sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O dragão de cera (Sônia Pillon)

Mar revolto. Barcos multicoloridos que balançam com as ondas. 



Dragão de cera na areia mágica dos ancentrais. O frio e a chuva não atingem a quentura do meu coração.

Mar que traz, mar que leva... Mar que enleva...

Sopro de saudade carregado pelo vento. Pisadas na areia que a onda dilui. Momento mágico gravado na memória que transcende o tempo e o espaço. Agradecimento profundo da alma.


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Sou como a chuva que vem (Marcio Erino Ochner)

O vento sopra em direção

Ao intenso céu azul... escuro...

Distingue o verde das folhas balançantes,

Telhados sujos pelo barro leve,

Sobe num formato de cone,

Que segue notando outras folhas secas caídas ao chão,

Num giro... levanta voos extraordinários,

correm sem direção, lambendo o chão como vassoura...

limpa a sujeira do tempo,

pega carona num voo sem volta, e se vão...

Sabe-se lá pra onde, somente passam...

Seguem.

E o que resta, é sombra de um reflexo tardio,

De um sol que se foi...

embora outras vezes também...

Esconde-se ao longe da montanha minúscula.

Nuvens negras baixam com cara de trovão

Que brilham em gotas de água que cai, arrastando-se nas corredeiras,

Purificando a vida fétida.

De cursos passados, deixadas às moscas.

Chuva esta, que rasga o chão em sinuosas linhas, salpicam folhas,

Arrancam impurezas e levam ao respirar da natureza.

Como um sopro, mudam o ar rarefeito por um frio agitado,

De olhar aguçado, de alma perdida no gotejar chiante...

Chuva, que reviva cores, que lava pensamentos...

Mas que logo passa...

Nesta vida de terra idosa que, ainda suporta fenômenos,

de ordem determinada, mesmices...

Mudanças que aliviam, que revivem...

Afogando a poeira quente...

Refrescando ânimo, repetindo memórias...

de cheiro agradável.

Autor: Marcio Erino Ochner

sábado, 20 de agosto de 2011

O senhor Silva (Tiago Nascimento)

Céu azul. Nem parecia que um dilúvio havia despencado na noite anterior. O honorável senhor Silva saiu de casa com um guarda-chuva debaixo do braço “nunca se sabe”, dizia ele. Mas o dia estava lindo. Zero por cento de possibilidade de chuva.

Ainda em Ipanema o senhor Silva já despertava olhares curiosos. Divertidos e curiosos. Curiosos e sarcásticos. E quanto mais perto da orla chegava, mais freqüentes se tornavam os olhares. Um homenzinho estranho portando um imenso guarda-chuva. Imune aos olhares o senhor Silva continuava intrépido em sua matutina caminhada.

Mas ninguém aceita por muito tempo ser o ridículo. Por certo já arrependido de estar em semelhante situação, o senhor Silva começou a torcer os bigodes e a pensar num jeito de se livrar do incômodo artefato. Lixeiras enormes iam sendo deixadas pra trás, em qualquer uma delas seu guarda-chuva poderia descansarem paz. Maso senhor Silva era um homenzinho metódico. Não faria nada que o pudesse ainda mais ridicularizá-lo. O que pensariam os donos dos olhares divertidos ao vê-lo depositar o imenso e negro guarda-chuva no lixo? Não. Ele ia pensar em outra coisa.

Continuou a sua jornada. Já nem lembrava o que lhe havia tirado de casa, que destino teria ao pisar a rua. Apenas seguia a orla, ora devagar, ora apressado. Pensava em algo… Pensava em algo…

De súbito uma brusca guinada. Seus pés pisam a areia e o guarda-chuva negro voa de encontro ao mar. Ao primeiro que encontrou depois confidenciou “é uma mandinga que mãe-preta ensinou, talvez agora a tempestade não volte mais”.

Tiago Nascimento
Texto publicado em 29/04/2008 no extinto Globoonliners.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Águas Doces (Suzi Daiane)


Na época em que os rios eram límpidos e que passar a tarde pescando às margens dos pequenos córregos era a diversão de muitas famílias, os barcos eram feitos de papel e corriam desleixadamente pelas águas doces. Nesses barcos viviam piratas, que não desistiam mesmo diante das mais fortes tempestades, enfrentavam as correntezas até o secar da última gota de sangue em suas veias.


