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sexta-feira, 15 de março de 2013

A Casa dos Sonhos (Sônia Pillon)

Se há algo em que todos concordam, é que as aspirações de vida variam de uma pessoa para outra. Consequentemente, a Casa dos Sonhos de cada um, também... Há os que se deslumbrem com mansões de bilionários, com os castelos e palácios espalhados pelo globo, onde não faltam conforto, luxo e ostentação. Dessas moradas, que são amplamente mostradas em revistas sobre a realeza, jet set e high society pelo mundo afora, com rostos sorridentes, estirados languidamente em um sofá macio, ou em uma cadeira reclinável, à beira da piscina... 
Cercados de privilégios que muitos adorariam usufruir, essas criaturas que já nasceram em berço de ouro, ou “enricaram”, pelos mais diversos caminhos, sem dúvida são invejadas por muita gente! Aparentemente, vivem felizes onde moram e nada lhes falta... Vidas de contos de fadas, bem ao estilo “Disney Movies”, aqueles filmes açucarados onde o “mocinho” e a “mocinha” são integralmente bons, enquanto o “vilão” é um desalmado, o mal em pessoa...
Mas nem todos têm a mesma ótica quando o assunto é a morada ideal... Têm aqueles que buscam no conforto e no isolamento a sua paz, a sua satisfação interior. Um sítio distante, onde não faltam árvores, ar puro, animais, uma boa plantação, a fartura de um pomar à disposição e, para completar, uma vista digna de um pintor impressionista... Ou uma casa à beira-mar, com a possibilidade de se banhar e tomar sol todos os dias (sempre que o bom tempo permitir, é claro!), comprar frutos do mar direto dos pescadores e ter a possibilidade de participar de luaus e passeios revigorantes na beira da praia...
A Casa dos Sonhos também pode ser um trailer, uma barraca bem equipada, para os mochileiros e aventureiros de plantão... Ou ainda um barco para conhecer mares nunca antes navegados, inspirados na audácia da Família Schürmann., com seus 20 anos de aventuras pelos domínios de Netuno... Para eles, o segredo de uma vida feliz é poder sonhar, para transformar esses sonhos em realidade.
Para cada cabeça, uma sentença. Para cada um, uma opção de vida... Isso para os que lutam pelo que querem, que fique bem claro! Porque há os que abrem mão de seus anseios pensando na “estabilidade”, apesar de vivermos no mais instável dos mundos...
Não importa se a Casa dos Sonhos é um lindo palácio, ou uma modesta construção de madeira... O que importa é que dentro dessa edificação habitem as pessoas que queremos ter ao nosso lado... “...Na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê”, como diria Tim Maia... Só assim, é possível se munir de força suficiente para matar um leão por dia e, ainda assim, se sentir gratificado e, até, feliz...


Sônia Pillon

domingo, 15 de julho de 2012

O livro mágico (Sônia Pillon)

Angelina abriu os olhos e se virou em direção à vidraça do quarto, iluminado pela lua cheia. As cortinas com babados balançavam com a brisa da noite, e a menina sentiu uma vontade irresistível de pular a janela e ir para o jardim. Olhou para as bonecas de pano enfileiradas na estante:
- Vocês não podem sair daí, mas eu posso!


Ela queria ouvir de perto o coaxar dos sapos, o som dos grilos... Ver os vaga-lumes e sentir o aroma das flores. Olhou para o relógio de cabeceira. Passava da meia-noite e o silêncio reinava na casa.


Ela se levantou decididamente, calçou os tênis, abriu a janela e pulou. Caiu sentada na grama úmida, molhou um pouco o pijama cor-de-rosa, mas não se machucou. Ficou rindo por dentro. Se sentia vivendo uma das aventuras da Narizinho, do Sítio do Picapau Amarelo...


Toby, o cachorro da vizinha, começou a latir logo que ouviu o ruído da queda da menina, mas parou, quando a reconheceu. Ao longe, pássaros cantavam, enquanto Lola, a gata de estimação, miava no telhado. No céu, estrelas cintilavam.O coração de Angelina parecia que ia saltar pela boca e os sentidos estavam cada vez mais aguçados.


Foi quando ela avistou um grande livro com capa dourada na escada da varanda. Curiosa, se aproximou e o abriu. Feixes de luzes coloridas saltaram em todas as direções e um grande portal de abriu. Corajosamente, ela atravessou o portal.


Fadas, duendes, faunos, centauros e ninfas pulavam e dançavam alegremente na mata iluminada pelo luar. Um sátiro tocava a Flauta de Pan, atraindo mais e mais dríades em suas vestes esvoaçantes. Ao verem a fascinada Angelina, a convidaram para fazer parte da festa, e ela passou a dançar também.


O Chapeleito Louco, Alice, Branca de Neve e os Sete Anões apareceram em seguida. Zangado preferiu ficar parado, com os braços cruzados e ar de reprovação, como sempre... Cinderela chegou com as fadas madrinhas. Mogli, o Menino Lobo, Aladim e sua Lâmpada Maravilhosa e Saci Pererê, com seu cachimbo, chegaram lado a lado. Mais e mais personagens da literatura universal se integraram àquela festa bizarra! Encantada, Angelina esfregava os olhos, sem acreditar no que via...
- Angelina! Angelina! Vamos, filha, acordaaa!
- Ai, mãe! Só podia ser sonho, mesmo! Era bom demais para ser verdade...


* Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre e radicada em Jaraguá do Sul desde 1996.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Sonho (Marcio Erino Ochner)

No descansar da noite,
Pensamento que me vigora a cabeça,
Tentativas ao acordar, sem sucesso...

Com olhar fixado à escuridão do campo de visão...
Foco na conjuntura superior,
Me levo a ao fruto da demência.

No estremo do corpo...
Dentro da alma,

Nela, uma força que me atingi, e me revigora...
Traz consigo um sabor iluminado.

domingo, 21 de novembro de 2010

O órfão e o almoço de Natal (Sônia Pillon)

A vidraça quebrada da janela do orfanato mal conseguia conter a água da chuva que invadia o alojamento dos meninos. Os pingos se confundiam com as lágrimas de Ângelo. O mundo lá fora causava uma inquietação indefinível para ele, misto de esperança e medo. Ângelo sempre ficava imaginando como seria ter o carinho de uma mãe e um pai, longe da rispidez dos monitores, que mais pareciam generais comandando suas tropas.


Lembra também do pavor que desde os quatro anos o acompanha, toda vez que atravessa os corredores escuros do orfanato, ou quando está dormindo no beliche.


Já haviam se passado seis anos, mas parece que foi ontem que viu seu amigo José ser atacado por um monitor no meio da noite. Não consegue esquecer a visão terrível do amigo, que gemia baixinho e se debatia inutilmente enquanto era violentado, enquanto imperava o mais completo silêncio no alojamento.


Desconfia que todos fingiam nada ver, seja por covardia, indiferença, medo, ou por uma espécie de consolo cruel, por já terem passado pela mesma situação. Também não tira da cabeça a cena do pequeno José que continuou a chorar baixinho, de dor e humilhação, enquanto o encardido lençol se tingia de sangue e ele desmaiava em seguida.


Pouco depois o alerta foi dado. José foi levado às pressas para a enfermaria, e nunca mais foi visto. Nem o monitor. Disseram que seu amigo foi para um hospital porque estava doente, com hemorróidas, e que depois foi transferido para outro orfanato. Todos foram proibidos de falar sobre o assunto, e o caso foi abafado.  - Onde ele está agora?, se perguntava.


Ângelo continua olhando para fora das grades do orfanato. É madrugada e está com sono, mas sabe que não conseguirá mais dormir. Todas as noites tem o mesmo pesadelo, em que vê o cruel monitor chegando de mansinho para perto de sua cama. Nessas horas, acorda sobressaltado, suando muito, e fica olhando a rua lá fora, rezando para a maioridade chegar logo, para começar uma vida nova, ou até antes, se for adotado por alguma família.


Ângelo fica se imaginando, andando livre por aquela rua, trabalhando como cheff de cozinha, em um restaurante ou grande hotel, seu grande sonho. Aliás, estar na cozinha é o que mais gosta de fazer. Gosta de ver o corre-corre das cozinheiras, cortando legumes, verduras, temperando e cozinhando a comida que será servida no refeitório.


Os aromas dos temperos e do cozimento fazia sua imaginação voar para fora dos portões daquele cinzento orfanato. Era como se o cheiro dos alimentos, levado pelo ar, levasse também seu espírito, voando livre e cheio de esperanças.


Nunca apreciou estudar, mas quando a nutricionista Alva disse a ele que se estudasse, o ajudaria a se tornar um grande mestre-cuca, viu nessa oportunidade a única saída para fugir da marginalidade, ou da pobreza.


- Um dia eu vou voltar aqui como um cheff , e vou distribuir comida boa, “papa fina”, para esses órfãos todos!


Dez anos se passaram desde aquela noite chuvosa. Alva cumpriu a sua promessa de ajudar Ângelo, que ao sair do orfanato foi indicado para trabalhar num restaurante, inicialmente como auxiliar, e depois como cozinheiro e chefe. Trabalhava de dia e era aluno bolsista de gastronomia à noite. Se tornou um cheff respeitado, apesar de ainda muito jovem.


- Finalmente chegou a hora!...


Nesse momento, Ângelo olha atentamente para o refeitório recém-reformado, para as toalhas impecavelmente brancas, para os sorrisos e os olhos das crianças, que brilham de alegria enquanto saboreiam os pratos preparados por ele.


- Senhor Ângelo, as crianças querem agradecer o almoço e os presentes de Natal cantando uma música de Natal, diz a diretora do orfanato.


Lágrimas incontidas escorrem pelo rosto do jovem cheff , que falou com voz embargada.


- Vocês não precisam me agradecer, gente! Eu já fui como vocês, e prometi a mim mesmo que um dia voltaria aqui... Acreditem em vocês mesmos, estudem, escolham uma profissão que gostem, e nunca desistam de seus sonhos!... Ano que vem eu volto aqui!...


O almoço terminou. Os presentes foram abertos com euforia pelos órfãos, que cantaram hinos natalinos em agradecimento àquele homem tão bom, que para surpresa deles também já fora um interno do orfanato... Chegou a hora das despedidas, dos abraços, e de ver olhares de esperança naqueles meninos e meninas.


- Hoje exorcizei os meus fantasmas!, disse baixinho para si mesmo, enquanto lançava um último olhar para aquele prédio cinzento, que naquele momento deixou de ser assustador para ele, definitivamente.


Sônia Pillon é jornalista e escritora em Jaraguá do Sul, Santa Catarina.