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sábado, 15 de junho de 2013

Em tempos de piratas (Sônia Pillon)

“Renda-se ou morra!”. A temível bandeira com a caveira e as duas espadas cruzadas tinha um recado claro e direto às embarcações que navegavam pelo Mar do Caribe. E a chegada do navio pirata comandado por John Terrible sempre causava pânico. Relativamente magro e de estatura mediana, John Terrible tinha cabelos longos e negros, presos em um rabo-de-cavalo, uma barba comprida e aparada, e grandes olhos castanhos.


O terrível pirata caribenho era reconhecidamente vaidoso, tanto que surrupiava os trajes dos nobres quando invadia os seus barcos. Para os padrões do século 18, era considerado um homem bonito e atraente, e fazia muito sucesso nas tavernas dos portos por onde atracava, seja para se abastecer de provisões, ou promover seus “negócios”.


Astuto, tinha um olhar frio e penetrante. Implacável tanto com a marujada, como com seus inimigos. Nos saques que realizava, principalmente nos navios espanhóis, franceses e ingleses, além de ouro, prata e jóias, costumava raptar as mulheres das quais se agradasse, fossem senhoras, ou donzelas... E depois de fazê-las prisioneiras, usava de seus artifícios de sedução para conquistá-las e transformá-las em piratas também. Reza a lenda que poucas resistiam ao seu charme, apesar dele ter o que se poderia chamar de “um coração de granito”... E se por acaso não se agradasse, ou se cansasse de alguma delas, ou ainda fosse rejeitado, dava ordem para os marinheiros as jogarem ao mar...


Rico e poderoso, John Terrible foi por mais de duas décadas caçado pelas monarquias que pilhou. Nesse período, o “Senhor das Águas Sombrias” pintou e bordou, ou melhor, assaltou e se refestelou com sua tripulação após as pilhagens. Promovia festas e banquetes memoráveis, sempre regados com muito rum.


Mas os seus dias de crimes impunes chegaram ao fim quando finalmente a sua embarcação, “Terror dos sete mares”, foi rendida em uma emboscada na Jamaica. Preso e condenado à forca, John Terrible foi conduzido por um carrasco para ser executado em uma grande praça. Causava espanto o grande número de mulheres no local, aos prantos...


_ Ei, Samuel, acordaaa! Já são 7 horas, homem!
_ Ai, Raquel, logo agora que ia acontecer o enforcamento do John Terrible!
_ Ha ha ha. É isso que dá ficar assistindo filmes de piratas antes de dormir... E pensar que hoje existe o Partido Pirata, que nasceu na Europa e tem até candidato brasileiro concorrendo ao Parlamento Alemão...
- É mesmo! É um tal de Fabrício do Canto, que adotou o apelido de “Infiltrado”, um gaúcho radicado na Alemanha que quer revolucionar a forma de se fazer política por lá... E esse partido já existe também no Brasil! Ah, piratas!...




Samuel se arrumou rapidamente. A realidade o estava chamando. Não queria chegar atrasado ao trabalho, mais uma vez...


Sônia Pillon, Jornalista e escritora.
@Soniapillon

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Águas Doces (Suzi Daiane)


Na época em que os rios eram límpidos e que passar a tarde pescando às margens dos pequenos córregos era a diversão de muitas famílias, os barcos eram feitos de papel e corriam desleixadamente pelas águas doces. Nesses barcos viviam piratas, que não desistiam mesmo diante das mais fortes tempestades, enfrentavam as correntezas até o secar da última gota de sangue em suas veias.


As tempestades sempre existiram, nunca se soube a origem verdadeira delas; se algum gigante as criara para reafirmar seu poder com os trovões, ou se o dono dos céus decidira as enviar para testar quão bravos os piratas poderiam ser. O certo é que os piratas em momento algum davam chance para a fraqueza ou medo, sabiam que suas vidas eram sustentadas por uma base frágil, como muitas vidas o são, e faziam por merecer os dias de liberdade com nuvens claras do céu.


Certa vez, quando atracavam nas águas quentes do rio, foram pegos de surpresa por entulhos, metais e pedaços de plásticos que sujavam as águas e carregavam os barcos para lugares perigosos. Muitos dos barcos foram arrastados para longe, os materiais presos a eles faziam com que afundassem depressa. A esperança parecia dissolver-se. A água veio a encher por completo diversos barcos, que afundaram, levando consigo fiéis piratas.


Restava somente um barco naquela tragédia, até que pedaços de alumínio cortaram sua parte inferior e a água fluíra por dentro do convés. Os piratas viam-se ameaçados. As águas entraram com pressa, trazendo um colorido desconhecido e um odor insuportável que os fazia desmaiar.


O capitão ainda dava ordens, parecia não perceber a gravidade, e só cessou os gritos quando finalmente o barco pareceu velejar de maneira amena. Os piratas abraçaram-se procurando estancar com o próprio corpo as entradas de água. Não houve o que se fizesse parar, o barco afundou logo após bater em uma enorme pedra escondida nas encostas.


Foram tempos difíceis aqueles, todos os barcos e sonhos foram destruídos, milhares de peixes foram encontrados sem vida na beira do rio e piratas desapareceram por todo o sempre.


Muitas famílias ficaram doentes, e, aos poucos, também se esvaíram das proximidades do rio, o líquido que vertia das nascentes se uniu às novas cores e, os poucos moradores que restaram, adaptaram-se à escassez da água límpida. Agora eram conhecedores do sabor de outro líquido, quase um óleo, que tinha qualquer outra aparência e consistência, mas que ainda era chamado de água.


Os piratas de água doce passaram a existir somente nas lembranças. Nas histórias contadas sobre eles, são sempre descritos com uma aparência estranha, muitos sem algumas partes do corpo. Talvez porque realmente as tenham perdido graças aos entulhos; talvez para que assim ninguém se esqueça da bravura de seus corações.




Suzi Daiane é atriz e professora.
Co-autora no livro “Preliminares” e autora do livro “Tonalidades”.