domingo, 11 de novembro de 2012

Perspectivas para uma segunda (Adriana Niétzkar)

- Você poderia cortar os galhos da sua árvore?
O vizinho se aproxima do outro até o limite do muro alto:
- Bom dia! o que disse?
- Sua árvore. As folhas dela estão sujando meu quintal.
O vizinho olha as britas através do muro alto, sufocando um pensamento


                                                                                               "quintal?!":


- Folhas... Ah sim, as flores do ipê!
O outro pensa,


                                                                                        "Flores?! mas a árvore está toda amarela..."
E por fim diz:





- Certo. Passei a tarde de ontem limpando meu quintal e hoje está tudo assim de novo, você poderia cortar o galho?




                                                          "Ou eu mesmo posso encostar uma escada"

- Sim. Posso, mas ainda assim o vento pode carregar algumas flores...
- E cortar a árvore?

                                                                                        " Cortar meu ipê? Vou plantar um pé de manga pra cheirar no seu quintal..."


- ahhh... bem, ela logo para de florescer e essas flores são lindas, não são?! passei a manhã admirando elas... eu as deixo sobre meu gramado, veja?!


o vizinho estica o pescoço a contragosto para ver o verde-amarelo do outro:
- Sim, estou vendo...


E lhe dá as costas em um último pensamento.


                                                                                      "Vizinhos"


- Tenha um bom dia!!!
Grita o outro antes de seguir para seu trabalho,


                                                                                       "vizinhos!"


e vai sorrindo para as flores sob seus pés no gramado e em sua calçada antes de caminhar no cimento friu.

                                                      " Que mal ha em ter um pouco de vida nessa cidade tao sem terrra e cor?!"


O vizinho despede-se com um braço meio levantado, sem olhar pra trás, evitando olhar sua brita, mas logo caminha sobre flores na calçada, mal humorado, as pressas para chegar ao lado limpo. Vê o varredor na outra esquina, quando voltar o serviço dele já terá desaparecido.


                                                                                    "Qual a dificuldade em se deixar a vida no campo?"


Alguns pássaros cantantes pousam sobre os galhos amarelos. A rua povoa-se com o frenesi de carros de todas as cores.


sábado, 10 de novembro de 2012

O medo que um livro ainda provoca (Ítalo Puccini)


Em 2009, lembro-me, foram retiradas mais de centenas de milhares de exemplares do livro “Aventuras Provisórias”, do escritor catarinense, radicado em Curitiba, Cristovão Tezza – o, à época, ganhador do maior prêmio de literatura do país, o Jabuti, com o romance “O filho eterno”. Isto devido ao chilique de alguns pais e professores alienados que argumentaram que o livro continha elementos “perigosos” para os adolescentes: alguns palavrões e referência a uma relação sexual. Como se na vida para além dos livros os adolescentes não estivessem em contato com esses “perigos”. Imagino que estes mesmos pais e professores tenham cortado as novelas televisivas de seus filhos e alunos também. Seria o mais coerente.


A falsa moralidade sofre com as diferenças.


Agora, 2012, deparamo-nos com a proibição do uso do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, nas escolas, devido a uma ação, junto ao MEC, do Instituto de Advocacia Racial (Iara), que vê nesta obra a presença de trechos preconceituosos à cor negra.


A literatura era, para Monteiro Lobato, um instrumento de transformação. Literatura, para o maior escritor infantojuvenil que o país já teve, era a própria vida. Foi a partir da vida à sua volta que Lobato construiu sua literatura – tanto a adulta quanto a infantil, esta última alcançando uma repercussão inigualável até os dias de hoje. O Monteiro Lobato homem pouco difere do Monteiro Lobato escritor. Crente de que a literatura representava a vida, em sua obra Lobato deixa claro esta convicção. Seus personagens retratam pessoas próximas, retratam pessoas que existem na vida real, retratam modos de viver e de pensar, retratam uma linguagem que reaproximou o leitor do texto literário, porque coloquial e nem por isso menos inteligente.