As tempestades sempre existiram, nunca se soube a origem verdadeira delas; se algum gigante as criara para reafirmar seu poder com os trovões, ou se o dono dos céus decidira as enviar para testar quão bravos os piratas poderiam ser. O certo é que os piratas em momento algum davam chance para a fraqueza ou medo, sabiam que suas vidas eram sustentadas por uma base frágil, como muitas vidas o são, e faziam por merecer os dias de liberdade com nuvens claras do céu.


Certa vez, quando atracavam nas águas quentes do rio, foram pegos de surpresa por entulhos, metais e pedaços de plásticos que sujavam as águas e carregavam os barcos para lugares perigosos. Muitos dos barcos foram arrastados para longe, os materiais presos a eles faziam com que afundassem depressa. A esperança parecia dissolver-se. A água veio a encher por completo diversos barcos, que afundaram, levando consigo fiéis piratas.


Restava somente um barco naquela tragédia, até que pedaços de alumínio cortaram sua parte inferior e a água fluíra por dentro do convés. Os piratas viam-se ameaçados. As águas entraram com pressa, trazendo um colorido desconhecido e um odor insuportável que os fazia desmaiar.


O capitão ainda dava ordens, parecia não perceber a gravidade, e só cessou os gritos quando finalmente o barco pareceu velejar de maneira amena. Os piratas abraçaram-se procurando estancar com o próprio corpo as entradas de água. Não houve o que se fizesse parar, o barco afundou logo após bater em uma enorme pedra escondida nas encostas.


Foram tempos difíceis aqueles, todos os barcos e sonhos foram destruídos, milhares de peixes foram encontrados sem vida na beira do rio e piratas desapareceram por todo o sempre.


Muitas famílias ficaram doentes, e, aos poucos, também se esvaíram das proximidades do rio, o líquido que vertia das nascentes se uniu às novas cores e, os poucos moradores que restaram, adaptaram-se à escassez da água límpida. Agora eram conhecedores do sabor de outro líquido, quase um óleo, que tinha qualquer outra aparência e consistência, mas que ainda era chamado de água.


Os piratas de água doce passaram a existir somente nas lembranças. Nas histórias contadas sobre eles, são sempre descritos com uma aparência estranha, muitos sem algumas partes do corpo. Talvez porque realmente as tenham perdido graças aos entulhos; talvez para que assim ninguém se esqueça da bravura de seus corações.




Suzi Daiane é atriz e professora.
Co-autora no livro “Preliminares” e autora do livro “Tonalidades”.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Na mochila (Marcelo Lamas)

Recém contratado para estágio, fui convidado por dois colegas de trabalho para uma pescaria.
Eu estava com a "síndrome do invisível", achava que ninguém me via trabalhando. Todo iniciante tem esse sentimento num novo emprego. Quando me chamaram, pensei: "Legal, os caras me convidaram"!
Na véspera, perguntei sobre o que levar para o passeio. Eu estava interessado – mesmo! – no cardápio, que era bem sugestivo.
Meu paladar rejeita quaisquer frutos do mar, inclusive camarão, o que surpreende muita gente.
Mas como eu não queria ser infiel à consideração do convite, não comentei nada. Arrumei a mochila e fui com os companheiros.
Eles sugeriram que eu tomasse um comprimido para evitar enjôo na navegação. Depois que ingeri, lembrei do alerta da minha mãe, que dizia para não aceitar nada de estranhos. Poderia ser algum entorpecente e eu mal conhecia os sujeitos direito.
O fato é que não senti nada no trajeto, até hoje não sei se foi a prevenção com o remédio ou firmeza do meu organismo.
Depois de meia hora de barco, chegamos ao lugar deserto. Eles levaram sal, grelha, carvão, espetos, cervejas e Coca-Cola.
Ah! Eu tive que ajudar a pagar o aluguel da embarcação, o que para um estagiário é um atentado financeiro, pois provoca greve de fome forçada no fim do mês.
Os parceiros eram bem profissionais, tinham roupa de neoprene, máscaras e equipamento sofisticado.
O dia foi passando e eles usando técnicas diferenciadas, as quais me explicavam detalhadamente. Acho que os peixes que circundavam a ilha conheciam os truques, pois já estávamos no final de tarde e nenhum aquático capturado.
Depois daquela pescaria, aqueles dois colegas de expediente viraram grandes amigos meus e também fiquei com fama de estrategista, pois ainda na ilha, a fome da dupla especializada e a minha acabou quando abri a mochila e tirei um cacho exagerado de bananas que eu tinha levado camufladamente enrolado numa toalha de banho, pois peixe eu não ia comer.
No final daquele mês, revezei jantares nas casas deles até receber meu auxílio sobrevivência, digo, salário de estagiário.
Ainda bem que em nenhuma noite teve pescado no cardápio.


