sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Serendip (Vana Comissoli)


Olhar o céu para esquecer a terra é infantil: a terra com sua carga pesada de momentos bifurcados, não sai debaixo de nossos pés. De qualquer modo era desta forma que Clarice fugia. Se tivesse a sorte de uma estrela cadente riscar o céu com seu esguicho de luz e se ela tivesse tempo de fazer um pedido e se o pedido fosse ouvido e se houvessem anjos e se amanhã voltasse para África e se encontrasse a amiga por lá e se a amiga estivesse numa boa e se quisesse ouvi-la e se...


Sua vida estava pendurada em muitos “ses”. Tinha o pior de todos, o que não queria ver: E se nada mudasse? Melhor não pensar nisso, a gastrite gritaria como uma louca e a única vontade seria atirar-se na cama como barco à deriva, deixando que o mar a levasse para qualquer lado, desde que fosse longe, muito longe. Preferencialmente a África onde conhecera a amiga Clara. Eram as duas forasteiras, duas fugitivas de si mesmas, fazendo de conta que por lá poderiam ser elas mesmas livres dos incômodos da bagagem do passado.


Voltaram para casa.O passado nem sequer pediu licença e sentou-se na sala ao lado delas, embora morassem nesse país de distâncias quase continentais capazes de separar irmãs de alma. Distâncias se unem por aviões! Levantou de um salto, arrumou-se como permitiu a disposição indisposta e voou para a empresa aérea, vá que desse uma pane no computador e a compra da passagem se perdesse. Não podia correr este risco. Tinha milhas que trariam Clara para perto,sabia que depois deste encontro ficariam muito tempo sem se encontrar. A amiga havia encontrado o caminho e de novo partiria para quem sabe... Que melhor uso para as milhas amontoadas, criando teias de aranha, se não trazer Clara e ficarem caminhando pelo Planalto Central enquanto torravam os miolos físicos e emocionais, trocando sensações, medos e esperanças?


Quando abriu a boca para dizer a “origem” e determinar o “destino”, Serendip, em algum céu distante, cruzou o espaço e sussurrou ao ouvido de Clarice:


-Vá você!


Inverteu os códigos, virou o relógio, desobedeceu ao bom senso e programou a ida ao encontro de Clara em vez de trazê-la ao seu encontro.


Clara a viu de longe, nunca esqueceria o jeito de andar, a reserva colocada nos passos.Quando se abraçaram, misturando cabelos escuros e claros no aproximar das cabeças, não tinha passado nem um dia daquele longo ano. Sorriso de amigo quando não se está com sorriso nenhum é a coisa mais calorosa que existe. É aconchego, recolhimento, segurança, ombro.


Os olhos por fim se encontraram, Clara tinha os seus acesos depois do comprido inverno, mas Clarice... Clarice os tinha baços, cortinas fechadas.


Os dias enfileiraram confidências, risos, saudade da África, descobertas, poços sem fundo. Liberdade.


Tudo tão intenso, profundo, algumas tampas retiradas de panela fervendo água parada, outras flores em botão que desabrochavam depois de longa gestação. Não há forma palpável e cronológica para contar trocas feitas numa amizade, em afinidade de ângulo de olhar. Se eram muito parecidas? Não, não eram.Exatamente aí guardavam o segredo da partilha. Histórias tão diferentes embaixo da mesma estrela cadente,do mesmo Acaso sem caso que as unira.


Clara confessava descobertas, dores ultrapassadas, encontros consigo mesma e mostrava como as pernas tinham se fortificado no passo torto que usara para encontrar o caminho. Falava sobre o abandono do medo de ousar, de entregar-se à Vida e navegar o mundo.


Clarice ouvia avidamente. Estava ainda nos primeiros passos da travessia, tinha pressa em concluí-la e por fim ver a estrada se riscando à sua frente, com suaves planos e escarpadas montanhas, sempre desigual, em direção ao âmago do ser. Seu ser.


Era a última noite, talvez se encontrassem em Lisboa, ou Paris, quem sabe Singapura, ou Ilhas Maurício. O lugar não importava, sentariam do mesmo jeito, com os cigarros queimando o odor conhecido, as palavras saltando com faceirice no atropelo das vivências, os olhos se encontrando como na África distante.