Era, o autor, um nacionalista que acreditava na independência do Brasil através da independência econômica, e não era preconceituoso racialmente, como alguns afirmam em função de Negrinha ser apresentada numa posição inferior em sua obra, ou de Dona Benta ser uma empregada doméstica de cor negra. Quando discorria sobre as figuras negras inferiorizadas, ele apenas apresentava uma leitura crítica de uma realidade social da época.


A literatura é tão importante para uma sociedade justamente por permitir aos seus leitores o direito à liberdade de interpretação de um texto, o aprendizado do respeito às diferenças. Porém, ela não tira do leitor aquilo que ele traz dentro de si – no caso, o preconceito. Assim como não existem escritas inocentes, da mesma forma não existem leituras inocentes. “Toda história é uma interpretação de histórias: nenhuma leitura é inocente”, já afirmara o crítico literário Alberto Manguel. Não há como se ler algo sem relacionar a outro algo, ou já lido, ou já ouvido, ou já presenciado. É dessa forma que a leitura, seja ela literária, seja de jornais, revistas, de imagens, ou de qualquer outro meio, enriquece aquele que dela faz uso, desde que devidamente contextualizadas. Ler um livro ajuda a ler o mundo.


O ato de ler pressupõe uma leitura não somente de textos, de palavras escritas. Não somente de imagens ou de sons. Mas sim uma leitura de nós mesmos e daqueles com quem convivemos. Ler é, também e principalmente, saber ler a si mesmo e ao outro com o qual se estabelece uma relação de viver. E cada leitor constrói uma história própria de suas leituras, assim como cada texto apresenta também sua história própria. É preciso saber que a vida não pulsa somente na televisão ou nos best-sellers. Ela está, também, nos livros que provocam o leitor, que propõem um revisitamento às próprias vivências. Ela pulsa da mesma forma nos livros de um Cristovão Tezza, de um Rubem Fonseca, de um Marçal Aquino, de um Dalton Trevisan, de um Monteiro Lobato. Privar alguém de conhecer a vida por este meio é lhe cercear a liberdade de interpretar o mundo no qual está inserido, de aprender com o livro, este elemento de subversão que ainda provoca medo naqueles que querem ter o mundo para si e aos seus olhos como se fosse uma bola de futebol da qual se é dono.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Mensagem (Thiago Daniel*)

Eu queria dizer a ela, mas o tempo é o bote de uma cobra peçonhenta.

Sempre fui um cara “na minha”, falo pouco, jogo pouco, e, em jogos de coração, sempre fui o mais cabação.

Ela sentava ao meu lado, na sala da 6ª série 02. Terceira cadeira.

Acho que ela nunca olhou para mim. Eu queria chamar atenção, juro, sempre quis, mas nunca tive sequer coragem. Não havia santo fazedor de olhares, que a fizesse voltar sua atenção a mim.

Dessa vez era diferente, questão de honra, estava convicto que agora ela me olharia. Precisava disso. Pensei ser discreto, com leves estalos de dedos, uma tossezinha falsa. Nada.

Bolei planos. Era preciso enviar minha mensagem de qualquer jeito. Pensei no Código Morse e comecei a bater compassadamente com minha caneta na carteira. Eu não sabia como funcionava tal código, então logo percebi que não surtiria efeito, e mesmo que eu soubesse tal mensagem, duvido muito que ela atentasse ao meu comunicado. Desisti.

Lembrei de outro velho código dos índios americanos, descoberto pela minha pessoa, assistindo filmes de faroeste com meu pai, os sinais de fumaça. Logo pensei em pedir para o professor licença para ir ao banheiro, assim procuraria algo pra colocar fogo do lado da janela da nossa sala. Ela olharia e pronto, nosso amor estaria a salvo. Logo desisti da ideia, primeiro porque o professor não me deixaria sair da sala em meio a uma prova, segundo que se alguém me visse colocando fogo, dentro da escola, em qualquer coisa que seja eu seria expulso.