Crônica publicada originalmente na Revista Banana D'Água – Edição 02



Marcelo Lamas
Engenheiro Eletricista, professor universitário, escreve artigos e crônicas para jornais, revistas, sites e livros há 13 anos.
marcelolamas@globo.com

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Deuses apaixonados (Fernando Bastos)

A atração dos deuses por mulheres mortais, geralmente comprometidas, muito jovens e virgens, faz parte da mitologia da maioria dos povos da Antiguidade.

Uma dessas divindades, cuja fama de galanteador se espalhou como areia no deserto é Zeus, o chefe do Olimpo.  Zeus dava trabalho à ciumenta Hera, que ficava horas acordada com um pau de macarrão na mão, esperando o maridão chegar das baladas. Certa vez, Zeus transformou-se num cisne e se uniu a Leda, mulher de Tíndaro. Em outra pulada de cerca, Zeus se disfarçou com feições do próprio marido de Alcmena, e, enquanto ele estava em campo de batalha, o deus adúltero divertia-se com a mulher do guerreiro. Conta-se que Anfitrião ficou lisonjeado por ter emprestado a esposa a um deus e nem se importava quando os amigos diziam: “Lá vai o corno!”. A partir dessa lenda, o termo anfitrião passou a significar “aquele que recebe em casa”.

Dionísio, amante de vinho e bacanais, ficou louco de amores por Ariadne, que também era comprometida. Marte se fantasiou de serpente e seduziu a virgem Reia Sílvia. A moça se encantou pela cobra, engravidou, e gerou os futuros fundadores de Roma: Rômulo e Remo. Na antiga Pérsia, Ahuramazda se apaixonou por uma donzela de alta linhagem, e a fecundou com um feixe de luz, recheado de espermatozoides.

A garota de quinze anos teve de explicar aos pais e vizinhança como engravidou sem ter conhecido homem, e sem ter feito inseminação artificial, já que no século sete a.C. ainda não conheciam a técnica. Contudo, como eram muito ingênuos, logo todos acreditariam na concepção milagrosa, algo não tão raro naqueles tempos. Hoje, podemos até achar graça, mas naquele período de obscurantismo, um deus se interessar por uma terráquea era a coisa mais natural do mundo.

Fernando Bastos, cartunista e escritor.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sobrevivente (Inacio Carreira)

Lembrava de nada. Um vazio na cabeça, parecendo desmiolado, mas era falta de memória mesmo. Mau contato nas sinapses. Zinabrou, diriam os antigos. Curto circuito. O clarão... O clarão! O clarão e um estrondo ensurdecedor toldaram-lhe os sentidos. Deve ter sido isto, então. Um lampejo de consciência, tirada não sabe de onde, fez com que refletisse. Onde estão todos? Onde estava com todos? Quem seriam esses todos?


A luz é difusa, confusa... Muitas sombras formam grandes áreas que não consegue vislumbrar. Não distingue quase nada. Nada, nada, nada... Como repete esta palavra. Como definir o nada, descrever o nada, pensar o tudo em presença do nada? Longe ou perto? Raso ou fundo? Suave ou agudo? Reto ou redondo? Firme ou movediço? Só dúvidas, dúvidas...


