segunda-feira, 20 de junho de 2011
Confusão (Tiago Nascimento)
Eu confundi Jesus com Genésio
Eu confundi tudo,
xadrez com ludo
confundi, fiquei confuso.
Eu confundi butterfly com Buddy Gay
Confundi Confúcio e Cesar Augusto
Eu confundi nada,
sopa com salada
Me confundi e fiquei na sala.
Eu confundi princesa e tristeza
Confundi o que houve com love
Eu confundi ao quadrado,
Medina com Medrado
Me confundi e fiquei parado...
domingo, 12 de junho de 2011
Ah, o amor (Fernando Bastos)
Ah, o amor!
Quantos disparates em torno dele. Filósofos, poetas, amantes e cientistas, todos tentam decifrá-lo. O escritor Gustave Flaubert tem uma preciosa descrição do amor em seu livro Madame Bovary, conforme o pensamento da personagem principal:
“O amor devia surgir de repente,
com grande tumulto e fulgurações - tempestade dos céus que cai
sobre a vida e a revolve, arranca as vontades como folhas e
arrebata para o abismo o coração inteiro.”
Mas isso não creio que ainda é amor, mas paixão, você concorda?
Muitos, com efeito, fazem confusão entre paixão e amor. A paixão segundo os cientistas tem prazo de validade, dura no máximo uns dezoito meses. O amor do qual eu falo, é para a vida toda. Já o amor romântico, do jeito que conhecemos hoje, esse que envolve casais, e os entorpece como se tivessem sob efeito do ópio é coisa recente na história humana, que veio a reboque do amor cortês, surgido no ocidente, no século doze da era comum. Poetas trovadores - na Alemanha chamados “minnesingers”, cantores do amor - cantavam nas tabernas, nas ruas, praças e castelos o amor cortês, aquele amor impossível, do cavaleiro pela dama inalcançável. Era o amor pelo simples prazer de amar. Não importava levar a amada para a cama; antes, seduzi-la e embriagar-se nesse enlevo, e mostrar-se fiel a ela, dando a própria vida por ela, se fosse o caso. Sim, claro que o amor existia bem antes disso, todavia, era diferente, amava-se e ao mesmo tempo desejava-se a posse do corpo, além da alma. Antes do amor cortês, o amor não se realizava sem a consumação carnal. Diferente do amor romântico, que desejava-se a alma, sem se importar com o ato sexual.
Alguns especialistas sugerem que não há o amor pelo outro, mas, o desejo de estar no amor. Amamos o amor, não alguém. Em certa medida, eles estão certos, pois só assim para explicar porque muitos amantes sofrem uma vida ao lado de seu objeto de amor, que o agride e humilha. De fato, muitos amantes oprimidos pelo parceiro nem de longe sonham em terminar a relação, pois não conseguem se imaginar sem esse objeto de amor por mais que ele os machuque. Mesmo infelizes, continuam a não querer se desligar daquele envolvimento amoroso doentio e penoso.
E quando questionados por que não se afastam dele, respondem: “Não posso, pois o amo mais que tudo, e sem ele a vida não teria sentido”. Ama quem? A pessoa ou o “estar-no-amor”? Aqueles que conseguem romper essa corrente que os liga de forma mórbida ao parceiro agressor, poderão experimentar, num futuro não tão distante, se se permitirem uma chance a si mesmos, uma nova vida, muito mais decente e digna, seja ao lado de outra pessoa, em novo romance, ou mesmo sozinhos, pelo tempo que acharem melhor.
O amor puro e verdadeiro existe, mas é raro. Nisso acreditam os sábios que perscrutaram as sutilezas do amor desde a aurora da humanidade. Segundo eles, o amor verdadeiro não aprisiona, liberta. Não deseja possuir o outro, ser dono do outro, e sim, tornar-se parceiro do outro, e vê-lo feliz. Quem ama mesmo, não diz, você é minha ou você é meu, posto que pessoas não são objetos. Quem ama diz: “você é seu, você é sua”. Sua o quê? Sua própria identidade, seu próprio “eu”. Ninguém pode ser você, a não ser você mesmo, bem como é um grande equívoco dizer que fulano ou ciclana me completa. Ninguém pode completá-lo, torná-lo inteiro, a não ser você mesmo.
