segunda-feira, 25 de abril de 2011

Dicionário (Marcio Ochner)

Polarização invertebrada,
ponto nuclear,
expansão gráfica,
elementos ultravocabulares.

embrulho sintático,
de função demolitiva.

decapitação maciça,
peça de pressão erudita,
mecanismo expansivo...
Aliteração.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Caminhar I (Tiago Nascimento)

O homem caminha.
Não tem certeza de onde vai, nem de onde veio, nem mesmo de porque caminha.
Apenas caminha.
Um pé, depois o outro, mais uma vez o um, outra vez o outro.
Andar.
Existe sentido na vida? Ele não sabe, nem se preocupa. Só caminha.
Da casa para o trabalho, do trabalho para o barzinho, do barzinho pra outro lugar, de outro lugar a outro e assim todos os dias, todas as semanas, os meses, os anos, os séculos. Até milênios talvez…
O homem caminha desde que seu mais antigo ancestral desceu das árvores.
Aos domingos pra igreja, as terças pra feira, aos sábados pra casa da sogra, nas férias pra praia, nas quartas pro estádio, e uma vez ou outra ao médico.
E no fim, na última caminhada, caminha-se deitado. Acompanhado. Outros homens ao seu lado. Caixão de mogno encerado. São sete palmos descampados. Et omnis motus finem

caminhar

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Palavras únicas: Dissabores (Marcelo Lamas)

Há palavras na língua portuguesa que são mágicas e sem tradução digna da sua magnitude, o substantivo no plural "dissabores" é um deles. Outro dia, um amigo sexagenário me disse: "Tome cuidado para não causar dissabores aos outros". Eu já conhecia o verbete, mas nunca tinha analisado a sua profundidade. Neste cotidiano em que tentamos acelerar a rotação do planeta, vivemos jogando palavras pra fora, sem medir seu impacto.
O mesmo amigo de cabelo branco, me advertiu com um provérbio antigo: "Há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida".
Sempre gostei da síntese. Se ao invés de usarmos pensamentos completos junto ao nick do msn, colocássemos uma única palavra, não seríamos mais autênticos?


A propósito:
Dissabor: 1 Desgosto, desprazer. 2 Acontecimento incômodo ou desagradável. 3 Contratempo. 4 Mágoa.

Marcelo Lamas escreve artigos e crônicas para jornais, revistas, blogs e livros há 16 anos. É engenheiro e professor universitário. marcelolamas@globo.com

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Por que está tão triste? Vilson Rafael Riegel

...mas agora já está tarde

- lamenta um sonho desperto -

Cometemos o mesmo pecado

recebemos a mesma punição

auto-destruindo

incompletando

um abraço sem abraço

Descalço em um campo minado

canto desafinado,

lamento,

desabafo...

Mergulhado em um raso lago

tarde, muito tarde

retine o alarme falso.

 

Autor: Vilson Rafael Riegel

 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Emoções Baratas (Sônia Pillon)

Era madrugada de sábado. O beco escuro à beira do cais trazia sons abafados, gemidos, risos e gargalhadas. O bar tipo "pé-sujo", no final da rua, era mal-iluminado, tinha o chão de cimento rachado e esburacado em muitos pontos. Encardido e mal-cheiroso, como de resto todo o ambiente, era tomado pela fumaça de cigarro. Chegava a arder nos olhos. Por trás do balcão, o dono sorria satisfeito, enquanto servia a terceira dose de pinga para um corpulento estivador, que parecia conhecer de longa data.

O boteco estava com quase todas as mesas lotadas, de homens que buscavam na bebida e na boemia a solução para a própria solidão. Em meio às mesas, circulava com ares maliciosos por entre os clientes, Claudete. Com cerca de 35 anos, tem estatura mediana, ancas largas, seios fartos e uma cabeleira negra revolta. Sentada no colo de seu cliente preferido, um marinheiro baixo e gordo que corria uma das mãos pelo meio de suas coxas, enquanto a outra mão percorria os seios, Claudete jogava sensualmente a cabeça para trás, numa sonora gargalhada.

Decidida, ela puxa o marinheiro pela mão e o leva até o infecto quarto dos fundos. Sem querer esperar mais, o homem a empurra contra a parede e começa a arrancar o vestido vermelho de Claudete, enquanto crava os dentes no seu pescoço. Soltando um gemido, ela esquece a vida miserável
naquele pulgueiro imundo. Amanhã ela terá de rodar a bolsinha de novo, pelas ruelas que circundam o porto. Mas agora, "a noite é uma criança", pensa ela, enquanto um arrepio de prazer percorre seu corpo.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O Ser e o Viver (Tiago Nascimento)

Viver é isso

Partir e chegar

Encontrar e deixar

Sentir saudade, fome, medo e frio

 

Viver é pensar

Desenhar um futuro

Planejar

Construir castelos na areia do mar

 

Viver é preciso

Sentir pena também

E amar, e sorrir, e ficar

Ser o que faz alguém sonhar

Ser o que faz alguém deixar de chorar

Ser.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

REVOLVIDA (Fred Paiva)

 
Por que
você bate no portão
sem camisa - sem noção -
com pretextos de ver a menina?

Atrapalha minha cerveja
meu domingo calmo,
de família,
pra te fazer sala.

Fico preocupada.

Você pra lá e pra cá com a criança,
falando merda,
na loucura que te fez vir aqui
de bicicleta...

Se toca.
Vaza.
Se boicota.
Me esquece.
Desfalece.
E me deixa.

Foi difícil
mas te esqueci,
você esteve aqui no meu peito
apunhalado por muitos meses
mais de ano
me danando
e enchendo a vida de vazios,
lacunas, lapsos de memória
tijolos assentados de ressentimento.

Sei que não é culpa sua,
não somente sua.
Me levei,
me deixei levar.
Foda-se,
você passou e eu fiquei
retornei à tona.

Ainda levo umas pauladas
às vezes,
mas já não é por ti,
é pelo resto de lama que me deixei afundar.

Vai melhorar,
vou passar.
E você não nunca vai mais fazer falta por aqui.
Então vai.

E para de me perturbar.



Fred Paiva