terça-feira, 9 de outubro de 2012

A escrita como tentativa de preservação: de um lugar, de muitas vidas (Ítalo Puccini)

             Eis o que é possível encontrar no filme “Narradores de Javé”, dirigido por Eliane Caffé, vencedor de melhor filme no VII Festival Internacional de Cinema de Punta Del Este (2004) e no 5º Festival de Cinema des3Ameriques (2004, Quebec, Canadá). Produção nacional de 2003 que aborda o sumiço da cidade de Javé, a ser submersa pelas águas de uma represa.


            Taí um filme que procuro trabalhar em sala de aula com turmas do Ensino Médio, abordando não somente a desagradável situação da tomada de terras alheias, mas também a importância da escrita, e sua distância para a oralidade. São conversas que transitam pela trama, pela importância que adquirem a memória e a oralidade na história, e pelos caminhos através dos quais o filme nos leva à literatura.


Tudo acontece a partir do drama que enfrentam os moradores de Javé: a instalação de uma usina elétrica no vilarejo vai levá-lo a não mais existir no mapa. E a solução que lhes resta é uma só: registrar por escrito o vilarejo, tornando-o de valor histórico e científico, conforme falam. É preciso contar a história de Indalécio, o fundador de Javé.


Eis, então, o momento em que surge o personagem AntonioBiá, o salvador dos habitantes de Javé, aquele que em anos anteriores fora expulso de lá pelo motivo que agora o trazia de volta: a escrita de histórias. Biá é chamado para escrever a história de Javé, por ser o único ali que sabe escrever (Biá trabalhava na agência dos correios em Javé. Como ninguém fazia uso da escrita e da leitura, ele passou a inventar histórias dos moradores da localidade, como forma de tornar a agência movimentada, e assegurar seu emprego. Justamente por isto foi expulso pelos moradores quando descobriram o que ele inventava). 


No momento em que Biá passa a ouvir as histórias dos moradores de Javé é que passamos nós, telespectadores, a percebermos como a memória oral de cada um privilegia aspectos e detalhes que ninguém conhece, e que jamais serão registrados como de fato aconteceram. Passamos a perceber o quanto a escrita não dá conta daquilo que é da oralidade. E também o quanto toda escrita fica marcada por aquele que a produz, o que nos leva a pensarmos na isenção do historiador no momento de registrar uma história.


Biá vai ouvindo as versões de cada habitante de Javé. Cada um "puxando a sardinha" para o seu lado, apresentando algum detalhe que antes não havia. Como já dizem os ditados, quem conta um conto, aumenta um ponto. E existem sempre três verdades: a minha, a sua, e a que de fato existe. E Biá deixava claro aos moradores: Uma coisa é o fato acontecido. Outra, o fato escrito. E as verdades produzidas pelos moradores do vilarejo são compostas de memória. De uma memória mítica, onde se encontra com a fala. Uma memória que é feita de fala, que é produzida pela narração. 


            Diante disso, algumas pontes que podemos estabelecer com a literatura fazem referência a dois aspectos textuais apresentados pelo teórico Mikhail Bakhtin, a polifonia (as várias vozes de um discurso, uma vez que a coexistência de inúmeros narradores, narrativas e formas de narração compõem uma heterogeneidade discursiva, que é o que observamos no filme, nas várias narrativas que o compõem) e o dialogismo, a partir de uma citação do próprio Bakhtin: "Tudo se reduz ao diálogo. Tudo é meio, o diálogo é o fim. Uma só voz nada termina, nada resolve. Duas vozes são o mínimo de vida". 


            Além disso, importante lembrar das várias leituras que podem e devem ser feitas de uma mesma história. A história de Javé é, na verdade, as histórias de Javé. A história de cada morador é a leitura que cada um deles faz da localidade em que vive, o que prova que não existe uma só maneira de se ler algo, e sim maneiras de se ler. E de se escrever.


 Ítalo Puccini

sábado, 6 de outubro de 2012

No motel (Marcelo Lamas)