Fernando Bastos, cartunista e escritor
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Valentine's Day (Sônia Pillon)
Da janela da varanda, o vidro está banhado pela água da chuva. Os pingos escorrem um após o outro, rapidamente, enquanto o céu cinzento, os relâmpagos e os ventos uivantes sacodem as folhas das árvores. Acho que tão cedo não vou esquecer dessa chuvosa tarde de verão. Que coincidência irônica, pensei. O mau tempo parece combinar com o meu estado de espírito, como se solidarizasse com a minha dor, lancinante, dilacerante...
A água que escorre pela vidraça se confunde com as lágrimas que insistem em cair pelo meu rosto, involuntariamente, por mais que eu as tente reprimir, por mais que eu não queira derramá-las. Chorar para que? Odeio me sentir assim, refém das próprias emoções! Não combina comigo. Não combina com a vida que escolhi para mim.
Hoje todos estão comemorando o Valentine's Day, e o meu coração está apertado desde que acordei. O que mais vi foram flores, flores e mais flores, embaladas em belos ramalhetes, ou em vasos enfeitados... Casais apaixonados sorrindo pelas ruas. Um ar de felicidade no ar, acintoso, ferino. Até a minha vizinha da frente recebeu rosas vermelhas. Logo ela, que só pensa em trabalho?! E eu é que tive de receber a entrega!... Não é ironia demais?...
E pensar que no ano passado, no Valentine's Day, eu estava transbordando de felicidade ao lado dele, naquele inesquecível jantar à luz de velas, saboreando aquela comidinha chinesa e bebendo aquele vinho rosè, que venceu as minhas últimas resistências... Como esquecer a magia daquela noite, e de tantas outras em que nos entregamos àquela tórrida paixão, esquecendo o mundo ao redor?...
Ah!... No início, ficava contando as horas, os minutos e os segundos de cada dia, que pareciam intermináveis, até ele tocar a campainha. Bastava um olhar, um toque, e um turbilhão de emoções tomava conta de nossos corpos e de nossas almas... Tudo parecia tão perfeito naquela época!...
Claro que esse idílio não poderia durar para sempre. Quando a gente se conheceu, e se envolveu, acreditava que todas as diferenças podiam ser superadas. Mas não é o que todo mundo pensa quando está cego pela paixão?
Mas logo vieram os ciúmes, as brigas, as cobranças de um lado e de outro... No começo eu até que tolerava aquele futebol todo o santo domingo. Mas com o tempo ele passou a se ausentar o dia todo. Eu ficava em casa, vendo televisão. Que tédio! Depois ele começou a sair sozinho nos sábados também... Aquele bafo de cerveja quando voltava para casa, sempre bem tarde e super cansado... Estava na cara que tinha mais alguém na jogada... Foi a decisão mais difícil da minha vida, mas não dava mais!...
A chuva continua caindo lá fora, porém com menos intensidade. Fico olhando distraída o movimento dos carros, enquanto imagens em flashback tomam conta dos meus pensamentos por alguns minutos. Ainda há nuvens no céu, mas lá no fundo já dá para ver o arco-íris se formando. Respiro fundo e solto o ar lentamente. Enxugo as lágrimas e fico admirando as cores do arco-íris. Amanhã acho que vou dar uma passada no shopping. Estou precisando dar uma repaginada no meu visual.
Sônia Pillon é jornalista e escritora em Jaraguá do Sul, Santa Catarina.
sábado, 4 de junho de 2011
Gatossapato (Fred Paiva)
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Hipocondria (Inacio Carreira)
“Dar nome a uma doença é apressar-lhe os avanços."
Stendhal
Seu pai sempre contava para todos, não sem uma ponta de orgulho, que o primeiro remédio que o filho tomou na vida foi o ácido acetilsalicílico. Talvez por ignorância, talvez por poder, com seu dinheiro suado, ajudar a manter a saúde do rebento, que quase arrebentou a mãe quando nasceu. O que pode, muito bem, ter sido o “pomo da discórdia” entre o casal, que seguiu se alfinetando pelos quase 50 anos que viveram juntos, antes que Tânatos os reunisse num longo sono: cada qual a seu tempo foi dormir, como se acostumaram em vida, talvez um tentando evitar a presença do outro.
Uma das primeiras músicas que chamou sua atenção, diferente das cantigas de roda, das marchinhas de carnaval, das paradas de sucesso extemporâneas, das danças da garrafa e outros tchans foi “O pulso”, de Arnaldo Antunes, ainda no tempo dos Titãs.
