sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Dona Esperança (Sônia Pillon)

Sônia Pillon


 

Sentada no piso frio da calçada de uma das principais ruas da capital, dona Esperança podia ver todos que passavam na altura da cintura. Desde os mais apressados, a caminho do trabalho ou de casa, carregando os filhos ou sacolas pela mão, até os que passavam sem a mínima pressa, arrastando os pés. Os cabelos semi-grisalhos, as rugas profundas, a obesidade e a aparência geral de desleixo não são um mero artifício para pedir esmolas. Ela realmente está ali para mostrar seus pés disformes, cheios de feridas, que de tão grandes chocam os passantes mais sensíveis.

Ao mesmo tempo que causa olhares de repulsa em alguns, ou de indiferença, em outros, é com a piedade dos passantes que ela conta para sobreviver. Para ela, que se apega àquela vida miserável com unhas e dentes, sem ao menos entender a razão, algumas poucas moedas podiam significar um café com leite, acompanhado de um sanduíche, nos dias de maior sorte, ou mesmo um pão com manteiga para aplacar a fome. Uma fome que atravessava suas entranhas e chegava até a alma. Fome de vida, de alegria, de um prazer que há muito deixou de ter!...

E pensar que já foi uma mulher bela, disputadíssima pelos ricos clientes do bordel, há décadas atrás. Chegou a ser leiloada numa grande festa privè, promovida por um manda-chuva político. Naquela época, não faltavam jóias e dinheiro, e até ganhou uma casa bem confortável, de um figurão que tinha caído de amores por ela. E chegou também a ser pedida em casamento por um farmacêutico cinquentão. Tímido, viúvo e apaixonadíssimo, ele queria fazer dela sua esposa.

- Esperança, você é a esperança da minha vida! Case comigo e seja a mãe dos meus filhos!

Mas ela ria, ria... Imagina se ela, no auge dos seus 20 anos, iria se enfiar atrás de um balcão de farmácia, quando tinha o mundo a seus pés?!... Que simplório!, pensava.

Mas o tempo foi passando, e as noitadas, as bebedeiras e as sucessivas doenças venéreas começaram a deixar suas marcas naquele corpo, até então perfeito. Aos poucos, foi perdendo tudo o que tinha, inclusive aqueles que considerava amigos. Todos fugiram como ratos num naufrágio!...

Mas foi o crack que a levou definitivamente para o fundo do poço. Já nessa época, suas pernas e pés ficaram irremediavelmente deformados, e passou a mendigar pelas ruas da capital. Dormia numa casa abandonada, com outros excluídos como ela. À noite geralmente chorava, e pensava que podia ter dado outro rumo à sua vida, não fosse a vaidade e a ambição. Tinha 40 anos, mas aparentava mais de 60...

Mas num desses dias em que ela estava em frente a uma galeria comercial, com frio e fome, e com a caixa de papelão à espera de uns parcos reais para seguir vivendo, eis que surge um homem bem vestido, calvo, que a olha no fundo dos olhos.

- Esperança! É Você mesma?!...

Nesse momento, Esperança devolve o olhar e reconhece o farmacêutico José, profundamente envergonhada.

- O senhor está enganado! O meu nome é Maria... Maria da Conceição...

- Não, não, eu jamais esqueceria esses olhos, Esperança!... Meu Deus! Venha comigo, você está precisando cuidar dessas feridas! Eu vou te levar até a minha farmácia...

Os olhos de Esperança se encheram de lágrimas, que ela não conseguiu conter. Bastante constrangida, ela aceitou ser conduzida pelo farmacêutico. Ele morava num bairro distante dali, no piso superior da farmácia. José a fez tomar banho e vestir roupas dele, que curiosamente serviram bem. Ele tinha engordado também, nos últimos anos...

Enquanto ele servia uma refeição à Esperança, que não queria acreditar no que estava acontecendo, ela foi contando sobre os excessos, as drogas... Ele ouvia tudo atentamente, comovido. No dia seguinte, ele saiu para comprar roupas novas para Esperança, bem coloridas, como ela gostava.

E nos dias que se passaram, José cumpriu o que prometeu. Os dois sabiam que ela não tinha muito tempo de vida, pois estava bastante fragilizada, mas preferiram não tocar no assunto.

Uma noite, quando Esperança ardia em febre, e José estava sentado ao pé da cama, como sempre, finalmente Esperança falou.

