sábado, 17 de novembro de 2012

Davi e Jônatas (Fernando Bastos)

 

Israel era governado pelo rei Saul, mas ele fizera o que era mal aos olhos do Senhor, de modo que o profeta Samuel fora chamado para escolher um substituto. Em Belém, ele ungiu um jovem de bela aparência, de cabelos ruivos, chamado Davi. A partir desse dia, o garoto foi tomado pelo espírito de deus, que o acompanhava a todo instante.


Conhecendo a fama de bom músico, Saul mandou chamar Davi, o belemita, para perto dele. Todas as vezes que um espírito maligno se apoderava do rei, Davi tocava a harpa e Saul se acalmava, de maneira que o filho de Jessé ganhava cada vez mais pontos a seu favor, tornando-se escudeiro do rei. Quando Davi lutou contra o gigante Golias e o derrotou com uma simples funda, todos o temeram, pois sabiam que deus estava com ele. Como prêmio pelo ato de bravura, o rei o convidou para morar em seu palácio. Jônatas, filho de Saul, no mesmo instante em que viu Davi, apaixonou-se pelo belemita. Quando Davi saiu da reunião com o rei, Jônatas chamou-lhe num canto e disse, Davi, filho de Jessé, eu o amo como minha própria alma, façamos um pacto para nunca nos separarmos!


Após um carinhoso abraço, Jônatas presenteou Davi com seu manto, dando-lhe também armadura, espada, arco e cinto. Davi foi nomeado chefe dos guerreiros. A cada nova batalha crescia sua fama de grande líder, a ponto das israelitas cantarem, “Saul matou aos milhares, Davi, às dezenas de milhares”.  Aos poucos, a admiração do rei Saul pelo jovem belemita se transformava em ódio. O rei ardia em uma inveja que lhe corroía as entranhas, e logo começou a maquinar um plano para matar Davi.


Um dia, enquanto Davi tocava cítara para o rei, Saul arremessou duas vezes a lança contra ele, mas lépido que era, Davi saiu incólume do ataque. Saul pensou consigo mesmo, Esse filho de uma vaca é protegido do Senhor; então , que não seja a minha mão que o ferirá, mas a dos filisteus.


Saul mandou chamar Davi e lhe disse, Filho de Jessé, em troca de seu êxito nas batalhas, vou lhe dar por mulher minha filha mais velha, contanto que continue a ser um filho valoroso e destemido nas guerras do Senhor. Davi não quis aceitar a mão da filha do rei, julgando-se não merecedor de tão elevada honraria; essa foi a desculpa, mas o motivo da recusa foi que já estava ligado até a medula  ao amor de Jônatas. Entretanto, acabou aceitando depois de ouvir os rogos de Saul.


Como não tinha dote para pagar pelo casamento, Davi foi engenhosamente mandado à linha de frente na luta contra os filisteus, para, segundo imaginava o rei Saul, fosse morto em campo de batalha. No entanto, além de voltar vivo, Davi ainda trouxe duzentos prepúcios de soldados mortos em batalha. Era o dote que Saul pedira.


Conforme o trato, Mical foi entregue como mulher a Davi, mas a ira de Saul pelo tocador de cítara aumentava dia após dia. Numa reunião de emergência, em que chamara seus melhores generais e o filho Jônatas, o rei disse, Matem o belemita! Jônatas saiu correndo e avisou seu amado, Meu pai deseja sua morte. Fuja, querido, enquanto há tempo. Davi fugiu e foi morar em Ramá, junto ao profeta Samuel.


Numa noite, enquanto jantavam, o rei disse, Hoje é o segundo dia que Davi não aparece para cear conosco; onde ele está? Jônatas respondeu, Ele pediu-me para ir a Belém realizar um sacrifício em família e eu deixei. Mas o rei já suspeitava da relação proibida de ambos, e grande foi a explosão de fúria do monarca de Israel, atirando pratos e jarra de vinho contra o chão. Então, mirando a cara de Jônatas, gritou, Seu filho de uma cadela, todo o povo sabe que você escolheu Davi para sua vergonha e vergonha da sua mãe. Enquanto Davi estiver vivo, você não estará seguro, nem seu trono. Agora, parta e traga-me a cabeça dele.