Louco não está ou, seguindo vaga e remotíssima lembrança, acharia tudo 10. Vinte. Mil.


Parece postado contra um encosto de pedras áspero, frio. Dor nas costas, as pernas teimam em não obedecer. Nem os braços. Sente-se uma coisa grudada à pedra. Mas não. Não? E se fosse? Que coisa seria? Uma lesma, perereca, indivíduo em uma colônia de fungos, uma ameba? Viagem, viagens... Pareceria com o ser que Kafka, em A Metamorfose, deixa que percebamos como uma barata? Bem, ele não deixa nada, a maior parte das pessoas é que veem o ser como uma barata. Que pode ser real ou metafórica, dependendo do entendimento de cada um. Ao menos estaria “barateando” por aí, andando, meio que rastejando, sentindo o ambiente com as longas antenas. Menos, menos...


Não se sentia metamorfoseado, apenas dormente. Uma dormência gostosa, como ao acordar de um sono reparador e o sangue, seguindo os impulsos vegetativos, começasse a ser bombeado com mais pressão para o organismo, oxigenando o cérebro e todo o sistema. Vivificando.


Era bonito o mundo apesar da poluição que às vezes o escondia:


Tinha sol, e crianças sorrindo para ele, e mulheres com tangas escondendo quase nada,


E barcos que se faziam ao mar: faziam até músicas, compunham-se poemas,


Falava-se de amor que, embora às vezes pago, era bom...


 Era bonito o mundo: as gentes se encontravam pela rua, ao que, às vezes,


Davam o nome de “trombada” (seriam eles como elefantes?);


E se fazia comercial até para vender o óbvio.


 Era bonito o mundo e hoje, tantos sóis quase nada iluminando a Terra.


Era bonito o mundo, antes do fim...


Como um bebê principiando o explorar do ambiente, tentou mexer os dedos. Conseguiu! Quase festa, não fosse a dor. Lancinante. Lacerante. Cortante. Num esforço sobre-humano, elevou a mão esquerda para perto dos olhos, enquanto buscava aproximar o conjunto da luz. Estava no lugar. Ou melhor, o que sobrara dela estava no lugar, na ponta do braço, com as enervações ligando seus trocentos ossos (exagero, na verdade são 17, lembrou). A pele... Ai, a pele... Meu reino por um antisséptico e bandagens, ousou pensar, mesmo sabendo do surreal da situação. Com o outro braço e respectiva mão o trabalho foi o mesmo, a dor foi a mesma, a expectativa foi menor. Sabendo das condições, embora precárias, de seus membros superiores, pensou em levantar-se. Não sem antes testar a movimentação das pernas. Somente testar, porque não conseguia vislumbrar nem silhueta das mesmas... Aparentemente estão em ordem. Agora sim. Como a alavanca de Arquimedes (eita, desde sempre acontece empulhação: Arquimedes não inventou a alavanca, mas explicou o princípio envolvido no processo de alavancagem), usa a perfeita combinação de ossos, músculos e nervos para tentar levantar. Não é fácil. São ativados os músculos tibial anterior, sóleo, gastrocnêmio, quadríceps, isquiotibiais, glúteo máximo, abdominais, paravertebral lombar, trapézio e esternocleidomastóideo... Ué, de onde apareceu tanta informação? Nunca foi atento nas aulas de Ciências, Biologia e congêneres. Inconsciente coletivo, diria Jung. Inconsciente talvez, ele estava morre-não morre, a vontade de continuar deitado entorpecia os membros, embora deles precisasse para voltar à condição de primata. Como estava, grudado à pedra, faria parte dos répteis? Dos batráquios? Das assombrações?


Era bonito o mundo antes do fim. Aparecem no fundo de sua memória, borradas, enevoadas, as visões do terremoto / tsunami / vazamento nuclear que prenunciou o final dos tempos. Final dos tempos ou início de uma nova era? Pois, não fosse assim, ele não estaria agora ruminando sua desdita e ouvindo, ao longe, sons de civilização, o famoso ruído branco que deu nome ao livro de Don Delillo. Ruído branco. “Som sempre presente do tráfego da autoestrada” ou “almas ... balbuciando nas margens de um sonho”?