- Nunca pensei que existissem pessoas como você nesse mundo, José! Depois de eu ter rejeitado você, poderia ter se sentido vingado, como tantos outros...

- Não, Esperança! Você foi como um cometa, que apareceu num momento muito especial da minha vida, e fico feliz em poder estar aqui, agora, com você...

José pega as mãos de Esperança, que as aperta fortemente.

- Muito obrigada por tudo, José!... Eu nunca te disse, mas sempre me lembrei de você com saudades... Você foi o único que me tratou como gente... Se eu pudesse voltar no tempo...

Mas subitamente ela parou de falar. E o farmacêutico José, que sempre foi tão solitário, chorou por muitos minutos ao seu lado... Tinha reencontrado o seu amor e perdido de novo...




Escrito em 8 de dezembro de 2010.

Sônia Pillon é jornalista e escritora. Natural de Porto Alegre, está radicada há 14 anos em Jaraguá do Sul.

domingo, 21 de novembro de 2010

O órfão e o almoço de Natal (Sônia Pillon)

A vidraça quebrada da janela do orfanato mal conseguia conter a água da chuva que invadia o alojamento dos meninos. Os pingos se confundiam com as lágrimas de Ângelo. O mundo lá fora causava uma inquietação indefinível para ele, misto de esperança e medo. Ângelo sempre ficava imaginando como seria ter o carinho de uma mãe e um pai, longe da rispidez dos monitores, que mais pareciam generais comandando suas tropas.


Lembra também do pavor que desde os quatro anos o acompanha, toda vez que atravessa os corredores escuros do orfanato, ou quando está dormindo no beliche.


Já haviam se passado seis anos, mas parece que foi ontem que viu seu amigo José ser atacado por um monitor no meio da noite. Não consegue esquecer a visão terrível do amigo, que gemia baixinho e se debatia inutilmente enquanto era violentado, enquanto imperava o mais completo silêncio no alojamento.


Desconfia que todos fingiam nada ver, seja por covardia, indiferença, medo, ou por uma espécie de consolo cruel, por já terem passado pela mesma situação. Também não tira da cabeça a cena do pequeno José que continuou a chorar baixinho, de dor e humilhação, enquanto o encardido lençol se tingia de sangue e ele desmaiava em seguida.


Pouco depois o alerta foi dado. José foi levado às pressas para a enfermaria, e nunca mais foi visto. Nem o monitor. Disseram que seu amigo foi para um hospital porque estava doente, com hemorróidas, e que depois foi transferido para outro orfanato. Todos foram proibidos de falar sobre o assunto, e o caso foi abafado.  - Onde ele está agora?, se perguntava.


Ângelo continua olhando para fora das grades do orfanato. É madrugada e está com sono, mas sabe que não conseguirá mais dormir. Todas as noites tem o mesmo pesadelo, em que vê o cruel monitor chegando de mansinho para perto de sua cama. Nessas horas, acorda sobressaltado, suando muito, e fica olhando a rua lá fora, rezando para a maioridade chegar logo, para começar uma vida nova, ou até antes, se for adotado por alguma família.


Ângelo fica se imaginando, andando livre por aquela rua, trabalhando como cheff de cozinha, em um restaurante ou grande hotel, seu grande sonho. Aliás, estar na cozinha é o que mais gosta de fazer. Gosta de ver o corre-corre das cozinheiras, cortando legumes, verduras, temperando e cozinhando a comida que será servida no refeitório.


Os aromas dos temperos e do cozimento fazia sua imaginação voar para fora dos portões daquele cinzento orfanato. Era como se o cheiro dos alimentos, levado pelo ar, levasse também seu espírito, voando livre e cheio de esperanças.


Nunca apreciou estudar, mas quando a nutricionista Alva disse a ele que se estudasse, o ajudaria a se tornar um grande mestre-cuca, viu nessa oportunidade a única saída para fugir da marginalidade, ou da pobreza.


- Um dia eu vou voltar aqui como um cheff , e vou distribuir comida boa, “papa fina”, para esses órfãos todos!


Dez anos se passaram desde aquela noite chuvosa. Alva cumpriu a sua promessa de ajudar Ângelo, que ao sair do orfanato foi indicado para trabalhar num restaurante, inicialmente como auxiliar, e depois como cozinheiro e chefe. Trabalhava de dia e era aluno bolsista de gastronomia à noite. Se tornou um cheff respeitado, apesar de ainda muito jovem.