Jônatas foi ao encontro do amado, e quando Davi avistou a figura do filho do rei, saiu de seu esconderijo e o beijou. Dependendo da versão bíblica, foi apenas um abraço, mas de qualquer modo, a essa altura, por mais que os defensores da tese de que o amor entre Davi e Jônatas era como de dois irmãos, se deixarmos os preconceitos tolos de lado, veremos que sim, havia entre eles um amor homoafetivo, do qual ninguém pode negar. Muitos, de fato, se mostram contrários às provas desse amor homossexual, pois pelos padrões da moral homofóbica da Bíblia, não pegaria bem que gerações mais tarde, o Messias cristão seria descendente de um gay, ou bissexual, como preferem alguns autores, o que, para os conservadores, isso abalaria profundamente a reputação do filho de deus.


Tempos depois, os filisteus atacaram Israel, e mataram Saul e seu filho Jônatas. Quando a notícia chegou aos ouvidos de Davi, ele compôs um cântico fúnebre em honra de Saul e Jônatas, o verdadeiro amor de sua vida. À noite, ao redor da fogueira, sob olhar dos companheiros de luta, o belo filho de Jessé se cobriu de cinzas, rasgou as vestes e, com a alma enlutada, cantou num brado dolorido,


“Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; muito querido me eras! Maravilhoso me era o teu amor, ultrapassando o amor de mulheres.” (Segundo livro de Samuel 1,26).


 Fernando Bastos, cartunista, ilustrador e escritor.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Clown time: A hora do palhaço (Sônia Pillon)

As arquibancadas estavam lotadas.

Especialmente pelas crianças, que se agitavam,

olhos brilhantes e sorrisos de expectativas.

Estavam acompanhadas dos pais, irmãos e

coleguinhas de escola. Algumas seguravam balões

coloridos, outras pacotes de pipoca, que comiam

avidamente, com os olhos fixos no picadeiro.

E pouco importava se parte da grande lona do

circo estava remendada e com goteiras em alguns

pontos. Eles estavam ali para assistir o palhaço,

com sua roupa espalhafatosa e desajeitada, sua

maquiagem engraçada e suas tiradas ingênuas.

Mas não eram só os pequenos que se

encantavam com as palhaçadas desse artista

de tradição milenar. Os adultos, também! Eles

voltavam à infância, ao tempo em que andavam

descalços pelas ruas e jogavam ‘pelada’ no

campinho do bairro... “Bons tempos, aqueles!”,

pensavam, num instante de nostalgia... As

obrigações do dia a dia de gente grande os levou

para caminhos nem sempre coloridos, cinzentos,

muitas vezes...


José olha para o filho João e reconhece nele

mesmo brilho no olhar de quando era moleque,

quando e o circo chegava na cidade. Na época,

era um verdadeiro acontecimento! Hoje, em

muitos momentos, a vida lhe pareceu um circo

de horrores... Mas também lembrou de uma

frase do ator brasileiro especializado na arte

de fazer sorrir, Nico Serrano, de que ‎"a alegria

de palhaço não é ver o circo pegar fogo. É ver a

alegria incendiar o picadeiro”... Pura verdade!

A música começa a tocar e o espetáculo

está prestes a iniciar. “Respeitável público!

Senhores, senhoras, senhoritas, gente pequena

e gente grande! Temos a honra de apresentar o

palhaço ‘Tagarela’, o maior mímico do Brasil!

Palmas para ele!”... A criançada entra em delírio.

Todas as atenções se voltam para o Tagarela,

que fala pelas mãos, expressões do rosto e

pelos movimentos do corpo. As palhaçadas e

trapalhadas do Tagarela arrancam gargalhadas

da plateia, que se torce de tanto rir. Sucesso

absoluto!