“O pulso ainda pulsa / O pulso ainda pulsa...”
A mãe, leitora anual do almanaque O Pensamento, preocupada com a saúde, sua e do rebento, que agora então arrebentava as roupas com o rápido crescimento, arrebentava os chinelos, tamancos, sapatos, parecia o Pé Grande (aliás, apelido que ganhou na rua, fazendo-o ficar irado e chorar como um bezerro desmamado, atrás da porta, porque “homem não chora”), saía vez em quando com pérolas como “O sofrimento é o melhor remédio para acordar o espírito” (Émile Zola); “A medicina fez, desde há um século, progressos sem parar, inventando aos milhares doenças novas” (Louis Scutenaire) e “Uma grande invenção para humanidade não é criar vacinas ou descobrir curas de doenças termináveis, mas sim, acabar com a ignorância” (Andre Rachel): sabe como é, filosofia de almanaque, literalmente.
“Peste bubônica / Câncer, pneumonia / Raiva, rubéola / Tuberculose e anemia /”
Mas fez, essa filosofia, o jovem rebento arrebentado (caía muito, estava sempre com os joelhos esfolados, parece que excesso de falta de coordenação motora) pensar, cada vez mais, na preservação da vida. Na contrariedade que as doenças causavam. Nas dificuldades advindas de procurar médicos, hospitais, pronto-socorros, injeções, pílulas, cápsulas, comprimidos, xaropes, linimentos... E o paradoxo: tem que comer bem para ter saúde, tem que evacuar bem para ter saúde. Mas uma atividade não é o oposto da outra? Se o alimento custa caro, dá trabalho para o preparo, exige mil e uma operações porque, depois, num abrir de nádegas, despejar tudo – ou quase?
“Rancor, cisticercose / Caxumba, difteria / Encefalite, faringite/ Gripe e leucemia...”
Adolescente, ainda acompanhado por seus fantasmas, começou a pedir para a mãe que desse remédio para dormir. O mesmo que ela tomava quando o marido ainda não tinha chegado a casa e ela queria, quando de sua chegada, que a visse dormindo o “sono da morte”.
“E o pulso ainda pulsa / E o pulso ainda pulsa”
Não, onde já se viu um pirralho como você já viciando em remédio? Toma essa maracugina, que o homem da farmácia disse que não tem problema... Estava ele preocupado com vício? Queria era dormir sem lembrar o avô, morto ano passado; das péssimas notas no curso médio (que não estavam na média); das dúvidas sobre as poluções noturnas (ainda não as sabia com esse nome); das ereções na condução, quando lotada... Depois, em casa, o velho jogo do cinco contra um, quando resolvia suas crises existenciais à mão, no horário que devia estar preparando a lição de casa.
“Hepatite, escarlatina / Estupidez, paralisia / Toxoplasmose, sarampo / Esquizofrenia”
Quando, aos 16, começou a trabalhar, estafeta num hotel duas estrelas, sentia dor nas pernas de tanto corre-corre. Às vezes, acompanhada de dor de cabeça. Ou dor nos pés, pelos longos períodos que passava sem sentar-se. A moça da copa arrumava um comprimidinho, que ele completava assaltando a farmacinha da mãe, quando chegava à casa. Para escapar da dor de corno, pior que a de cabeça, dá-lhe analgésico. Desenvolvera tolerância medicamentosa à substância e, em vez de um, tomava dois, três comprimidos, dependendo se aquela que pensava ser a pior dor do mundo fosse acompanhada da não menos famosa “dor de cotovelo”, ambas sem referência na farmacopeia internacional.
“Úlcera, trombose / Coqueluche, hipocondria / Sífilis, ciúmes / Asma, cleptomania...”
Aos 18 anos, primeiro emprego sério após a dispensa do serviço militar, quando entrou no centro de educação de jovens e adultos para complementar o estudo médio e, quem sabe, candidatar-se a uma vaga no curso superior (teria que pagar, pois não tinha a sorte de ser diferente, era o mais comum dos comuns dos jovens. Nada que o colocasse na lista das benesses do governo populista, mais preocupado com perpetuar-se no poder do que em fomentar a educação).
“E o corpo ainda é pouco / E o corpo ainda é pouco / Assim...”