Não havia mais tempo. Peguei um pedaço de papel e decidi escrever nele. Em velocidade desumana, pelo menos para mim que sempre escrevi muito lentamente, rabisquei o que eu tinha a dizer. Foram os cinco segundos mais intensos da minha vida. Lembrei das festas juninas, alguém sempre entregava os bilhetinhos de amor para o destinatário, mas agora era diferente, não havia esse tempo, não havia ninguém entre nós. Nem pombos correio. Amassei o bilhete e joguei aos pés dela torcendo para ela ver e catar o papel.

Tarde demais, o papel rolou entre os pés do professor. Estava de costas para mim e de frente para ela. Ele pegou a prova dela, ela se levantou e foi embora.

Estava acabado. Se ao menos eu fosse um tanto mais corajoso.

Ao fim da prova, peguei o bilhete debaixo da cadeira dela. Ele a faria olhar para mim pela primeira vez, talvez até arrancasse um sorriso de seu rosto. Um sorriso dela só para mim.

Abri o bilhete para ler uma última vez antes de jogar no lixo. Li, rasguei e o joguei fora, mas as palavras ecoariam na cabeça por um longo tempo. Aquelas que salvariam o meu amor.

“Guarda esse livro, o professor está te vendo colar”.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Arrumadinhas (Marcelo Lamas)

Sempre preferi as princesinhas. Aquelas que iam arrumadas para a escola, que combinavam o prendedor do cabelo com a estampa da blusa. Se entrar a Miss Brasil desarrumada e uma outra “normal”, mas ajeitadinha, eu só vejo a não titulada.


Quando eu tinha uns nove anos cometi um delito grave com uma guria dessas. Ela era uma índia muito linda. Eu fui lá e passei a mão nos glúteos dela. Acho que eu não era um tarado precoce. Devo ter imitado os líderes mais velhos da gangue. Ela e uma amiga foram até a minha casa e fizeram uma reclamação formal. Recebi punição severa. Eu tinha uma irmã, então eu deveria respeitar as outras meninas e por aí foi a reunião, que cancelou mesada, futebol, televisão e audição de música no carro. O problema é que a morena cresceu e virou a número um do colégio. Segundo os outros eu tinha chance com ela – será que ela preferia os caras de óculos? –. Mas eu, eternamente envergonhado, não tinha coragem de olhar para a guria.


Na faculdade de engenharia, bem escassa de mulheres, apareceram duas retardatárias no final do curso. Eu só enxergava uma. A outra não se ajeitava. Um colega me corrigia: “Cara, tu tá loco! Ela é gata. Olha o corpo dela!”. No dia da formatura eu vi que ele estava certo. A falsa-magra toda produzida deixou aquela que eu admirava no chão.


A minha namorada treina kickboxing, assiste ao canal Combate, gosta de futebol e anda de skate, mas outro dia ela me confidenciou que não consegue mais ficar sem esmalte, de tanto que eu falo da minha admiração pelas meninas vaidosas. Certa vez, em Buenos Aires, um argentino tentou ver as horas no relógio dela e curioso, perguntou-me se havia fuso entre nossos países. Aí eu percebi que o relógio dela estava parado. A pilha tinha terminado, mas ela levou-o porque combinava com a roupa. Recentemente, numa viagem de três dias que fizemos, ela levou cinco relógios pra garantir os looks.


Quando eu ventilei que escreveria estas passagens, ela disse que me mataria. Bem, supondo que ela “apenas” termine o relacionamento, se eu tiver que procurar outra namorada o perfil da pretendida já está bem definido. Desde sempre.


Por Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Escritor Convidado: Marcelo Mirisola

Sítio Solidão


Um imbecil com lenço de pirata na cabeça e duas garotas assustadas dentro de um aquário em forma de peido congelado. O arremedo de Thomas Cavendish fazia sua performance e tentava impressionar os pedestres executando malabarismos com lascas de peixinhos coloridos, constrangimento total. O susto foi grande não exatamente por causa do pirata de butique, mas pela invasão propriamente dita. Agora não lembro, mas eu acho que o chaveiro da esquina também se escafedeu. Eis o que sucede. Despejaram seu Antenor e dona Amarílis da mercearia, os velhinhos que me apresentaram o queijo minas do Sítio Solidão. No lugar deles, uma temakeria.


