segunda-feira, 25 de julho de 2011

Alice... Quem foi que disse? (Vana Comissoli)



Alice não era do tipo que aparece, marca presença, pelo contrário, passava despercebida, ausente estando ali o tempo todo. Treino para quando virasse fantasma, ninguém vê, nem ouve, mas está ali. As pessoas comentando, fazendo de conta que ela não escutaria. Só ela sabia que escutava numa considerável distância, uma linguagem bem pouco conhecida e sem significado.
“Como a Alice é boazinha!”, “A Alice é um doce de pessoa”. Pontualmente a velha arrematava: “E é muito prendada.” Essa era a parte mais irritante. Ficava imaginando se dissessem: “A Alice é uma boba, dá palpite até no que não sabe”. A velha diria: “É, mas muito prendada”. Sabe-se lá por que ela fazia uma associação dos infernos, prendada era prenda atada. Ela era uma prenda atada a não sabia o que. Melhor treinar para fantasma. Distanciava-se do mundo brilhante demais, barulhento demais, incompreensível demais.
Será que fantasma, espírito, ou coisa que o valha também ouviria comentários? Os espíritas diziam que sim, mas não importava, ela via fantasmas de vez em quando, assustavam, se acostumou aos poucos, agora passavam e só. Luzes, brilhos, sons.
O que diriam dela? Uma folha morta? Um cogumelo de pernas? Se fosse surda em vida, talvez fosse surda depois da morte também, pelo menos não ouviria comentários nem que era muito prendada. Quais seriam as prendas de um fantasma? Teceria teias voláteis como os pensamentos? Vestidos de gaze tecidos com o orvalho da manhã que viram sonho ao sol? Essas elucubrações não preocupavam Alice, nem as tinha, mas enchiam de dúvidas a cabeça da mãe dela.
Vieram as férias, sabia que eram férias por que entraram no carro e andaram... Andaram... Não chegava nunca e é desassossegado ficar tanto tempo sentada sem uma linha nas mãos, sem espaço. As estradas são barulhentas e desconhecidas, um medo alucinado tomava conta dela obrigando-a a gritar, espernear a ponto de sua mãe prendê-la no banco, ou ampará-la no colo até que dormisse. Chegaram, após muitos cafés e pastéis. Essa era parte boa, ninguém tirava a comida de sua mão, podia brincar com ela jogando no chão e voltar a pegá-la engolindo sofregamente. A mãe olhava para o lado e fazia de conta que não via nada. Ficava mais complicado entender razões, no momento era bom.
Teve certeza que eram férias embora não entendesse o que deixava os pais tão sorridentes se tudo era igual, pelo menos para ela, nem sabia bem o que eram férias, coisa aérea e que não se pode tocar, nem por na boca. As linhas não muito coloridas estariam ao alcance da mão e podia, como sempre, fazer longas e frouxas tranças com elas. Depois a mãe inventava usos secundários como por na cintura ou prender os cabelos. Era quando a velha espiava e dizia: A Alice é tão prendada! Não era bom vê-la revirando os olhos enquanto falava, podiam saltar e fugir chão a fora até trombarem com a porta..
Respirou fundo por que o cheiro do ar vinha volitando sal, gostava desse odor ardido embora no início machucasse um pouco. Olhou a casa abrindo primeiro um olho e depois o outro, não dava para fazer tanta coisa de uma só vez, amedrontava. A casa onde estacionaram tinha porta de sorriso e janelas tremendo, o portão grunhia, outro fantasma a enfrentar, até que se acostumasse.
Não saiu no dia seguinte, não podia e não esperavam isso dela. Tudo tem que ser aos poucos, a caixa de Pandora, se aberta abruptamente solta perigosos monstros, mas tem fadas e duendes se nos acostumarmos às frestas. Ela se acostuma aos poucos com tudo, na estrada se anda passo a passo.
Foram à praia, o mar é aquele engolidor terrível que ruge até na calmaria, o pai deu a mão e, lentamente foi aprendendo que não seria engolida de supetão. Cuidado, um pé, depois o outro e o mar se acalma, embala, refresca os tremores.
Começou a sair sozinha, as férias criaram essa qualidade, podia ir para onde quisesse e não a barravam, foi assim...