Como seria? O que seria? Quem viria? Quem iria embora? As perguntas não tinham mais tanta pressa em encontrar as respostas, a certeza de que poderiam seguir, fazer e desfazer malas, acumular cartões de embarque e algumas palavras em línguas estranhas, provavelmente amores exóticos, era o que tinham vindo buscar neste encontro de amor permanente.


O céu estava claro dentro da noite escura, cheio de estrelas demarcando os pontos cardiais, viram ao mesmo tempo uma estrela descolar-se da outra e riscar o céu. Serendip! Saudaram e invocaram sonhos ao mesmo tempo e o acaso as abençoou com sua clemência divina.


 Vana Comissoli



• SERENDIPIDADE nos dias de hoje é considerada como uma forma especial de desenvolver o potencial criativo de uma pessoa adulta por meio da perseverança, inteligência e senso de observação. Em outras palavras, ela significa que estar aberto ao mundo e a novos conhecimentos pode levar a mente muito adiante.


• SERENDIP é o nome original do Sri Lanka, de onde provém a lenda dos três príncipes de Serendip que aprenderam a usar com as qualidades necessárias, o acaso a seu favor. Alguns a chamam insight.


• Flemimg estudava estafilococos (tipo de bactérias) em placas de petriencubando-os; entretanto, não se sabe porque deixou umas placas sobre a bancada do laboratório. Ali receberam esporos de um fungo, Penicilliumnotatum, os quais cresceram sobre a cultura de bactérias. Pensando ter perdido seu trabalho, Flemimng antes de jogar fora, teve o insight ao perceber que em torno nos fungos havia uma zona clara sem Estafilococos. Ele investigou a toxina presente e descobriu a penicilina, princípio dos antibióticos – uma das maiores descobertas médicas de todos os tempos. Foi capaz de aproveitar um fato corriqueiro e aplicá-lo na solução de um dilema maior. Isso é serendipidade.


A vida tal como a ciência em parte é controlada pelos nossos sonhos e esforços. Entretanto, para o que não é controlado, é preciso serendipidade, sagacidade, jogo de cintura e o mais importante, fé.”



 - Recanto das Letras - Enviado por Joseph Shafan em 27/08/2010. -

 

Os três príncipes de Serendip (Vana Comissoli)

“O acaso só favorece a mente preparada”
- Louis Pasteur


Todos que ouviam o sobrenome da família se espantavam por sua estranheza. De forma alguma era um sobrenome comum, de onde tinha surgido e o que significava. Os irmãos, Mauro, Gustavo e Felipe, quando pequenos, sentiam-se importantes em informar que era o antigo nome do Ceilão, atual Sry Lanka, onde seu avô paterno fora adido militar. Na adolescência já haviam cansado a repetição exaustiva da genealogia e o descrédito recebido de que pudessem ter tido tal avô, apenas informavam que queria dizer “acaso”.



