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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A cerimônia do chá (Sônia Pillon)


A sala estava impecavelmente limpa e arrumada. Quatro horas de preparação até a chegada daquele momento. O tatame estava precisamente no meio do recinto. Um quadro com ideogramas japoneses e um vaso de ikebana, com flores, folhas, galhos, frutos e plantas secas adornavam o lugar e transmitiam uma sensação maravilhosa de bem-estar.


Tudo lá foi arranjado, meticulosamente, para conduzir à harmonia, respeito, pureza e tranquilidade. Lá fora, o sol começava a se despedir com o cair da tarde, mas seus raios ainda atravessavam timidamente as persianas de madeira. Emanavam calor na medida certa.


Eis que chega a tão aguardada cerimônia do chá. O convidado entra no recinto, não sem antes tirar os sapatos, para depois se ajoelhar no tatame, com uma reverência de cabeça. Ele está nervoso, suas mãos tremem. Do outro lado, à sua frente, a anfitriã repete seu gesto e o ritual começa quando ela serve um doce num guardanapo ao convidado, que sorve cada pedaço, sem pressa. Por um longo momento, seus olhares se encontram. Depois, os dois baixam os olhos.


Ela então pega um lenço e cuidadosamente começa a purificar os potes onde serão servidos o chá. Primeiro, pega a concha de madeira para em seguida pegar a água aquecida e colocar nos potes. Depois abre o recipiente com o chá em pó e o mistura nos potes, em movimentos circulares.


Só então ela entrega o pote ao homem à sua frente, e suas mãos se tocam. Ele gira o pote e fica admirando a pintura a mão da delicada porcelana. Depois ela repete o ritual e finalmente ambos começam a beber o chá, vagarosamente, como se quisessem esticar aquele breve momento. A tradição milenar do chá os mantém unidos em corpo e alma.


Agora seus olhos se fitam profundamente, enquanto lágrimas involuntárias começam a escorrer de seus rostos. Ambos sabiam que aquele momento iria acontecer. A despedida era inevitável, mas como evitar o turbilhão de emoções desse momento? Como esquecer a beleza e a intensidade do que viveram?


O ritual do chá chega ao fim. Está na hora do convidado partir. Num impulso, a anfitriã pega seu pote, toma um gole e imediatamente oferece outro gole ao convidado, que retribui o gesto, quebrando as regras daquela tradição milenar.


Agora os dois unem suas mãos em sinal de prece, na altura do coração, e inclinam suas cabeças um para o outro, num gesto de reverência e agradecimento mútuo.


Com dificuldade e ainda com lágrimas nos olhos, o convidado se levanta e se dirige para a porta andando para trás, sem voltar as costas para a anfitriã.


- Nunca vou esquecer o que vivemos aqui, por mais que passem os anos!, diz o convidado, com a voz embargada.


- Eu também nunca vou esquecer!, responde a mulher, emocionada, enquanto ele alcança a porta e se dirige resolutamente para a estrada.


Naquele dia, durante muitas horas, ela ainda permaneceu ali, ajoelhada sob o tatame, relembrando aqueles felizes e fugazes dias que antecederam a partida do samurai.


Sônia Pillon
soniapillon@gmail.com
soniapillon@hotmail.com
http://blogpillon.webng.com

segunda-feira, 4 de abril de 2011

REVOLVIDA (Fred Paiva)

 
Por que
você bate no portão
sem camisa - sem noção -
com pretextos de ver a menina?

Atrapalha minha cerveja
meu domingo calmo,
de família,
pra te fazer sala.

Fico preocupada.

Você pra lá e pra cá com a criança,
falando merda,
na loucura que te fez vir aqui
de bicicleta...

Se toca.
Vaza.
Se boicota.
Me esquece.
Desfalece.
E me deixa.

Foi difícil
mas te esqueci,
você esteve aqui no meu peito
apunhalado por muitos meses
mais de ano
me danando
e enchendo a vida de vazios,
lacunas, lapsos de memória
tijolos assentados de ressentimento.

Sei que não é culpa sua,
não somente sua.
Me levei,
me deixei levar.
Foda-se,
você passou e eu fiquei
retornei à tona.

Ainda levo umas pauladas
às vezes,
mas já não é por ti,
é pelo resto de lama que me deixei afundar.

Vai melhorar,
vou passar.
E você não nunca vai mais fazer falta por aqui.
Então vai.

E para de me perturbar.



Fred Paiva

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Bilhete-Soneto (Tiago Nascimento)

Ninguém pediu que ela fosse embora
Mas na gaveta as contas se acumulavam
E não podia pedir um aumento de novo
Por que quem sempre paga o pato é o povo?

Ela sonhava vencer no jovem planeta
Fazia amor, sexo, oral, anal e punheta.
Não achou alegria nem em drinques de plutônio
Mas nisso creu com todos os seus neurônios

Depois, uns dizem que ela partiu pra lua
(talvez a bordo da espaçonave trinta)
Contudo ninguém sabe dizer ao certo ainda


E aqui no solo do pequeno planeta azulado
Deixou o quarto com cheiro de mofo e tinta
E na cômoda este bilhete-soneto que ora finda


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Tiago Nascimento