A apresentação do palhaço chega ao fim

e o público o aplaude de pé. Ele se despede,

sem dar as costas para a plateia e se recolhe

ao fundo do palco. Agora Tagarela está no

camarim, senta em frente ao espelho e olha

para si mesmo. Tira o nariz de palhaço e

começa a remover a maquiagem. Estava feliz. O

entusiasmo do público compensava as tristezas,


a solidão, as dívidas acumuladas, a incerteza

do futuro... “Tudo vale a pena!”, disse para si

mesmo, enquanto uma lágrima escorre pelo seu

rosto...




Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre (RS) e desde 1996 radicada em Jaraguá do Sul (SC).

domingo, 11 de novembro de 2012

Perspectivas para uma segunda (Adriana Niétzkar)

- Você poderia cortar os galhos da sua árvore?
O vizinho se aproxima do outro até o limite do muro alto:
- Bom dia! o que disse?
- Sua árvore. As folhas dela estão sujando meu quintal.
O vizinho olha as britas através do muro alto, sufocando um pensamento


                                                                                               "quintal?!":


- Folhas... Ah sim, as flores do ipê!
O outro pensa,


                                                                                        "Flores?! mas a árvore está toda amarela..."
E por fim diz:





- Certo. Passei a tarde de ontem limpando meu quintal e hoje está tudo assim de novo, você poderia cortar o galho?




                                                          "Ou eu mesmo posso encostar uma escada"

- Sim. Posso, mas ainda assim o vento pode carregar algumas flores...
- E cortar a árvore?

                                                                                        " Cortar meu ipê? Vou plantar um pé de manga pra cheirar no seu quintal..."


- ahhh... bem, ela logo para de florescer e essas flores são lindas, não são?! passei a manhã admirando elas... eu as deixo sobre meu gramado, veja?!


o vizinho estica o pescoço a contragosto para ver o verde-amarelo do outro:
- Sim, estou vendo...


E lhe dá as costas em um último pensamento.


                                                                                      "Vizinhos"


- Tenha um bom dia!!!
Grita o outro antes de seguir para seu trabalho,


                                                                                       "vizinhos!"


e vai sorrindo para as flores sob seus pés no gramado e em sua calçada antes de caminhar no cimento friu.

                                                      " Que mal ha em ter um pouco de vida nessa cidade tao sem terrra e cor?!"


O vizinho despede-se com um braço meio levantado, sem olhar pra trás, evitando olhar sua brita, mas logo caminha sobre flores na calçada, mal humorado, as pressas para chegar ao lado limpo. Vê o varredor na outra esquina, quando voltar o serviço dele já terá desaparecido.


                                                                                    "Qual a dificuldade em se deixar a vida no campo?"


Alguns pássaros cantantes pousam sobre os galhos amarelos. A rua povoa-se com o frenesi de carros de todas as cores.


sábado, 10 de novembro de 2012

O medo que um livro ainda provoca (Ítalo Puccini)


Em 2009, lembro-me, foram retiradas mais de centenas de milhares de exemplares do livro “Aventuras Provisórias”, do escritor catarinense, radicado em Curitiba, Cristovão Tezza – o, à época, ganhador do maior prêmio de literatura do país, o Jabuti, com o romance “O filho eterno”. Isto devido ao chilique de alguns pais e professores alienados que argumentaram que o livro continha elementos “perigosos” para os adolescentes: alguns palavrões e referência a uma relação sexual. Como se na vida para além dos livros os adolescentes não estivessem em contato com esses “perigos”. Imagino que estes mesmos pais e professores tenham cortado as novelas televisivas de seus filhos e alunos também. Seria o mais coerente.


A falsa moralidade sofre com as diferenças.


Agora, 2012, deparamo-nos com a proibição do uso do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, nas escolas, devido a uma ação, junto ao MEC, do Instituto de Advocacia Racial (Iara), que vê nesta obra a presença de trechos preconceituosos à cor negra.


