Pegou-lhe com firmeza
- Eu vou comer você sua vaca!
Era uma vez um hambúrguer.
Agarrou-a com destreza
- Eu vou comer você sua vaca!
Era uma vez uma virgem...
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sábado, 22 de setembro de 2012
sábado, 25 de junho de 2011
Nem que a vaca tussa! (Vana Comissoli)
Nem ela acreditou quando o primeiro cof cof saiu enroscado no ruminar constante.
Quando sentiu a coceirinha na goela de novo enfiou a cara no feno cheiroso do coxo. Abafar é preciso, viver não é preciso.
Isso é um absurdo, pensava quase sufocando. Ainda não sabia que o absurdo é o normal e o normal é um absurdo já que não existe. É uma criação das pessoas que pensam atingir essa esfera de perfeição que é a normal imbecilidade. Todos sonham alguma coisa, esse é o sonho mais
constante, mais inatingível e mais idiota.
Ser normal é uma vaca perdida na boiada com olhos de bovina resignação. A normalidade é um engodo.
− Cof cof!
Ali ao lado o cavalo relinchou baixo, abanou as moscas inexistentes com a cauda. Moscas sempre existem, pensou antes de assimilar o som que ouvira, moscas saem de dentro para fora.
− A vaca tossiu! – Registrou quando o som abafado rompeu a garganta ardida da companheira de cela, digo de cubículo.
Há anos conviviam pacificamente sem perturbações, tudo absolutamente normal, nem se incomodavam quando Henry, o dono da fazenda, já habituado aos costumes da terra tupiniquim dizia com raiva:
− Não pago estes impostos exorbitantes nem que a vaca tussa! – E escondia o dinheiro verde amarelo nas encovadas contas das Bahamas, ou qualquer outro paraíso fiscal a que só os gringos ou os ricos têm acesso.
Não se incomodavam quando era o peão grosseiro, de bigodes cheirando a fumo, de dedos amarelados e sempre pronto a acobertar uma ovelha nas barrancas do rio, que dizia:
− Não trabalho no feriado nem que a vaca tussa!
Era tão banal ouvir isso e ao mesmo tempo tão impossível a pobre Amélia tossir que não tinha razão dar importância a estes ditos populares que são o escape da raiva e do “sem razão alguma”.
Agora, de uma hora inexplicável para a outra, o sistema tinha sido rompido ou corrompido.
Amélia, a vaca, tossira!
Por longos dias, sufocando focinho e olhos dentro do coxo, numa experiência ainda mais dolorosa, levantando as patas e tapando o buraco tossidor, enfiando a cara no rabo do cavalo sem nenhum escrúpulo ou nojo, ela tentou voltar ao “status quo”. Ameaçou a alma com os fogos do inferno, com as bruxarias das mulheres, com o sêmen dos homens desviados e nada adiantou. A maldita contra regra atravessava as horas, o peito, como grito transgressor.
Suava, no fundo de sua ruminância passiva e inerte, pressentia o perigo: não se quebra as regras impunemente, algo de terrível aconteceria quando os homens não tivessem um impossível
onde se refugiar. Quem os salvaria da ação? Quem os salvaria da salvação? O salvar a ação não feita, eis o fantasma que come a si mesmo.
O bulício da fofoca começou ao pé dos ouvidos, não era coisa de se falar alto: A vaca tossiu!
Depois nada segurou. A cidade tremia nos becos e nas avenidas: A vaca tossiu!
A polícia não pode deixar de correr atrás do ladrão, a vaca tossiu!
As traições deixaram de ser feitas, os assassinatos foram suspensos e o homem perdeu-se no mar de possibilidades que a tossida trazia no seio.
− “Não vou à missa nem que a vaca tussa!” – Ela tossiu, dá-lhe terço, genuflexão e beija mão do padre.
− “Como essa mulher nem que a vaca tussa!” – Não comeu mais, foi para casa bem aquietado, murcho, assistindo cinco vezes as mesmas notícias enquanto na cozinha um arrastar de panelas mastigado por “Não faço comida nem que a vaca tussa!” se perdia num monte de pernas de frango e feijão queimado.
Foi quando Fabiana na frescura incomparável dos olhos verdes e cabelos recém aloirados e mechados, peitos novinhos em folha, muito bem siliconados, saiu de casa:
−“Hoje eu pego aquele gato, nem que a vaca tussa!”
O gato queria ser pego, a vaca podia tossir quanto quisesse.