Com o salário, embora pouco, não tendo que dar quase nada em casa (o pai continuava com o mesmo orgulho idiota de quase duas décadas antes: ser o provedor da família), abriu uma conta na farmácia da esquina. Ficou o melhor freguês, bajulado pelo farmacêutico de plantão e as mocinhas, solícitas, sempre oferecendo o melhor antiácido, o lançamento em supositórios e suas várias utilidades (analgésicos, antiasmáticos, antieméticos, antigripais, anti-reumáticos, broncolíticos, cardiovasculares, espasmolíticos, estomacais, expectorantes, laxantes, psicotrópicos, sedantes e urológicos, entre outras). Tônicos para aperitivo (abrir o apetite) e hepáticos (para facilitar a digestão), vitaminas B, C, D..., enfim, todo o alfabeto latino, às vezes incluindo o cirílico, conforme a necessidade.
“Reumatismo, raquitismo / Cistite, disritmia / Hérnia, pediculose / Tétano, hipocrisia /”
Daí a comprar por atacado (quase levando à falência a antiga farmacinha da esquina, que agora parecia um shopping “da saúde”, o que fez com que os farmacêuticos, os estagiários em farmácia, as mocinhas do balcão e os moços da reposição do estoque, antes seus melhores amigos, virassem o rosto à sua passagem, na iminência de perderem o emprego) foi um pulo.
“Brucelose, febre tifóide / Arteriosclerose, miopia / Catapora, culpa, cárie / Câimbra, lepra, afasia...”
Foi quando o patrão, preocupado (ele, afinal, era um bom funcionário, salvo as idas constantes ao bebedouro, para ajudar a engolir o comprimido, ou diluir o extrato) pediu que ele procurasse ajuda profissional, psicólogo ou psiquiatra, pois ele deveria ser hipocondríaco. Hipo o quê? H i p o c o n d r í a c o, cara... Estado mental em que há depressão e doentia preocupação com a própria saúde, ou seja, o seu caso... Eu não sou médico nem nada, mas tá na cara. Outro dia passou no Fantástico, eu disse pra minha mulher: Já vi este filme.
“O pulso ainda pulsa / E o corpo ainda é pouco / Ainda pulsa / Ainda é pouco / Assim...”
O psiquiatra, o psicólogo e a enfermeira do posto de saúde do bairro aconselharam-se a abandonar os remédios. Procurar um grupo de apoio, algo como o A.A., talvez o N.A., ou o H.A. – Hipocondríacos Anônimos –, que ele poderia fundar, se não existisse. Mas como, agora, aprender a viver sem suas muletas, seus amigos, suas terapêuticas? Alopatia ou homeopatia, não importava o sistema, o importante era o método, os efeitos, as sensações que lhe proporcionavam. Na sua angústia, experimentou pela última vez – pois iria seguir à risca a orientação dos diferentes conselheiros – cada um de seus “agentes de cura”, cada um com sua particularidade, especificidade, cor, forma física, dureza, viscosidade, sabor...
Entre a depressão e a euforia repetia as doses, que eram replicadas depois, até que caiu, desacordado, ou quase. Um fundo de consciência deixava entrever, no fim do túnel, uma luminescência azulada, com sabor indefinido, de uma substância que ele precisava, ainda que lhe valesse a vida, experimentar. Pela última vez.
“Pulso / Pulso / Pulso / Pulso”
quarta-feira, 25 de maio de 2011
corrida (Vana Comissoli)
“sofro de meninice tardia
porque padeci de maturidade precoce.”
− André Luiz Aquino −
“Minha mãe acaba de sair correndo de casa. E como louca vai gritando que se atirará ao poço. Vejo minha mãe no fundo do poço”.
Tenho um ataque de riso, minha mãe, em seus cento e dois quilos bem distribuídos em peito e bunda, entalará na boca do poço.
É hoje poço seco, já meio decomposto nas bordas, tampa de podres tábuas nuas.
Houve tempo que este poço doava água fresca e límpida. Tão boa, tão boa que, por inúmeras vezes, minha mãe segurou-me pelos fundilhos na eminência de me jogar para dentro da escuridão vertical. Tinha certeza, haveria peixinhos horizontais nadando em suas profundezas desconhecidas.