A literatura era, para Monteiro Lobato, um instrumento de transformação. Literatura, para o maior escritor infantojuvenil que o país já teve, era a própria vida. Foi a partir da vida à sua volta que Lobato construiu sua literatura – tanto a adulta quanto a infantil, esta última alcançando uma repercussão inigualável até os dias de hoje. O Monteiro Lobato homem pouco difere do Monteiro Lobato escritor. Crente de que a literatura representava a vida, em sua obra Lobato deixa claro esta convicção. Seus personagens retratam pessoas próximas, retratam pessoas que existem na vida real, retratam modos de viver e de pensar, retratam uma linguagem que reaproximou o leitor do texto literário, porque coloquial e nem por isso menos inteligente.


Era, o autor, um nacionalista que acreditava na independência do Brasil através da independência econômica, e não era preconceituoso racialmente, como alguns afirmam em função de Negrinha ser apresentada numa posição inferior em sua obra, ou de Dona Benta ser uma empregada doméstica de cor negra. Quando discorria sobre as figuras negras inferiorizadas, ele apenas apresentava uma leitura crítica de uma realidade social da época.


A literatura é tão importante para uma sociedade justamente por permitir aos seus leitores o direito à liberdade de interpretação de um texto, o aprendizado do respeito às diferenças. Porém, ela não tira do leitor aquilo que ele traz dentro de si – no caso, o preconceito. Assim como não existem escritas inocentes, da mesma forma não existem leituras inocentes. “Toda história é uma interpretação de histórias: nenhuma leitura é inocente”, já afirmara o crítico literário Alberto Manguel. Não há como se ler algo sem relacionar a outro algo, ou já lido, ou já ouvido, ou já presenciado. É dessa forma que a leitura, seja ela literária, seja de jornais, revistas, de imagens, ou de qualquer outro meio, enriquece aquele que dela faz uso, desde que devidamente contextualizadas. Ler um livro ajuda a ler o mundo.


O ato de ler pressupõe uma leitura não somente de textos, de palavras escritas. Não somente de imagens ou de sons. Mas sim uma leitura de nós mesmos e daqueles com quem convivemos. Ler é, também e principalmente, saber ler a si mesmo e ao outro com o qual se estabelece uma relação de viver. E cada leitor constrói uma história própria de suas leituras, assim como cada texto apresenta também sua história própria. É preciso saber que a vida não pulsa somente na televisão ou nos best-sellers. Ela está, também, nos livros que provocam o leitor, que propõem um revisitamento às próprias vivências. Ela pulsa da mesma forma nos livros de um Cristovão Tezza, de um Rubem Fonseca, de um Marçal Aquino, de um Dalton Trevisan, de um Monteiro Lobato. Privar alguém de conhecer a vida por este meio é lhe cercear a liberdade de interpretar o mundo no qual está inserido, de aprender com o livro, este elemento de subversão que ainda provoca medo naqueles que querem ter o mundo para si e aos seus olhos como se fosse uma bola de futebol da qual se é dono.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Mensagem (Thiago Daniel*)

Eu queria dizer a ela, mas o tempo é o bote de uma cobra peçonhenta.

Sempre fui um cara “na minha”, falo pouco, jogo pouco, e, em jogos de coração, sempre fui o mais cabação.

Ela sentava ao meu lado, na sala da 6ª série 02. Terceira cadeira.

Acho que ela nunca olhou para mim. Eu queria chamar atenção, juro, sempre quis, mas nunca tive sequer coragem. Não havia santo fazedor de olhares, que a fizesse voltar sua atenção a mim.

Dessa vez era diferente, questão de honra, estava convicto que agora ela me olharia. Precisava disso. Pensei ser discreto, com leves estalos de dedos, uma tossezinha falsa. Nada.

Bolei planos. Era preciso enviar minha mensagem de qualquer jeito. Pensei no Código Morse e comecei a bater compassadamente com minha caneta na carteira. Eu não sabia como funcionava tal código, então logo percebi que não surtiria efeito, e mesmo que eu soubesse tal mensagem, duvido muito que ela atentasse ao meu comunicado. Desisti.