Amélia, lá no curral, levada aos trancos e barrancos para as fronteiras perdidas do sem fim onde não se é ouvido, gemia, tossia. A maldita tosse crescia num volume assustador, quanto mais distância, mais forte ficava e, de alguma maneira alucinante, todo o eco das ações rompidas ou executadas à força chegavam até ela.
Quando Fabiana não achou nenhuma graça embaixo do gato que não dera nenhum trabalho de caçar foi que a coisa começou a ficar escranchada. Saiu meio nua, meio não, a gritar que essa história de vaca tossir era uma praga pior do que a do Egito e só podia ser castigo de Deus como em Sodoma e Gomorra. O mundo estava perdido. Era o fim, o apocalipse. Os anjos da ordem tinham que descer dos céus e dar um jeito na aberração.
Ao fundo do discurso escutado não apenas na cidadezinha até então desconhecida, mas até em Nova York, ouvia-se cada vez mais forte, mais alto, a tosse da vaca Amélia, resignada por ser a portadora da ira de Deus contra os homens pecadores.
O negror foi tomando conta do planeta, crianças não explodiam na Palestina, nem morriam de fome na África, os pés de maconha secaram e a cocaína não aceitou refino, o crack estourava antes de ser sorvido e os revólveres viraram seus canos negros para trás: ou suicídios, ou calados.
Os homens desistiram de se matar, a vaca tossia.
E tudo foi ficando muito chato porque a grande transgressão impedia as pequenas, tão banais da humanidade. O que é um estupro, ou um roubo colossal, ou um iate indo a pique diante da tosse da vaca? Que são mísseis, ou napalm se a vaca tosse? Quem se importa com a Gisele
Bündchen desfilando com trilha sonora de vaca tossindo? O Ronaldo, Fenômeno, resolveu experimentar um sexo alternativo, com a tossida da vaca não dá Ibope nenhum!
Eram as três horas sacras. No Gólgota se viu a nuvem negra e terminal tomando forma de cogumelo atômico. Amélia subiu arrastando a tosse, a sua cruz.
Não precisou do madeiro, nem de soldados, afinal era apenas uma vaca. Levava um cutelo, com muito esforço prendeu-o entre as pedras com a ponta aguda bem certeira do caminho que seguiria.
Quando se atirou nauseada e bendita ouviu-se um canto vindo das profundezas do inferno, uma aleluia às avessas:
-“ Hosana, a tosse morreu, o Pecado está salvo!”
Quando sentiu a coceirinha na goela de novo enfiou a cara no feno cheiroso do coxo. Abafar é preciso, viver não é preciso.
Isso é um absurdo, pensava quase sufocando. Ainda não sabia que o absurdo é o normal e o normal é um absurdo já que não existe. É uma criação das pessoas que pensam atingir essa esfera de perfeição que é a normal imbecilidade. Todos sonham alguma coisa, esse é o sonho mais
constante, mais inatingível e mais idiota.
Ser normal é uma vaca perdida na boiada com olhos de bovina resignação. A normalidade é um engodo.
− Cof cof!
Ali ao lado o cavalo relinchou baixo, abanou as moscas inexistentes com a cauda. Moscas sempre existem, pensou antes de assimilar o som que ouvira, moscas saem de dentro para fora.
− A vaca tossiu! – Registrou quando o som abafado rompeu a garganta ardida da companheira de cela, digo de cubículo.
Há anos conviviam pacificamente sem perturbações, tudo absolutamente normal, nem se incomodavam quando Henry, o dono da fazenda, já habituado aos costumes da terra tupiniquim dizia com raiva:
− Não pago estes impostos exorbitantes nem que a vaca tussa! – E escondia o dinheiro verde amarelo nas encovadas contas das Bahamas, ou qualquer outro paraíso fiscal a que só os gringos ou os ricos têm acesso.
Não se incomodavam quando era o peão grosseiro, de bigodes cheirando a fumo, de dedos amarelados e sempre pronto a acobertar uma ovelha nas barrancas do rio, que dizia:
− Não trabalho no feriado nem que a vaca tussa!
Era tão banal ouvir isso e ao mesmo tempo tão impossível a pobre Amélia tossir que não tinha razão dar importância a estes ditos populares que são o escape da raiva e do “sem razão alguma”.
Agora, de uma hora inexplicável para a outra, o sistema tinha sido rompido ou corrompido.
Amélia, a vaca, tossira!