O rapazinho estava sentado navegando o mar com os olhos. Não mexia nem um dedo, por isso Alice não teve medo, ia caminhando sem pressa e tiquetaqueou vontade de compartilhar a silenciosa espera dele. Esperaria a coragem chegar como ela esperava ou estava se acostumando com o mar? Não tinha respostas por não ter perguntas. Tampouco sabia se podia sentar ao lado dele ajudando na espera, então sentou. O rapazinho não se incomodou, não disse o nome, nem perguntou nada, a velha estava longe, sem observações sobre como Alice era prendada. Provavelmente o jovem não se encantaria com isso, tornou-o mais próximo.
Ia todas as tardes sentar-se ao lado dele, na convivência calada de navegar o mar, acostumar-se com a imensidão do céu, sabiam as mesmas coisas e por isso as palavras eram confetes desnecessários. No silêncio não há medo, o sorriso do rapaz dava certeza de que ele também sabia disso. Com ele aprendeu a defender-se do sol: a mão em aba olhando as águas sem que o movimento a perturbasse.
Nunca estivera tão confortavelmente próxima de alguém, alguma parte adormecida de sua alma acordou e ela balbuciou a primeira palavra. Já ouvira tantas vezes, mas ninguém entenderia se tentasse dizê-la: mar. Todas as formas muito grandes passaram a ser mar. Ninguém compreendeu de onde saíra, mas aprenderam que era enorme. O que parecia grande diminuiu e seu mundo se ampliou com isso.
Logo aprendeu outras coisas no silêncio tão fácil de se aprender. Um estranho prazer no peito que fazia sorrir. O rapazinho sorria e ela também. Segredos foram ditos alheios de sons. O primeiro amor desabrochou na areia desenhada pelas águas em ondas suaves.
No recôndito do peito, sem que nem por que uma vez desnecessário, bateu emoção que cavalgou sentimento. Os dias se tornaram um só, sentada ao lado daquele que tomara o espaço de todos em sua vida. Quando o sol procurava casaco para a brisa da noite não se acomodar nos ombros, ela se despedia gentilmente: mar. E ia embora navegando por dentro na grande descoberta.
Chegou à casa e assustou-se com os barulhos e movimentos, mexiam em tudo, trouxeram para o meio da sala as mesmas caixas de guardar que antes tinham desguardado. No dia seguinte, entre fúria e arrastos embarcaram no carro. Andaram... Andaram. Desta vez os pastéis não aliviaram a cansativa e desnorteante prisão, de alguma forma sabia que o menino não se afastaria do mar para segui-la. Como poderia encontrá-lo depois que o caminho do mar se tornasse desconhecido?
Esperou nos dias, sonhou nas noites, mas ele não veio lhe dizer que esperava pelo encontro. Se esquece tudo, Alice também esqueceu. Novamente houve aquela quebra na calmaria conhecida e novamente, roupas e tralhas foram escondidas nas malas. Novamente veio a estrada longa, cheia de pastéis. Deu-se conta que iam ao mar, ficou quieta, esperou. Voltaria ao encontro marcado de todos os dias, nem sequer titubeou na dúvida que ele não estaria sentado a navegar o mar. Era o destino do rapaz e ninguém foge ao seu destino.
Não esperou por nada, fugiu com força da mão que a segurava, correu para a praia, seu pensamento não se esquecer do lugar e nem de como chegar. Lá estava ele sorrindo, navegando sem barco, sonhando estrelas, a mão resguardando os olhos da luz e do rocio. Tem momentos que cumprimentos se tornam vazios de sentido, sabemos que não houve ausência, apenas saudade.
Queria ficar ali, sentada ao lado do rapaz, cuidando que a água não os levasse para aquele ponto onde tudo deixa de ser visto. Teve coragem mar e passou o braço pelas costas dele que não se furtou. A decisão foi tomada sem pensar sobre ela, pensamentos não existem quando a gente quer de verdade. Como faria para permanecer também não se questionou, ficaria e era assim.
Os pais se preocuparam, foi um corre-corre e vizinhos ajudando. Caíra a noite e Alice com seu medo do escuro não aparecia. Espanto, grave preocupação. Foi Gabriel, o velho pescador que conhecia aquelas paragens desde garoto que encontrou. Como contar? Melhor no ligeirão antes das lágrimas fazerem rios na sua cara.
- Ela está lá... Fria e sorrindo, abraçada na estátua do menino do mar.