Lembrei de outro velho código dos índios americanos, descoberto pela minha pessoa, assistindo filmes de faroeste com meu pai, os sinais de fumaça. Logo pensei em pedir para o professor licença para ir ao banheiro, assim procuraria algo pra colocar fogo do lado da janela da nossa sala. Ela olharia e pronto, nosso amor estaria a salvo. Logo desisti da ideia, primeiro porque o professor não me deixaria sair da sala em meio a uma prova, segundo que se alguém me visse colocando fogo, dentro da escola, em qualquer coisa que seja eu seria expulso.

Não havia mais tempo. Peguei um pedaço de papel e decidi escrever nele. Em velocidade desumana, pelo menos para mim que sempre escrevi muito lentamente, rabisquei o que eu tinha a dizer. Foram os cinco segundos mais intensos da minha vida. Lembrei das festas juninas, alguém sempre entregava os bilhetinhos de amor para o destinatário, mas agora era diferente, não havia esse tempo, não havia ninguém entre nós. Nem pombos correio. Amassei o bilhete e joguei aos pés dela torcendo para ela ver e catar o papel.

Tarde demais, o papel rolou entre os pés do professor. Estava de costas para mim e de frente para ela. Ele pegou a prova dela, ela se levantou e foi embora.

Estava acabado. Se ao menos eu fosse um tanto mais corajoso.

Ao fim da prova, peguei o bilhete debaixo da cadeira dela. Ele a faria olhar para mim pela primeira vez, talvez até arrancasse um sorriso de seu rosto. Um sorriso dela só para mim.

Abri o bilhete para ler uma última vez antes de jogar no lixo. Li, rasguei e o joguei fora, mas as palavras ecoariam na cabeça por um longo tempo. Aquelas que salvariam o meu amor.

“Guarda esse livro, o professor está te vendo colar”.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Arrumadinhas (Marcelo Lamas)

Sempre preferi as princesinhas. Aquelas que iam arrumadas para a escola, que combinavam o prendedor do cabelo com a estampa da blusa. Se entrar a Miss Brasil desarrumada e uma outra “normal”, mas ajeitadinha, eu só vejo a não titulada.


Quando eu tinha uns nove anos cometi um delito grave com uma guria dessas. Ela era uma índia muito linda. Eu fui lá e passei a mão nos glúteos dela. Acho que eu não era um tarado precoce. Devo ter imitado os líderes mais velhos da gangue. Ela e uma amiga foram até a minha casa e fizeram uma reclamação formal. Recebi punição severa. Eu tinha uma irmã, então eu deveria respeitar as outras meninas e por aí foi a reunião, que cancelou mesada, futebol, televisão e audição de música no carro. O problema é que a morena cresceu e virou a número um do colégio. Segundo os outros eu tinha chance com ela – será que ela preferia os caras de óculos? –. Mas eu, eternamente envergonhado, não tinha coragem de olhar para a guria.


Na faculdade de engenharia, bem escassa de mulheres, apareceram duas retardatárias no final do curso. Eu só enxergava uma. A outra não se ajeitava. Um colega me corrigia: “Cara, tu tá loco! Ela é gata. Olha o corpo dela!”. No dia da formatura eu vi que ele estava certo. A falsa-magra toda produzida deixou aquela que eu admirava no chão.


A minha namorada treina kickboxing, assiste ao canal Combate, gosta de futebol e anda de skate, mas outro dia ela me confidenciou que não consegue mais ficar sem esmalte, de tanto que eu falo da minha admiração pelas meninas vaidosas. Certa vez, em Buenos Aires, um argentino tentou ver as horas no relógio dela e curioso, perguntou-me se havia fuso entre nossos países. Aí eu percebi que o relógio dela estava parado. A pilha tinha terminado, mas ela levou-o porque combinava com a roupa. Recentemente, numa viagem de três dias que fizemos, ela levou cinco relógios pra garantir os looks.


Quando eu ventilei que escreveria estas passagens, ela disse que me mataria. Bem, supondo que ela “apenas” termine o relacionamento, se eu tiver que procurar outra namorada o perfil da pretendida já está bem definido. Desde sempre.


Por Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com