Por longos dias, sufocando focinho e olhos dentro do coxo, numa experiência ainda mais dolorosa, levantando as patas e tapando o buraco tossidor, enfiando a cara no rabo do cavalo sem nenhum escrúpulo ou nojo, ela tentou voltar ao “status quo”. Ameaçou a alma com os fogos do inferno, com as bruxarias das mulheres, com o sêmen dos homens desviados e nada adiantou. A maldita contra regra atravessava as horas, o peito, como grito transgressor.
Suava, no fundo de sua ruminância passiva e inerte, pressentia o perigo: não se quebra as regras impunemente, algo de terrível aconteceria quando os homens não tivessem um impossível
onde se refugiar. Quem os salvaria da ação? Quem os salvaria da salvação? O salvar a ação não feita, eis o fantasma que come a si mesmo.
O bulício da fofoca começou ao pé dos ouvidos, não era coisa de se falar alto: A vaca tossiu!
Depois nada segurou. A cidade tremia nos becos e nas avenidas: A vaca tossiu!
A polícia não pode deixar de correr atrás do ladrão, a vaca tossiu!
As traições deixaram de ser feitas, os assassinatos foram suspensos e o homem perdeu-se no mar de possibilidades que a tossida trazia no seio.
− “Não vou à missa nem que a vaca tussa!” – Ela tossiu, dá-lhe terço, genuflexão e beija mão do padre.
− “Como essa mulher nem que a vaca tussa!” – Não comeu mais, foi para casa bem aquietado, murcho, assistindo cinco vezes as mesmas notícias enquanto na cozinha um arrastar de panelas mastigado por “Não faço comida nem que a vaca tussa!” se perdia num monte de pernas de frango e feijão queimado.
Foi quando Fabiana na frescura incomparável dos olhos verdes e cabelos recém aloirados e mechados, peitos novinhos em folha, muito bem siliconados, saiu de casa:
−“Hoje eu pego aquele gato, nem que a vaca tussa!”
O gato queria ser pego, a vaca podia tossir quanto quisesse.
Amélia, lá no curral, levada aos trancos e barrancos para as fronteiras perdidas do sem fim onde não se é ouvido, gemia, tossia. A maldita tosse crescia num volume assustador, quanto mais distância, mais forte ficava e, de alguma maneira alucinante, todo o eco das ações rompidas ou executadas à força chegavam até ela.
Quando Fabiana não achou nenhuma graça embaixo do gato que não dera nenhum trabalho de caçar foi que a coisa começou a ficar escranchada. Saiu meio nua, meio não, a gritar que essa história de vaca tossir era uma praga pior do que a do Egito e só podia ser castigo de Deus como em Sodoma e Gomorra. O mundo estava perdido. Era o fim, o apocalipse. Os anjos da ordem tinham que descer dos céus e dar um jeito na aberração.
Ao fundo do discurso escutado não apenas na cidadezinha até então desconhecida, mas até em Nova York, ouvia-se cada vez mais forte, mais alto, a tosse da vaca Amélia, resignada por ser a portadora da ira de Deus contra os homens pecadores.
O negror foi tomando conta do planeta, crianças não explodiam na Palestina, nem morriam de fome na África, os pés de maconha secaram e a cocaína não aceitou refino, o crack estourava antes de ser sorvido e os revólveres viraram seus canos negros para trás: ou suicídios, ou calados.
Os homens desistiram de se matar, a vaca tossia.
E tudo foi ficando muito chato porque a grande transgressão impedia as pequenas, tão banais da humanidade. O que é um estupro, ou um roubo colossal, ou um iate indo a pique diante da tosse da vaca? Que são mísseis, ou napalm se a vaca tosse? Quem se importa com a Gisele
Bündchen desfilando com trilha sonora de vaca tossindo? O Ronaldo, Fenômeno, resolveu experimentar um sexo alternativo, com a tossida da vaca não dá Ibope nenhum!
Eram as três horas sacras. No Gólgota se viu a nuvem negra e terminal tomando forma de cogumelo atômico. Amélia subiu arrastando a tosse, a sua cruz.
Não precisou do madeiro, nem de soldados, afinal era apenas uma vaca. Levava um cutelo, com muito esforço prendeu-o entre as pedras com a ponta aguda bem certeira do caminho que seguiria.
Quando se atirou nauseada e bendita ouviu-se um canto vindo das profundezas do inferno, uma aleluia às avessas:
-“ Hosana, a tosse morreu, o Pecado está salvo!”
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