Para mim, o velório começou quando passei pelo falecido Ponto Azul, no mesmo quarteirão, lá na Xavier da Silveira, esquina com Nossa Senhora de Copacabana. Muito barulho, e porradas atrás dos tapumes.


Obras, business. Essa praga – pior que gripe suína, porque não existe vacina pra babaquice – começou faz uns dez anos na av. Pedroso de Moraes, em São Paulo, e espalhou-se descontroladamente pelo país. O termo adequado (que me dá ânsias de vômito), perfeito para o estrago que vem causando, é “releitura”. O primeiro boteco “relido” foi o Pirajá. São meus conterrâneos paulistas a estuprar o Brasil, mais uma vez. Agora, a volúpia bandeirante corre solta pelas ruas do Rio de Janeiro, os filhotes de Fernão Dias também chegaram na Lapa e transformaram o reduto da malandragem carioca num playground para mauricinhos metrossexuais desfilarem suas sobrancelhas e peitorais depilados. Um futuro de banheiros impecavelmente limpos, e milhões de televisores de plasma ligados dia e noite. Galvão Bueno é o novo Tio Sam replicado de norte a sul, de leste a oeste recrutando você para ser um guerreiro no país da Brahma. Três dólares um chope. Inferno! Enfiaram a Vila Madalena dentro da Lapa! Os putos vendem tremoço a preço de trufas da floresta negra e o freguês, opa!, quero dizer, o “cliente” não pode sequer pedir para diminuir o volume da televisão.


Bem vindos ao mundo dos bares cariocas que imitam a arquitetura paulista de demolição, digo os bares da Vila Madalena, inspirados em – pasme! – bares cariocas da metade do século passado. E o pior, o monstrengo se reproduz e pode se transformar em temakerias, gnomerias, pizzas de chocolate com borda recheada de esperma ou o diabo a quatro que o valha… porque nesses lugares nada de original acontece, aliás, desacontece: num lugar onde o chope custa 3 dólares, chiclete não se mistura com banana. O Haiti é aqui. E a Tóquio mais infantilizada também.


Voltando a Copacabana.


Há pouco tempo, aquele quarteirão do cine Roxy era memória latente dos anos que eu e Cacá vivíamos felizes. Eu passava por lá, chutava tampinhas e entrava em suspensão. Um pouco por causa do João Antonio. Outro tanto porque era assim mesmo, alegria de graça. Os falecidos Ponto Azul e a mercearia de seu Antenor e dona Amarílis eram extensão da nossa felicidade, quando éramos Ginger & Fred antes da decadência e fingíamos que a cidade não turvaria. Ela me esperando no hall do prédio, amiga do zelador boiola. Eu, recém-chegado de um pôr do sol entre os postos 5 e 6, trazia areia nas canelas e a lembrança das mulatas grudadas na testa. Era nossa rotina. Cacá adivinhava minhas falcatruas, e eu a amava porque ela possuía os ais e os cais naquele olhar que primeiro me fuzilava para logo em seguida me perdoar de todos os pores de sóis desse mundo.


Rio de Janeiro, 2005, 2006. Vivíamos encantados. Todo final de tarde eu transformava a vida dela num inferno. Ela foi a primeira mulher da minha vida, digo mulher de verdade, e a partir de uma brecha na janela eu fingia que enxergava o Redentor e ela me achava um babaca, talvez por isso mesmo nossas tristezas e felicidades eram mais belas, como se Vinicius de Moraes nos abençoasse lá de Aruanda, no céu dos Orixás apaixonados.


Não me conformo. Meu sítio solidão virou temakeria. E agora tenho medo de atravessar a Bolívar e não mais encontrar o pudim de leite gigante no Madelon, nem o espanhol carrancudo que recusava cheques de outras praças e fazia questão de ignorar nossa felicidade. Tudo isso num raio de duzentos metros.