Numa noite quente – e caliente – o casal de namorados foi para o motel. Depois de um bom tempo por lá, surgiu um imprevisto: faltou energia elétrica. A princípio nem deram bola, pois estavam distraídos e o calor demorou até tomar conta do ambiente escuro.
Na hora de sair, Eric foi até o carro e acendeu as luzes, assim conseguiram pegar as coisas que estavam espalhadas. Ele lembrou que ainda haveria um problema a ser resolvido: só tinha levado cartão de crédito. Estaria a maquininha funcionando? Samantha também não carregava dinheiro consigo.
Eric ligou para a recepção e o atendente disse que havia usado a máquina o dia todo apenas com a bateria e que esta acabara de ficar totalmente descarregada com as saídas anteriores – como de hábito, o movimento na hora do almoço tinha sido intenso naquele dia.
O atendente disse que estava à procura de uma bateria reserva que talvez tivesse alguma carga, mas a escuridão estava dificultando a tarefa.
Eric pensou em chamar alguém para socorrê-los, mas Samantha achou que seria muita “pagação de mico”. Tempos depois o recepcionista ligou:
- Alô, moço, vamos dar um jeito aqui. Achei a bateria.
- Ah! Legal. E como eu faço pra abrir este portão da garagem?
- Estamos fazendo manualmente senhor. Até por segurança. A gente manda o pessoal abrir um portão por vez. Sabe como é, né? Sem luz e sem câmera a gente não pode deixar ficar uma fila de carros aqui na saída.
Depois de mais espera, o homem ligou de novo e disse que era a vez deles. O casal entrou no carro. Pelo canto do portão dava pra ver duas tiazinhas vestidas de copeiras tentando destravar o mecanismo com uma chave de fenda, que caía a toda. Eric não podia ajudar pois a operação era do lado de fora.
Chegando à recepção, tava lá o sujeito com uma lanterninha de 1,99 na mão e evitando olhar para o casal. Depois de algumas tentativas, a operação foi completada. E lá vieram as duas tiazinhas de cabeça baixa para abrir o portão principal.
Quando o casal saiu, deu de cara com um ponto de ônibus lotado e um “mercedes” amarelo bem cheio, recolhendo o pessoal. E o povo olhando pra ver quem tava saindo do lugar, e todos se viram, pois no carro de Eric não tinha película. Todo o profissionalismo do pessoal do motel foi por água abaixo. Se fosse um casal “ilícito”, o crime não teria dado certo. Como diz o provérbio: “Em cidade pequena o inferno é grande”.


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Cansaço (Fred Paiva)

"Estou cansado", repetia diversas vezes ao dia, indiscriminado, descompassável, entrelinhas 1,5. Nem sei se realmente estava cansado ou se estava acostumado a dizer que estava ou se estava acostumado a se sentir assim, cansado. Ou a vida lhe cansava mesmo, pode ser. Tantas responsabilidades. Todos os compromissos marcados. Outlook, celular, agenda. Tudo. Queria um tempo disso tudo. Precisava dar um tempo disso tudo. Manter-se só, ermitão. Uns dias, que fosse. Agorafóbico em si. Pisar a terra descalça, tomando a brisa fresca, pouco úmida da manhã. Ver o tempo-espaço passar-ruindo. Sem devidas providências. Em off. O2. CO2. O2. CO2. Até cansar-se disso também. Esgotar.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Onde está teu irmão? (Inacio Carreira)

Abel, a primitiva vítima


 “Não sei, sou eu tutor de meu irmão?” Chorei quando ouvi essas palavras. Eu já as havia ouvido, mas não nesse contexto. Não depois que meu irmão resolveu abandonar a casa de nossos pais. No que ele era diferente? Ou melhor, vendo de outro ângulo, no que eu era diferente dele? Filhos do mesmo pai e da mesma mãe, criados sob o mesmo teto. Com diferença de dois anos frequentamos a mesma escola (ele nasceu primeiro), fomos às mesmas festinhas de família, dos filhos dos amigos de nossos pais, éramos como agulha e linha, como falavam os mais velhos. Inseparáveis.


Até que mudou. Eu ou ele mudamos? Ambos, decerto. Mas foi uma mudança radical. Enquanto eu continuei com as aulas de violino, ele abandonou o piano para tocar lata, ou quase: entrou para um programa de música experimental em uma associação de periferia, furou as orelhas (alargador, disse ele, para arejar as ideias), começou a fumar coisas que não são vendidas nos bares, usava incenso em demasia (para espantar os maus fluídos, justificava), banho só vez em quando, cabelos seguindo moda dos etiópicos. Será que ele sabia disso?


Não importa. Quantas vezes meu pai ou minha mãe perguntaram, tal qual o Senhor: “Onde está teu irmão?”. E eu não sabia dizer, ou não queria, na maior parte das vezes. Não podia? Ia mudar alguma coisa?


Ele, por ser mais novo, meio adoentado, foi cercado de gentilezas. Talvez, por isso, sem querer parecer psicologístico, cresceu em um mundo irreal. Onde o estudo, a carreira, o casamento, o futuro não tinham papel. Ou ele não tinha papel nessas funções. Não se via responsável, somente tutelado. Passou sua infância mimado por três pessoas embora eu, a pessoa mais nova dessa tríade, não gostasse muito do que era obrigado a fazer. Escondido, mostrava minha verdadeira face, talvez com isto afastando meu Abel de estimação. Matando, nele, o que de carinho pudesse haver por nossos pais e por mim próprio.