Os interlocutores continuavam sem entender nada e questionavam ainda mais. Então mandavam que fossem se ilustrar começando por 1010 e atravessando os séculos, com um pulo pelo Talmud até chegar em Horace Walpole em 1754.
Os irmãos sabiam perfeitamente bem todos os detalhes da história do rei chamado Giaffer e seus três filhos treinados em todas as ciências e artes para, quando chegasse sua vez, pudessem reinar de forma irretocável.
A família Serendip incorporara a tradição descoberta pelo avô João Melquíades e todos os descendentes eram assim educados, não para um reinado, mas para a vida, o maior dos reinos. Os jovens eram estudiosos, divertidos e serenos, nada havia de muito especial fora a fé na serendipidade e em seus princípios..
Nos dias de hoje, a serendipidade é considerada como uma forma especial de desenvolver o potencial criativo de uma pessoa adulta por meio da perseverança, inteligência e senso de observação. Em outras palavras, ela significa que estar aberto ao mundo e a novos conhecimentos pode levar a mente muito adiante.
Sabiam, sem dúvida, que a história da ciência está repleta de casos que podem ser classificados como serendipidade. Arquimedes, por exemplo, descobriu como verificar se a coroa do rei era de ouro enquanto tomava banho (princípio da hidrostática). Já Alexander Fleming descobriu a penicilina enquanto limpava seu laboratório ao voltar das férias.
Tinham a mente aberta para captar os sinais que indicariam caminhos considerados pelos incautos como sorte, acaso ou bum bum virado para a lua.
Tinham nascido em tempos muito próximos, entre o primeiro, Mauro e o segundo, Gustavo, nem um ano haviam se passado. O pai não gostava muito de televisão e preferia divertir-se com a esposa, entregues ao acaso de um possível pimpolho acabar gatinhando pela casa. Estavam sempre dentro da mesma faixa etária, isso era divertido e companheiro, as fases eram trocadas como mais uma experiência de observação de quanto a serendipidade os agraciava, para o bom e para o ruim.
O pai apoiava suas investigações vivenciais:
- A vida não teria a menor graça se não pudéssemos aprender a cada instante e eternamente. Serendipe-se, e abra a sua mente para aprender com os acasos incríveis da vida.
Estavam em torno dos 18 anos e os pais, não sendo do tipo castrador e muito menos videntes de catástrofes legavam tranquila liberdade sem as previsões de alguma terrível catástrofe cair sobre os rapazes. Viajavam como namorados ainda, também tinham aprendido muito bem o legado da família, costumavam pegar caminhos a esmo, nos finais de semana prolongados e deixar o acaso mostrar o pouso. Divertiam-se com os desacertos e curtiam os acertos.
Na volta de uma dessas viagens encontraram como sempre, ao fim do domingo, os filhos torcendo pelo time frente à TV. Apenas Felipe dorminhocava no sofá, fato estranho, pois era o torcedor mais entusiasmado. A seu lado algumas latas de Coca-Cola se enfileiravam. Umas já bebidas e outras cheias, com suor do gelo ainda escorrendo.
A mãe deu um piparote na atenção que brotou imediatamente. Não havia de ser tão infalível assim a sagacidade, sempre tivera receio de levar muito ao pé da letra e acabar quebrando a cara. Foi para o quarto descarregar a pequena bagagem que levavam.
Era um quarto diferenciado, muito amplo, com espaço para poltronas e até um agradável jardim de inverno onde acarinhava plantas. Muitas vezes os amigos se reuniram ali para bate papo alegre e descontraído. Mesmo no inverno, um caseiro fogo de ferro aquecia o ambiente, dando um ar de acolhimento gostoso de desfrutar.
Após poucos momentos voltou à sala e perguntou:
- Qual o sem vergonha na cara que fez festa no meu quarto?
Os três se entreolharam e Felipe acordou num sobressalto. Remendaram mil explicações quase acusando a mãe de inventadeira de pena em ovo.
- Sigam-me e vamos ver quem está inventando o que.
Meus travesseiros estão desordenado e, o de pena, evidentemente recebeu uma cabeça.
- Fui eu – identificou-se Gustavo. Vim assistir TV aqui, os manos estavam jogando.
- TV? E aquele pingo de vinho com pequenos cacos embaixo da poltrona. Também foi vendo televisão? Os restos de vômito na privada foram feitos pela cachorra? Alguém festiou aqui, bebeu demais, quebrou o copo, derramou o vinho, passou mal e vomitou na privada.
Eram irmãos unidos, jamais um iria sozinho para fogueira.
- Nós três. Trouxemos umas meninas, quisemos impressionar. Não passou disso.
Neste momento soou o telefone. Os três se esticaram para atender, Marli foi mais rápida e ouviu:
- Oi, Dona Marli. O Felipe está? Acho que ontem esqueci minha... meu casaco na sua sala.
Marli caiu na gargalhada, coisa que a menina não entendeu nada.
Os filhos ouviram o recado e riram também. Logo os quatros estavam gritando:
- Serendipidade!!!


Vana Comissoli


O fato aconteceu de verdade com meus filhos, só anos depois fui saber que eu já exercia essa força fantástica do Universo que nos surpreende se soubermos nos abrir para ela.


PARA QUEM QUISER CONHECER A LENDA ORIGINAL:


“No país de Serendip (hoje Sri Lanka) há muito tempo atrás, havia um rei chamado Giaffer, o qual tinha três filhos. A estes, proporcionou o monarca a melhor educação sob a tutela dos mais sábios mestres, tanto em matéria de ciência quanto de moral. Ao final do processo educacional, quis Giaffer testar os filhos e lhes chamando disse:
- Filhos, estou velho e já governei por muito tempo; vou me retirar do governo para viver uma vida de busca espiritual. Quero que vocês tomem conta do Reino.
Um a um, os três renunciaram à oferta, dizendo não serem dignos desse poder. Surpreendido com a sabedoria deles, mas não satisfeito, o Rei finge-se furioso com a negação e os manda para uma longa jornada.
Aconteceu que, mal haviam chegado ao exterior, resolvem descobrir pistas para identificar com precisão um camelo que jamais haviam visto. Concluem, então, que o camelo é coxo, cego de um olho, sem um dos dentes, transportando uma mulher grávida, e carregando mel de um lado e manteiga do outro.
Quando, depois, encontraram um comerciante que procurava um camelo, relataram as suas observações. O comerciante, pasmo, acusa-os de terem roubado o camelo e leva os três príncipes diante do Imperador Bahram, exigindo punição.
Os três príncipes negam qualquer crime, ao que Bahram indaga como poderiam ter sido capazes de descrever com tanta precisão um camelo sem nunca o terem visto. A partir das respostas, baseadas em evidências somadas em pequenas pistas, dadas pelos três príncipes, percebe a inteligência dos herdeiros de Serendip na identificação do camelo.
Os príncipes disseram que, como a grama havia sido comida pelo lado da estrada onde estava menos verde, haviam deduzido que o camelo era cego do outro lado. Também falaram que havia pedaços de grama semi mastigados na estrada, do tamanho de um dente de camelo, eles deduziram que haviam caído através do espaço deixado por dente perdido na boca do animal.
Como as faixas de marcas na estrada deixavam as impressões de apenas três patas, a quarta estava sendo arrastada, indicando pelo que devia ser coxo.
A questão da carga tinha sido muito simples, posto que haviam formigas de um lado indicando que foram atraídas pelo mel, de um lado da estrada, e o outro lado mostrava nódoas de manteiga derramada.
Quanto ao transporte da mulher, um dos príncipes disse: "Imaginei que o camelo transportava uma mulher, porque havia notado, próximo à trilha, onde o animal deixara marcas de ajoelhar-se, o rastro visível de pés, claramente femininos, onde tinha resquícios de urina humana que, pelo seu próprio odor, denotava ter sido deixados por uma mulher que tinha mantido relações sexuais há algum tempo.
O outro príncipe, esclareceu que concluíram a gravidez da mulher, pois próximo às marcas dos pés, haviam marcas de mãos femininas, denotando que ela havia se apoiado com as mãos para urinar o que configurava o peso da gravidez.
No momento que terminavam o relato ao Imperador, adentrou à corte, um viajante que discorreu ter encontrado o camelo vagando pelo deserto e que o havia reconduzido ao dono, bem como sua carga e transporte.
O Imperador Bahram, além de, evidentemente, poupar as vidas do três príncipes, os encheu de ricas recompensas e os elegeu conselheiros do Império.
Através de Horace Walpole e suas correspondências com Rei George II (Florença) o termo Serendipidade foi criado. Ainda não presente nos dicionários de língua portuguesa, serendipidade define a capacidade de fazer descobertas inusitadas do acaso, de, no meio do caos, perceber a solução para dilemas. Advém da capacidade de observação e reflexão. Alguns a chamam insight.
Flemimg estudava estafilococos (tipo de bactérias) em placas de petri encubando-os; entretanto, não se sabe porque deixou umas placas sobre a bancada do laboratório. Ali receberam esporos de um fungo, Penicillium notatum, os quais cresceram sobre a cultura de bactérias. Pensando ter perdido seu trabalho, Flemimng antes de jogar fora, teve o insight ao perceber que em torno nos fungos havia uma zona clara sem Estafilococos. Ele investigou a toxina presente e descobriu a penicilina, princípio dos antibióticos – uma das maiores descobertas médicas de todos os tempos. Foi capaz de aproveitar um fato corriqueiro e aplicá-lo na solução de um dilema maior. Isso é serendipidade.
A vida tal como a ciência em parte é controlada pelos nossos sonhos e esforços. Entretando, para o que não é controlado, é preciso serendipidade, sagacidade, jogo de cintura e o mais importante, fé.”
Recanto das Letras - Enviado por Joseph Shafan em 27/08/2010.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Perto da Morte (Fernando Bastos)

“Sofia lembrou-se que a avó, no dia em que soubera da
sua doença, dissera algo semelhante. - Só agora tomo
consciência de como a vida é rica - dissera ela.
Não era triste que a maior parte das pessoas tivesse que
ficar doente para reconhecer que a vida era bela?”
(O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder)


Você me disse que precisava falar. O quer foi, amigo, algum problema?