Aí nos separamos e eu fui morar no Grajaú. Claro, levei o Sítio Solidão comigo. E evitava Copacabana para conservar o amor num canto distraído da memória. Engraçado, as pessoas costumam ter déjà vu instantâneos. Eu não, lá na zona norte, por conta da minha implicância com flashs e insights, amarguei um ano de “déjà vus” intermitentes longe do nosso quarteirão encantado que incluía, além do meu Redentor desacreditado, o Panamá, um boteco genial na Domingos Ferreira. Onde o simpático Rogério, dono do pedaço de 30m², praguejava contra os direitos humanos e defendia a pena de morte enquanto eu – até aonde meu sotaque paulistano permitia – defendia as putinhas do calçadão, os ovos mal passados e pedia outra dose de uma bagaceira clandestina importada de Barra do Piraí. Atravessando a rua, bem na frente do Panamá, o melhor quibe do Brasil.


Antes de continuar, quero jurar – pelo Deus que Saramago vai ter que engolir – que essa não é uma crônica gastronômica; se vocês tiverem oportunidade não deixem de experimentar o quibe do Istambul: façam isso antes de o estabelecimento virar uma temakeria. Além do quibe, o Istambul tem história. Foi nesse mesmo árabe que, há seis anos, algumas lágrimas molharam meu rosto gordo na frente de uma garota sem coração. Ato contínuo ela me deu um pé na bunda, porque Deus existe somente para que os masoquistas, os trouxas e os comunistas possam amar: motivo mais do que plausível para se acreditar Nele e no Marquês de Sade, eu acho.


Um homem não chora todo dia na frente de uma mulher. Aliás, não era uma mulher e foi a primeira e a única vez que isso aconteceu na minha vida, e a idiota não entendeu nada. Também, no Istambul, tem um kafta de carneiro delicioso que pode vir acompanhado de arroz marroquino e babaganuch. Tudo perfeito, desde que a Cacá não fique sabendo dessa história das lágrimas: ela é muito ciumenta e nunca é demais lembrar que, segundo suas queixas, era eu o responsável por transformar a vida dela “num inferno”.


Ah, Cacá, não briga comigo.


Miguel me disse que você arrumou um negão depois que nos deixamos, eu compreendo. Se arrumasse um japonês aí eu começaria a duvidar do nosso amor, que se prolongava (uso a palavra propositadamente) até o forte de Copacabana, e passava necessariamente pela extinta boate Help, ah meu Deus, a Help foi o princípio do fim.


Eu sabia disso, eles começam destruindo os puteiros, e você escreve crônicas morais e cívicas, pede providências e os homens de bem acham que não têm nada com isso, depois confundem o narrador com o autor, cobram três dólares num chope e você paga, em seguida eles quebram o Ponto Azul e tudo bem, né? Até a hora que esses escrotos põem os velhinhos da mercearia para correr, invadem sua nostalgia e o expulsam de sua solidão.


Hoje, depois de ser despejado do Sítio Solidão, tenho vergonha da própria. Digo, da minha ex-solidão. Vergonha de andar pelas ruas de Copacabana. Tenho medo de não encontrar nossa tristeza, que era mais bela mesmo depois de a carta do Toquinho ter sido extraviada em 1974, nunca mais Vinícius nem Elizete para cantar as dores do amor demais. Que porra é uma temakeria, pra que é que serve essa merda?


Lá em Buenos Aires não é assim. Meu amigo Carlaccio garante que não. As pessoas – ele diz – não precisam se envergonhar de serem tristes e de andarem sozinhas pelas calles. Ele me garantiu que as crianças não freqüentam bares e as assombrações – isso é sensacional – ficam por conta dos fantasmas que exercem o ofício com sobriedade e elegância. Os fantasmas de Buenos Aires são de verdade, diferentemente das cunhadas e dos vultos mexeriqueiros saídos das obsessões do Nelson Rodrigues, aqueles que me atazanavam no Grajaú.


Os sem-déjà vu invadiram, ocuparam e depredaram meu Sítio Solidão. Arrancaram postas da minha tristeza que agora… agora, meu caro Vinícius, que o Chico trocou o samba pelos livros, é que nunca mais vai ter fim.