Será? Não sinto culpa, creio que se fosse essa a hipótese eu teria. Sim, teria, tenho certeza.


Mas não tenho nada a ver com isso. Continuei meus estudos de música clássica, corro o mundo e vejo, em cada jovem à beira da calçada, quer na Europa ou em qualquer outro lugar do mundo, a meu irmão. Ou a um ser parecido com ele, que desistiu de lutar neste mundo onde a lei do mais forte prevalece. Que não tem espaço para culpados. Para covardes. Para os que vão morrer e saúdam, saúdam, saúdam... Não sei quando vi meu irmão pela última vez, mas sei, que logo depois deste fato, ele passou a viver somente em minhas lembranças. Que eu tentava manter o mais saudável quanto possível. Éramos, então, dois irmãos brincando de orquestra, eu o maestro, ele o spala, um prestando reverência ao outro, um tentando ser melhor que o outro. Ele conseguiu?


 Inacio Carreira

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Olhe pra trás e ai sim, siga em frente! (Patrícia Grah)




Poucas são as pessoas que olham suas próprias fotos antigas e percebem que não mudaram, ou que mudaram muito pouco. Pode ser a cor do cabelo ou comprimento, o aumento de peso, o modo de se vestir, as amizades, o antigo carro ou a antiga casa. O certo é que muitas coisas sempre mudaram e sempre mudarão.


Assim como a aparência, é certo que nossa personalidade, nossos gostos, nossos sonhos também mudam e vão se moldando com o passar do tempo. Todos nós somos frutos de nossas escolhas e é comum que muitas delas não deem certo. Não é raro que depois de muitas desilusões e decepções, decidirmos “apagar o passado”, porque assim sofreremos menos e assim também teremos aquela sensação de que “não foi eu quem fez isto, “foi a pessoa que eu era”.


Dói menos, mas desta forma estamos apenas mentindo para nós mesmos, e ai? Se somos frutos das nossas escolhas, devemos agradecer ao nosso passado por ter nos mostrado o que é bom e certo para nosso bem estar e felicidade.


Sabe, eu mesma já me crucifiquei demais, já me cobrei demais, mas não, não sejamos assim! A questão é que é muito mais fácil olhar pra trás agora e se arrepender do  que você sabe que não deu certo, do que no momento em que você tomou as decisões sem saber à qual rumo iriam te levar.


Devemos nos libertar do nosso passado buscando não repetir os mesmos erros também buscando conhecer novos horizontes, mas sem aquela sensação de culpa, sem aquele medo de olhar pra trás. Dane-se o que/quem não deu certo. 
Porque uma pessoa de coragem precisa primeiramente não ter medo de conhecer a si mesma!




Patrícia Grah.


 

 

 

sábado, 22 de setembro de 2012

Pornografia Carnívora (Tiago Nascimento)

Pegou-lhe com firmeza
- Eu vou comer você sua vaca!
Era uma vez um hambúrguer.

Agarrou-a com destreza
- Eu vou comer você sua vaca!
Era uma vez uma virgem...

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Espelho, Espelho Meu (Vana Comissoli)