Precisava desabafar com alguém. A gente se conhece há mais de trinta anos, e sei que você é a pessoa certa pra me ouvir, aliás, coisa que você sabe fazer tão bem.
Sua cara não tá boa. Fala, o que houve?
Os médicos sabem. Quando um paciente é avisado que tem uma doença grave, a primeira coisa que faz é prometer que vai mudar radicalmente de vida. Depois de algumas semanas, passado o susto, volta a cometer os mesmos erros, deixa a caminhada de lado, retorna à cerveja e às carnes gordurosas. Assim aconteceu comigo. Você sabe, tenho 60 anos cravados. Uma mulher linda e dedicada, e três filhos, todos crescidos e encaminhados. Mas eu achava que viveria até os 100, e esse foi meu erro. Eu já sabia que minha saúde não andava bem das pernas, mas relaxei, e não me cuidei. Agora a coisa ficou séria. Estive novamente no médico, pra umas baterias de exames. Se eu quiser ter uns anos extras de vida, vou ter que entrar na linha, senão...
Eu já havia te falado sobre isso.
Sei, lembro. Mas eu não tinha noção do tamanho da enrascada. Mesmo assim, te garanto que não temo a morte. E Epicuro me lembra: “Por que ter medo da morte? Enquanto somos, a morte não existe, e quando ela passa a existir, nós deixamos de ser." O que me faz agora me agarrar à vida com unhas e dentes, é que finalmente percebi que a vida é melhor do que eu pensava, apesar de tudo... apesar de tudo, eu quero viver.
Fico feliz que tenhas agora tomado consciência disso...
Você ouviu falar na enfermeira Bronnie Ware, autora de um livro que trata dos arrependimentos de quem está para morrer? Ela o escreveu após anos convivendo com pessoas em estado terminal. O primeiro dos arrependimentos é: “Muito me arrependo de não ter vivido a vida que eu queria viver, mas de ter vivido a vida que os outros esperavam que eu vivesse”.
Você se arrepende do quê?
Nossa! De tanta coisa. Eu faria muita coisa diferente. A primeira, teria sido mais cuidadoso com minha saúde. A outra, teria sido menos inseguro nas minhas relações. Esses dias, prestei atenção à letra Epitáfio, dos Titãs.
Diz assim “Devia ter amado mais/Ter chorado mais/Ter visto o sol nascer/ Devia ter arriscado mais/E até errado mais/Ter feito o que eu queria fazer...”
É linda e profunda essa letra...
Sim, e serve perfeitamente para mim nessa hora.
Nesse instante, meu amigo me abraçou, e algumas lágrimas inevitáveis desceram sobre minhas faces. Eu estava me redimindo de meus pecados.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

No mundo da lua: Dom Quixote contemporâneo (Sônia Pillon)


Ele levanta acordado pelo despertador do celular. Corre contra o tempo para se arrumar e fica matutando como esticar o dia. Tanta coisa para fazer! Fica imaginando como transformar aquela peça de teatro em um sucesso nacional. Já está até vendo a cena: os anúncios na mídia, os outdoors espalhados pela cidade, as críticas favoráveis, o teatro lotado, o público aplaudindo de pé... E ele lá no meio, junto ao elenco... Bravo! Bravo!


Lágrimas de alegria escorrem pela sua face, enquanto imagina a realização do seu sonho. Seu coração bate acelerado e ele mantém um sorriso de genuína alegria...


Enquanto dilui o café solúvel e mastiga um pão dormido com manteiga, ele abre rapidamente o notebook. Confere as principais manchetes, a previsão do tempo, os escândalos de Brasília, a cotação do dólar... Eita, mundo cão!...


Olha um anúncio de brinquedos eletrônicos e lembra daquele roteiro infantil que criou 10 anos atrás, uma releitura erotizada dos personagens “Chapeuzinho Vermelho” e “Lobo Mau”, transformados em uma “Lolita” do século 21 e em uma espécie de “Dom Juan de Marco” à brasileira, à la Nelson Rodrigues... A vida como ela é... – Bando de provincianos! Não sabem o que é arte!


Quase 10 horas! Desce as escadas correndo em direção ao portão. – Não posso me atrasar na entrevista com o tubarão! E se ele patrocinar o projeto? Amanhã mesmo vou poder reunir o elenco, retomar os ensaios, planejar a temporada, a turnê nacional...


