindos e rosados, depois, eu ensinarei Marília a amar chapéus, a se cuidar como toda moça deve fazer, ser composta e não oferecida que é coisa de menina sem família.
Minha mãe chamava-se Marília, mas casara grávida de meu irmão enquanto vovó fingia que achava tudo normal e sorria um esboço forçado, era o que se via claramente nas fotografias. Há quarenta anos, quando meu irmão nasceu, não era ainda tão normal e a festa não foi num jardim como vovó dissera que seria. Tão lindo e romântico quanto o dela. A filha merecia a mesma deslumbrante felicidade, mas nem tudo que se sonha se torna realidade, muitos sonhos são divagações da alma que a carne não consegue realizar. Muitos sonhos, são deliciosas visões cor-de-rosa que se guarda junto com pétalas secas dentro de diários que não se lerá mais.
Era um belo sonho e eu... Achei que também poderia sonhá-lo.
Mais alguns meses e vovó não se reconhecia mais em seu velho e desgastado corpo, se reconhecia no meu, ainda no auge de meus 30 anos. Trinta anos... Tinham me dito e eu não acreditar, são os melhores anos da mulher, sempre achei que a fresca vida dos vinte fosse o melhor tempo, mas havia em mim uma riqueza e ao mesmo tempo um fogo, que nascera na fronteira dos trinta, não posso negar.
Vovó me tratava como se eu fosse ela e ela, ela não existia mais. Para agradá-la, enfeitar seu tempo do adeus, comecei a usar chapéus. Aos poucos, com certo medo, timidamente, mas também aos poucos fui me vendo especial de chapéu e passaram a fazer parte de mim.
Enterramos vovó Nívea de chapéu vermelho, o seu preferido, eu encontrara um muito parecido e fiz questão de usá-lo neste dia: uma homenagem, uma consideração amorosa. Ao sair do cemitério que me roubara vovó havia um homem parado na calçada e me olhou com os mais penetrantes olhos que eu já vira. Parecia me esperar, me conhecer. Não era bonito, tinha nariz grande, aqueles olhos, uma boca larga com caninos pontudos que apareceram quando sorriu para mim. Usava cabelo mais comprido do que o normal, parecia esconder as orelhas, mas nas mãos e logo depois na cabeça, tinha um lindo e sedutor chapéu de caça.


Vana Comissoli

terça-feira, 17 de julho de 2012

A queda (Fernando Bastos)

Chegaram ao Pronto Socorro antes da aurora. Ela, de camisola branca de algodão, com manchas roxas nos braços e coxas, e fortes dores nas costelas. Ele a esperou no pátio, fumando nervosamente alguns cigarros. Ela explicou ao médico de plantão que caíra no banheiro. Praguejou contra a labirintite.


Voltaram para casa e fizeram amor. Com cautela, por causa dos ferimentos.


No meio da semana, lá estava ela, na recepção do hospital. Dessa vez, um galo na cabeça. Na queda, batera no vaso sanitário. O noivo, lá fora, aguardava a amada, devorando um cigarro atrás do outro.


No mês seguinte, foram mais quatro idas ao hospital. Hematomas na bacia, pulso fora do lugar, seios doloridos, um olho roxo, resultado da batida contra o box do banheiro. O remédio contra labirintite parecia não resolver o problema da tontura. As últimas gotas de paciência do noivo precipitavam como coquetel molotov sobre a equipe de enfermagem. Foi preciso chamar um segurança para conter a fera. Responsabilizava o médico e dizia que procuraria outro hospital. Queria a saúde da amada de volta.


À noite, fizeram amor como se tivessem se conhecido há meia hora. Juras de amor eterno a fez se sentir a mais desejada das mulheres. No domingo foram à missa, caminharam no parque, lançaram migalhas de pão a um bando de pombos na pracinha. Ao observarem as crianças nos balanços e no escorregador, sonharam com um filho, que teria o nome do pai, e a beleza da mãe. Ela não precisaria mais trabalhar fora, pois ele não achava decoroso para uma mulher passar a madrugada atrás de um balcão. Ela sorriu, maneou a cabeça e disse que gostava daquele trabalho.


No fim do dia a ambulância chegou. Outra queda. Mas dessa vez não resistiu. Dos olhos da mãe, lágrimas rolavam com gosto de ausência. A enfermeira lamentou que os remédios para a labirintite não a ajudaram, e ficou sem chão ao saber pela mãe da jovem, que ela nunca sofrera de tal doença.