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Sobre o autor:

Marcelo Mirisola é considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra o status quo e as panelinhas do mundo literário (os fofos).
É autor entre outros de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record).
Considerado por leitores como o grande mestre do conto da atualidade, injustiçado pelos jabutis da vida, mas que tem no seu fiel publico o maior reconhecimento que um escritor poderia querer.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Metrô (Inacio Carreira)

O olhar bate em um livro diferente. Formato fora do padrão de best-seller. Capa alaranjada. No miolo, partituras. Observo o título. La bohème... Quem segura tal livro? Um jovem ma non troppo... Olhos grandes, cabelos rareando, echarpe protegendo o pescoço. Cantor? Sim, talvez, nunca vi músico protegendo a garganta. Lembram do Pavarotti? Sempre com suas echarpes em volta do pescoço, agasalhando sua voz privilegiada e dando-lhe um ar de Prima Donna, ou melhor, Primo Uomo, que de Donna ele não tinha nada... E esse aqui, do metrô?


Nas mãos, o livro e uma lapiseira. Pentel. Amarela. Que, ao virar a página, segura entre os lábios. Ao achar o local desejado, resgata a lapiseira e escreve, faz marcações. Específicas. Talvez em suas árias, quando terá que praticar o staccato, o allegro, adagio... Tanta coisa... Quanto conhecimento! Estava com um blusão da Accademia Europea di Firenze, fizera lá um curso? Ou era professor em intercâmbio, trazendo o conhecimento milenar da música clássica aos nossos jovens? Sim, olhando bem, prestando atenção na atenção que o homem dedicava ao seu livro, onde aparentava estudar com afinco La bohème, ópera de Giacomo Puccini, com libreto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, baseado no livro de Henri Murger, Scènes de la vie de bohème: estreou no Teatro Regio de Turim a 1º de fevereiro de 1896, sob a regência de Arturo Toscanini. Como eu sei tudo isso? Google, cara, Google... E, no Google, a Wikipédia.


De repente apagam-se as luzes, as rodas guincham nos trilhos (como guincham as rodas do metrô, já ouviu? Sim, metrô é um trem, mas é bem mais rápido e mais leve, talvez esse o motivo do grande barulho). Não cheguei a cair (estava de pé), segurava nos apoios do teto e perpendicular ao chão, foi minha sorte. Muita movimentação, choro, o cheiro de excremento de cavalo começou a tomar conta do ambiente.


A iluminação era pouca, tochas, pareciam, velas, luzes bruxuleantes. Do chão, eu tentava apoio para colocar-me na vertical, posição que deu, ao homem, status privilegiado sobre os outros animais, além de deixar as mãos livres para outros afazeres: carregar objetos, lutar, perscrutar, amparar... Consegui, enfim, e por pouco não sou pisoteado por uma carruagem puxada por quatro cavalos... – Não olha por onde anda? (Nem sabia por onde andava, como ia olhar? Ai, o olhar estava baço, onde estava?) À sua frente, imponente edifício. Vem à mente a informação de que “as origens do teatro (o Teatro Regio, de Turim, as coisas começam a fazer sentido) datam do início do século XVIII, quando Vittorio Amedeo II decidiu encomendar ao arquiteto Filippo Juvarra o projeto e a construção de um grande e novo teatro, dentro do desenvolvimento urbano da Praça Castello”... Êpa, seria eu, agora, um receptor de informações? Teriam instalado um chip em meu cérebro e estava, então, em contato direto com a World Wide Web – www?


O apagão no metrô... O homem com a partitura de La boèhme... Sim, ele desce da carruagem, quase pisa em minha mão, está acompanhado por várias pessoas tão bem vestidas quanto ele... Ao pisar na plataforma de madeira, à guisa de calçada, que separa a rua – imunda, coberta de excrementos -, antes de entrar no Teatro, é ovacionado.


Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, em sua Saudação a Walt Whitman, de 1915, brada: “Bebamos isto como um remédio amargo / E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida / Por quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão”...