As modernidades entraram na minha vida com tanta velocidade que não me deram tempo de questioná-las e nem de averiguar por onde me levariam. Assim veio a água encanada, fluorada e a mineral em suas botijas gordas e plásticas, com rótulos convidativos de saúde e alegria. Todas, muito bem mistificadas no cristal das ampulhetas.
Adeus talha bela desenhada pelo pincel esverdeado do limo. Lembrança do avô, ou bisavô. De um tio qualquer que, por desconhecido, jamais deixei de amar nas construções que fazia dele. Via a caneca de folha a catar a água do sossego no fundo do jarro cerâmico inebriado de lembranças e vidas que não foram a minha.
Adeus, moringa descansando na mesa de cabeceira, refrescando as noites ferventes de janeiro. De tetas boas e fartas, sempre grávidas de meu próprio parir entre tesões e retesões de descobertas, voltas e revoltas do meu crescer.
Adeus, quintal com poço nos fundos, presente desgraça da poluição. Carregado de coliformes fecais e outros bichos que, de brilho, não tem nada, carregam o escuro mórbido do poço. Sepultado estás sob terra, muitas vezes pisadas de tantos pesares, machucados que te demos de abandono e esquecimento. Transversal imagem do tempo escorregadio.
“Minha mãe acaba de sair correndo de casa. E como louca vai gritando que se atirará no poço. Vejo minha mãe no fundo do poço”.
O grito encomprida na estreiteza do pátio que restou no tempo. Apertado no meio de dezoito andares de pessoas e televisões de um lado e vinte e quatro de outro.
Tudo cheirando a suor, à dias mal vividos, cheios de beijos com pressa que correm e correm em direção a face alguma. Ladeira a baixo escorregam na sarjeta da enxurrada temporal.
Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Tamanho grito parece o apitar de um trem que passa tão rápido, tão rápido que mal consigo ver a mão de criança que abana da janela. Como também não tenho mais tempo para nada, ergo os ombros “que me importa, criança idiota, nem te conheço”. Transverso eu, agora, limitado pelos anos.
Vejo minha mãe no fundo do poço como vejo o abano da criança. A criança que realmente não conheço e que passou tão rápido, tão rápido que, quando a olho no espelho, vejo apenas o brilho oculto de seus olhos perdidos no meu abanar de ombros. Raízes primeiras do círculo que serei entre tempo e pó, pó e tempo.
Adeus, minha mãe, princesa de adorável cintura de conto de fadas embalando meu adormecer. Uma voz que não era um grito, mas um ninar lânguido e quente a afagar meus cabelos, raios suspensos do despertar a vir.
Adeus, cabelos que também foram esquecidos nas escovas da vida, fossem elas de cerdas naturais ou de nylon.Foi-se a vaidade de cuidá-los acreditando que de mim fariam um príncipe a conquistar outra princesinha tão linda quanto a do ontem. De pele lisa e grávida como talha e de peitos maduros como moringas.
Adeus, às calças curtas que expunham minhas pernas de franguinho. Finas e tortas, me obrigando a desbeiçar meias de tanto tentar cobri-las para não mostrar meu segredo de pernas genovalgas.
Adeus, pernas boas, transformadas em três pela modernidade que em mim tiniu.
Do três potente que eu gostava, mal pude ver o aceno de tão rápido, tão rápido que escapou. Resta dele, vestígio mal usado e peduncular, transformado em quarto elemento, onde a bengala é mais, muito mais urgente.
Minha mãe saiu de casa correndo, gritando como louca em busca do fundo do poço. O grito é comprido e fundo. Igual pedra atirada buscando eco demarcador de seu mergulho.
Minha mãe saiu gritando de casa e eu, de calças curtas, arranquei os cabelos e quebrei a talha, pisei na moringa e nunca vi minha mãe engordar porque meu pai a deixou descansando no fundo do poço, sepultada por terras onde tantas vezes brinquei de ser menino.
“Minha mãe acaba de sair correndo de casa. E, como louca, vai gritando que se atirará no poço. Vejo minha mãe no fundo do poço”. Vejo, vejo, vejo.
Vejo minha mãe no fundo do poço. Minha mãe saiu correndo de casa, como louca, gritando que se atiraria no poço. Vejo minha mãe no fundo do poço.
Minha mãe correndo.
Minha mãe gritando.
Minha mãe louca.
Minha mãe e o poço da infância.
Minha mãe no fundo.
No fundo, bem fundo de mim para nunca mais.