Na saída, vê a caixa de correio entupida de contas, contas e mais contas para pagar... E “santinhos” de políticos, que de santos não tem nada... - Haja estômago!, pensa em voz alta, fazendo uma careta.


Ele apressa o passo. Chega suado e esbaforido até a antessala do diretor presidente. A secretária executiva o olha por baixo dos óculos e pede que espere até o final da reunião. E ele espera... 10, 15, 30 minutos, até que a porta se abre e os executivos deixam a sala do tubarão-todo-poderoso. – Pode entrar, diz a secretária.


Finalmente o roteirista entra, segurando a pasta, frente a frente com o tubarão...


- Li atentamente o seu projeto. Bem interessante. Mas infelizmente já fechamos o orçamento deste ano. Decidimos associar a nossa marca a um cantor sertanejo que está bombando e vendendo que é uma beleza! Lamento. Fica para a próxima!


Ao sair da empresa, ele decide que não vai desistir. Afinal, é o que sabe fazer e não está disposto a entregar os pontos. – Amanhã é outro dia! De algum lado o sol tem que sair!


E lá vai o heroico e idealista Dom Quixote contemporâneo, pronto para enfrentar seus moinhos de vento, mais uma vez...


Sônia Pillon é jornalista e escritora, autora residente dos sites de literatura Letras et Cetera e Cooperativa de Letras.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A escrita como tentativa de preservação: de um lugar, de muitas vidas (Ítalo Puccini)

             Eis o que é possível encontrar no filme “Narradores de Javé”, dirigido por Eliane Caffé, vencedor de melhor filme no VII Festival Internacional de Cinema de Punta Del Este (2004) e no 5º Festival de Cinema des3Ameriques (2004, Quebec, Canadá). Produção nacional de 2003 que aborda o sumiço da cidade de Javé, a ser submersa pelas águas de uma represa.


            Taí um filme que procuro trabalhar em sala de aula com turmas do Ensino Médio, abordando não somente a desagradável situação da tomada de terras alheias, mas também a importância da escrita, e sua distância para a oralidade. São conversas que transitam pela trama, pela importância que adquirem a memória e a oralidade na história, e pelos caminhos através dos quais o filme nos leva à literatura.


Tudo acontece a partir do drama que enfrentam os moradores de Javé: a instalação de uma usina elétrica no vilarejo vai levá-lo a não mais existir no mapa. E a solução que lhes resta é uma só: registrar por escrito o vilarejo, tornando-o de valor histórico e científico, conforme falam. É preciso contar a história de Indalécio, o fundador de Javé.


Eis, então, o momento em que surge o personagem AntonioBiá, o salvador dos habitantes de Javé, aquele que em anos anteriores fora expulso de lá pelo motivo que agora o trazia de volta: a escrita de histórias. Biá é chamado para escrever a história de Javé, por ser o único ali que sabe escrever (Biá trabalhava na agência dos correios em Javé. Como ninguém fazia uso da escrita e da leitura, ele passou a inventar histórias dos moradores da localidade, como forma de tornar a agência movimentada, e assegurar seu emprego. Justamente por isto foi expulso pelos moradores quando descobriram o que ele inventava). 


No momento em que Biá passa a ouvir as histórias dos moradores de Javé é que passamos nós, telespectadores, a percebermos como a memória oral de cada um privilegia aspectos e detalhes que ninguém conhece, e que jamais serão registrados como de fato aconteceram. Passamos a perceber o quanto a escrita não dá conta daquilo que é da oralidade. E também o quanto toda escrita fica marcada por aquele que a produz, o que nos leva a pensarmos na isenção do historiador no momento de registrar uma história.


Biá vai ouvindo as versões de cada habitante de Javé. Cada um "puxando a sardinha" para o seu lado, apresentando algum detalhe que antes não havia. Como já dizem os ditados, quem conta um conto, aumenta um ponto. E existem sempre três verdades: a minha, a sua, e a que de fato existe. E Biá deixava claro aos moradores: Uma coisa é o fato acontecido. Outra, o fato escrito. E as verdades produzidas pelos moradores do vilarejo são compostas de memória. De uma memória mítica, onde se encontra com a fala. Uma memória que é feita de fala, que é produzida pela narração. 