- Finalmente chegou a hora!...


Nesse momento, Ângelo olha atentamente para o refeitório recém-reformado, para as toalhas impecavelmente brancas, para os sorrisos e os olhos das crianças, que brilham de alegria enquanto saboreiam os pratos preparados por ele.


- Senhor Ângelo, as crianças querem agradecer o almoço e os presentes de Natal cantando uma música de Natal, diz a diretora do orfanato.


Lágrimas incontidas escorrem pelo rosto do jovem cheff , que falou com voz embargada.


- Vocês não precisam me agradecer, gente! Eu já fui como vocês, e prometi a mim mesmo que um dia voltaria aqui... Acreditem em vocês mesmos, estudem, escolham uma profissão que gostem, e nunca desistam de seus sonhos!... Ano que vem eu volto aqui!...


O almoço terminou. Os presentes foram abertos com euforia pelos órfãos, que cantaram hinos natalinos em agradecimento àquele homem tão bom, que para surpresa deles também já fora um interno do orfanato... Chegou a hora das despedidas, dos abraços, e de ver olhares de esperança naqueles meninos e meninas.


- Hoje exorcizei os meus fantasmas!, disse baixinho para si mesmo, enquanto lançava um último olhar para aquele prédio cinzento, que naquele momento deixou de ser assustador para ele, definitivamente.


Sônia Pillon é jornalista e escritora em Jaraguá do Sul, Santa Catarina.

sábado, 20 de novembro de 2010

O que estamos?! (Adriana Niétzkar)

Quarta
Quinta
Sexta
Em e sem feiras
Cem feiras
Sem fim?!
História
Em plurais
Que foram
Que serão
Singular
que está sendo
fagulha
faísca
fogo
incêndio
em histórias
(estórias ?!)
com
sem
cem
feiras
quarta...
sexta...
singular pluralizado
plural em singularidade
por conta
do sinônimo-coração
da palavra
história

INTROSPECTSOUND (Tiago Nascimento)

 

Um velho relógio batendo as horas

E um menino pensando: nossa senhora!

Há um menino que pensa, isso é admirável.

Assim como o peixe no aquário.

Parafuso, parafuso quão diferente és,

Das minhas veias e do sangue que o vampiro quer.




O velho relógio e o aquário vazio

São exemplos simples da complexidade que existiu

Nos homens, nos caras como você e eu,

Mas que foram embora em cada momento que se viveu

Havia um peixe no aquário agora está na geladeira

E o relógio dentro do armário e o vampiro nas minhas veias.

 

Tiago Nascimento                        jesuscristohumano@gmail.com

sábado, 13 de novembro de 2010

pede licença o poema (Ítalo Puccini)

naquele momento em que

o lápis e o papel se encontram

em outro espaço-tempo.

 

como fazer, então?

como fazê-lo?,

o poema?

 

porque de repente,

sem adeus dizer,

o poema segue seu ritmo

 

e não mais possível se torna

acompanhá-lo.

 

porque o que caracteriza

o poema

é a brevidade;

 

nasce para ser fugaz.

 

ítalo puccini

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Panorama Literário

Começa nessa sexta um grande evento que deve movimentar o cenário literário da nossa cidade. É o Panorama Jaraguá: Literatura.


Alguns dos nossos cooperados estarão lá:


Adriana Niétzkar; Cristina Pretti; Sonia Pillon & Tiago Carpes do Nascimento.

E quem sabe dali podem surgir novos colaboradores!


Aguardamos.


 

[caption id="attachment_149" align="aligncenter" width="140" caption="Clique para visualizar em tamanho grande"][/caption]

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sobre Escrever (Marcelo Lamas)

“Estava apenas no exercício de meu ofício, que é duro e sério – de dizer, redizer, desdizer, contradizer o que seja, sempre bem e da melhor maneira; mas é também ofício divertido – de fazer de conta, imaginar, admitir que tudo é verdade e que não se está mentindo nem inventando; e que é, enfim, um ofício mágico – de recriar o mundo, ordenar e desordenar vidas, interferir na realidade e irrealidade”.

Trecho da entrevista do escritor Sr. Aldyr Garcia Schlee, autor de Linha Divisória, Contos de Futebol, Os Limites do Impossível – Contos Gardelianos e Don Frutos. O autor concorre ao Prêmio Fato Literário 2010 – Personalidade, na Feira do Livro de Porto Alegre.

Abraço do Marcelo Lamas.