Mas não é disso que estou querendo dizer. Ou melhor, eu pensava, agora, qual a razão dos atores desejarem, ao invés de Sorte, ou Boa Sorte, Merda... Que inclusive é título e tema de uma canção de Caetano Veloso, gravada ao vivo em 1986, com a parceria de Chico Buarque...


Novo curto-circuito cerebral e vi, em tecnologia 3D (sem óculos, só a força de vontade, ou seja lá o que seja) três justificativas à saudação, sendo que a primeira veio dos palcos, mesmo: segundo minha diretora de teatro dos tempos de colégio, no Instituto de Educação Canadá, em Santos, a expressão teve origem na Grécia Antiga. Segundo ela, “naquela época os atores se apresentavam em anfiteatros e suas peças, por serem bem críticas, afetavam os políticos ou alguma classe social. Enfim, se eles não gostassem das críticas representadas naquele fenômeno que era o teatro, atiravam merda nos atores. Por ironia do destino, os atores não ficavam por baixo com isso, porque quanto mais merda era atirada neles significava que mais repercussão teria o espetáculo. Afinal, eles tinham conseguido seu objetivo. Eles estavam lá era pra incomodar mesmo!”...


Acordei com saudades daquele tempo, em que os políticos tinham vergonha na cara. Hoje dizem, simplesmente, que ignoram os fatos... Ou seja, que são ignorantes! Depois da Lei da Ficha Limpa, que venha a Lei da Ficha Inteligente, urgente...


Inacio Carreira

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Se as roupas falassem... (Patrícia Grah)

Era sexta feira de um fim de mês. Conforme planejado, depois de uma longa viagem chego ao meu destino: um local de compras para lojistas.


Era um empurra empurra, muita gente, muitas sacolas, muitas lojas cheias de gente entrando e saindo. Começo a olhar as vitrines que mais me chamavam a atenção, à procura de peças que eu imaginasse que fossem agradar os clientes da loja aonde trabalho.


Fiquei pensando, o quanto comprar é uma tarefa difícil, afinal temos que imaginar o que as pessoas poderão ou não gostar. Mas como saber do que elas gostarão se nem mesma eu sei bem do que gosto¿ Mas enfim, deixa pra lá.


O que me deixou pensativa foi uma questão bastante interessante, ao menos sob o meu ponto de vista: a “vida” das roupas que eu estava comprando! Sim, eu diria “vida”, não porque roupas tenham uma vida propriamente dita, mas perante o processo todo que elas passam ao longo de sua existência. Resumindo:


Primeiro, começando lá na fábrica, aonde é feito o fio. A quantidade de pessoas que estão envolvidas neste processo;


Depois até este fio virar tecido;


Posteriormente até este tecido chegar ao lugar aonde será confeccionada a peça;


A peça que, passará pelas mãos de várias costureiras, aonde cada uma executará o trabalho de diferentes processos (pensei no quanto este trabalho serve para sustentar tantas casas, tantas pessoas que dependem delas...)


Esta peça que depois de confeccionada, passa pelas mãos de várias pessoas, que chega nas mãos do lojista do qual eu a comprei.


Chegando na loja onde trabalho, existe todo aquele processo em que temos que convencer nossos clientes à comprar tal peça. Ok, todo mundo sabe disto, mas muita gente nunca parou para pensar nisso, não é¿


Agora, o mais interessante disto tudo, é o que acontece depois. Se tivéssemos como registrar, somente por um curto período de tempo o que acontecerá com aquela roupa que eu comprei e depois revendi...


Quantas risadas aquela roupa ouviu, quantos elogios. Quantos lugares aquela roupa conheceu, quantas pessoas, quantas festas, quantos dias de tristeza... Quantas decisões foram tomadas usando aquela peça, quantas vezes ela viajou dentro de uma mala, quantos dias lindos de sol ela apreciou...


Quanta saudade ela acompanhou, quanta comida a sujou, quantas coisas... Quantas historias teria uma roupa pra contar, se tivesse uma vida pra viver!


E depois de muita surrada, de ser usada até que seu dono enjoasse dela, esta será possivelmente doada a alguém, e aí começará tudo de novo: as histórias, os lugares, as pessoas...