            Diante disso, algumas pontes que podemos estabelecer com a literatura fazem referência a dois aspectos textuais apresentados pelo teórico Mikhail Bakhtin, a polifonia (as várias vozes de um discurso, uma vez que a coexistência de inúmeros narradores, narrativas e formas de narração compõem uma heterogeneidade discursiva, que é o que observamos no filme, nas várias narrativas que o compõem) e o dialogismo, a partir de uma citação do próprio Bakhtin: "Tudo se reduz ao diálogo. Tudo é meio, o diálogo é o fim. Uma só voz nada termina, nada resolve. Duas vozes são o mínimo de vida". 


            Além disso, importante lembrar das várias leituras que podem e devem ser feitas de uma mesma história. A história de Javé é, na verdade, as histórias de Javé. A história de cada morador é a leitura que cada um deles faz da localidade em que vive, o que prova que não existe uma só maneira de se ler algo, e sim maneiras de se ler. E de se escrever.


 Ítalo Puccini

sábado, 6 de outubro de 2012

No motel (Marcelo Lamas)

Numa noite quente – e caliente – o casal de namorados foi para o motel. Depois de um bom tempo por lá, surgiu um imprevisto: faltou energia elétrica. A princípio nem deram bola, pois estavam distraídos e o calor demorou até tomar conta do ambiente escuro.
Na hora de sair, Eric foi até o carro e acendeu as luzes, assim conseguiram pegar as coisas que estavam espalhadas. Ele lembrou que ainda haveria um problema a ser resolvido: só tinha levado cartão de crédito. Estaria a maquininha funcionando? Samantha também não carregava dinheiro consigo.
Eric ligou para a recepção e o atendente disse que havia usado a máquina o dia todo apenas com a bateria e que esta acabara de ficar totalmente descarregada com as saídas anteriores – como de hábito, o movimento na hora do almoço tinha sido intenso naquele dia.
O atendente disse que estava à procura de uma bateria reserva que talvez tivesse alguma carga, mas a escuridão estava dificultando a tarefa.
Eric pensou em chamar alguém para socorrê-los, mas Samantha achou que seria muita “pagação de mico”. Tempos depois o recepcionista ligou:
- Alô, moço, vamos dar um jeito aqui. Achei a bateria.
- Ah! Legal. E como eu faço pra abrir este portão da garagem?
- Estamos fazendo manualmente senhor. Até por segurança. A gente manda o pessoal abrir um portão por vez. Sabe como é, né? Sem luz e sem câmera a gente não pode deixar ficar uma fila de carros aqui na saída.
Depois de mais espera, o homem ligou de novo e disse que era a vez deles. O casal entrou no carro. Pelo canto do portão dava pra ver duas tiazinhas vestidas de copeiras tentando destravar o mecanismo com uma chave de fenda, que caía a toda. Eric não podia ajudar pois a operação era do lado de fora.
Chegando à recepção, tava lá o sujeito com uma lanterninha de 1,99 na mão e evitando olhar para o casal. Depois de algumas tentativas, a operação foi completada. E lá vieram as duas tiazinhas de cabeça baixa para abrir o portão principal.
Quando o casal saiu, deu de cara com um ponto de ônibus lotado e um “mercedes” amarelo bem cheio, recolhendo o pessoal. E o povo olhando pra ver quem tava saindo do lugar, e todos se viram, pois no carro de Eric não tinha película. Todo o profissionalismo do pessoal do motel foi por água abaixo. Se fosse um casal “ilícito”, o crime não teria dado certo. Como diz o provérbio: “Em cidade pequena o inferno é grande”.


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Cansaço (Fred Paiva)

"Estou cansado", repetia diversas vezes ao dia, indiscriminado, descompassável, entrelinhas 1,5. Nem sei se realmente estava cansado ou se estava acostumado a dizer que estava ou se estava acostumado a se sentir assim, cansado. Ou a vida lhe cansava mesmo, pode ser. Tantas responsabilidades. Todos os compromissos marcados. Outlook, celular, agenda. Tudo. Queria um tempo disso tudo. Precisava dar um tempo disso tudo. Manter-se só, ermitão. Uns dias, que fosse. Agorafóbico em si. Pisar a terra descalça, tomando a brisa fresca, pouco úmida da manhã. Ver o tempo-espaço passar-ruindo. Sem devidas providências. Em off. O2. CO2. O2. CO2. Até cansar-se disso também. Esgotar.