Margaerith mirou-se no espelho e sentiu o “Não” ordenando que parasse. Vacilou, mas não deixou de fitar o belo, translúcido rosto. Nunca vira olhos tão amendoados e profundos de um verde esmeralda camuflado num debruado de cílios longos e macios, negros como na noite mais fechada onde, a custo, a lua rasga espaços prateados.
A boca era cheia, sedimentada em rochas sensuais que se derretiam quando sorria. Balançou os cabelos negros, macios e salpicados de brilhante purpurina onde a luz incidia. Nem Vênus de Samotrácia teria um nariz tão perfeito e indiscutivelmente divino. Talvez o de Perséfone pudesse lhe fazer frente.
Tinha que reconhecer embora a modéstia lhe negasse esse direito: era linda. A mulher mais linda que o espelho já fixara.
Espelhos não são mesmo confiáveis por que um risinho de Silvana rosnou em sua boca e Margaerith se esfumaçou torcendo a boca cheia de escárnio onde os lábios afinaram em dois traços duros e os olhos fixaram um ponto que era nada e enegreceram em fundos poços. Os cabelos mostraram as pontas queimadas e duplas onde um creme ou condicionador poderia fazer milagres, mas não fazia.
A ira entonteceu os sentidos e levantou a mão para agredir a imagem tão verdadeira ou nem tanto, ou qual era a verdadeira face em meio à distorção que se oferecia quase prazerosamente aos desavisados? Golpeou sem muita força. Bem no fundo sabia que o sangue traria junto uma aguda dor de corte e de novo teria a ferida aberta por meses a fio sem que cicatrizante algum pudesse sanar o problema enosado no soco.
Lembrou que em algum lugar distante, perdida numa floresta onde tudo era pequeno demais e as cavernas lustravam diamantes que ninguém usaria, vivia uma princesa que esquecera o caminho de casa ou fora largada lá para viver uma vida que não deveria ser sua. Uma princesa deveria sempre se mirar em espelhos de cristal onde a imagem não acataria o peso dos anos e não haveria bruxas a espiar do outro lado para ver a pele se desmanchando.
Talvez se houvesse alguma mágica que lhe permitisse atravessar o espelho e enxergar pelo outro lado não sendo bruxa, pudesse perceber enfim a face que trouxera ao mundo para construir alguma coisa que esquecera por completo de tanto procurar a imagem dentro do espelho.
Quando chagava neste repetido ponto era hora do espelho falar e lhe dizer coisas ocultas que não queria ouvir e insistiam em bater à porta. Nesta noite ele se manteve quieto como todos os outros seus semelhantes, fossem feitos de água, prata ou vidro. Incrivelmente todos os príncipes que tivera saíram a cavalgar seus cavalos brancos pela sala pequena demais para tanta gente. Maçãs envenenadas se trincavam entre seus dentes e sentia o gosto acre da cicuta escorrendo pela garganta enquanto apertava forte na mão o vidro repleto de comprimidos fatais.
Alguns buscavam o beijo de Margaerith e outros mergulhavam incansavelmente na vagina de Silvana sem que nelas houvesse prazer por um ou por outro. Quem sabe aquele menino que, lá atrás, onde o tempo já esqueceu, pudesse fazer algum milagre e trazê-la de volta deste sonho real que vivia já há mais de quarenta anos e do qual não conseguia acordar.
Muita gente se pôs a chorar.Ela estava irremediavelmente morta dentro do vidro onde uma camada de prata, alumínio ou amálgama de estanho, se depositava quimicamente coberta com uma substância protetora.Ou era prisioneira das duas imagens dúbias? Ou de si mesma que não desabrochava nunca?
Se existem diversos tipos de espelhos, por que não encontrava nunca um do tipo plano que produzisse uma imagem virtual e simétrica dela mesma? Afinal a imagem dada por um espelho plano é do mesmo tamanho que o objeto, é virtual, uma vez que não se pode projetar num alvo, é direita e é simétrica, ou seja, invertida lateralmente. E real por refletir o que havia de concreto dentro do rosto espelhado, com olhos, boca, nariz e cabelos que não se torcessem ou distorcessem ao bel prazer em figuras que se sobrepunham conforme o latejar do coração e da mente.
Escapou da imagem misturada e antropomorfa e o olhar escorregou pelas paredes onde, pendurada por um prego desajeitado, uma menina se equilibrava instavelmente numa foto preto e branco. Era quase engraçado reconhecer que era bonitinha, mas não era a menina mais linda do mundo e talvez nem sequer uma princesa e não era também uma bruxa ou mulher malvada. Era apenas uma menina meio assustada com doces olhos expectantes que balbuciou algo em seu ouvido.
A mão se abriu e os comprimidos se misturaram aos cacos do frasco estilhaçado no chão. Em seguida, um raio flutuante entrou pela janela atravessando a grossa chuva e fez com que o espelho arrebentasse em mil pedaços. Um velho pensamento supersticioso escreveu rápido na lembrança: espelho quebrado são sete anos de azar. Estranhamente seriam seus sete anos de novas possibilidades já que azar significa o contrário de tudo que já aconteceu. Depois disso talvez não houvessem mais Margaerith e nem Silvanas a embaçar imagens. Por fim aparecesse a Maria das Marias, esse nome de batismo que misturou todas as imagens num enroscado sabor de desconhecimento.
Buscou a vassoura e recolheu os cacos assobiando pela primeira vez na vida. Uma imagem nunca é o que mostra, é apenas reflexo de algo que se transforma conforme a luz e o movimento e talvez fosse mesmo essa coisa cambiante, mas entre uma e outra haveria a si mesma num desfecho que não importa saber qual é, basta que se saiba que mostrará não mais imagens, mas uma pessoa real.


Vana Comissoli