sábado, 23 de julho de 2011

“Ô Trem que nunca para” (Marcio Ochner)

Pensamento que não me deixa,
Lembrança que provoca insanidade,
Apontamento de frações indivisíveis,
intelecto desordenado,
Anda igualmente a um trem,
Que nunca para,
Nem por razão alguma...
Atropela e mata,
Maldito órgão de transporte carregado.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Acróstico Paterno (Tiago Nascimento)



meus pensamentos buscam
a minha mente imagina: você
rabisco esses miniversos e escuto
imperceptíveis sons prenunciam-te
ao acordar não podia imaginar ser hoje
cataclismaticamente nesse peculiar momento
longe de condições favoráveis (cadê o aumento?)
a chegada tua nesse ruidoso silêncio que ora ouves
recolho-me a essa instintiva condição existencial rara
amanhã; no mais tardar, serei seu pai minha Maria Clara...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Diálogo entre Deus e o Diabo (Fernando Bastos)

Há três bilhões e meio de anos, os dois únicos habitantes do mundo estavam tão entediados, que não suportavam mais olharem-se um para o outro. Nem orgulhoso estava mais o criador, diante de sua majestosa obra, o universo. Para piorar, seu antagonista vivia lembrando-lhe das imperfeições do cosmos. Tu criticas por inveja, disse deus, remexendo-se no trono cravejado de ouro e diamante. Tu não farias nem a metade disso. O diabo respondeu, Para isso ficar mais interessante falta uma coisa. O quê? perguntou o magnânimo. Falta vida, respondeu o diabo. Vida? Tens razão, porque não pensei nisso antes. Para tu veres, como és desligado, provocou satanás.


Isso não é problema. Estais vendo aquele planetinha azul ali, tão pequeno quanto um grão de areia? Sim, respondeu satã. Olhai como abundam as águas nele, pois então, neste momento, fabricarei a primeira molécula de RNA, de modo que ela será capaz de fazer cópias de si mesma, gerando outras formas de vida. Sou um gênio, admita. Isto até eu faria, disse o demônio, que gostava de menosprezar o trabalho do parceiro. Pois não ficará só nisso, advertiu deus.


Passaram-se mais alguns bilhões de anos, e algumas criaturas começaram a sair das águas e se estabelecer em terra firme, sofrendo mutações genéticas, adquirindo novas formas, adaptando-se ao novo ambiente. Deus sorriu obliquamente, pensando, desta vez o diabo vai ter que me engolir. Que nada, as provocações continuaram. Não vejo graça nenhuma nestes seres peludos pulando de galho em galho, sem noção de existência. Deus perguntou, Que queres que eu faça? Favoreça-os com uma consciência, faça-os descerem e andarem como gente. Seja feita a tua vontade, concordou o Supremo.


Destarte, há cerca de quatro milhões de anos os primeiros hominídeos começaram a andar eretos. Eles precisam falar, senão não tem graça, exigiu o demônio, de modo que algum tempo depois deus lhes outorgou o dom da fala. Vede agora, disse deus mais orgulhoso do que nunca. São feitos a nossa imagem e semelhança. Hm, resmungou o capeta. Eles estão muito felizes, pensou o diabo crepitando em suas veias a mais sórdida inveja.


O diabo percebeu que o motivo da felicidade era o estilo de vida sem interditos, e a não existência da “má consciência”, que seria usada mais tarde pelos sacerdotes e transformaria bilhões de seres humanos em neuróticos, pois quase tudo era permitido na mais pura inocência nas hordas dos primeiros seres humanos. Toda mulher copulava com quantos homens quisesse e todo homem com quantas mulheres desejasse. As crianças eram felizes, pois tinham vários pais e varias mães que as cuidavam em tempo integral. Naqueles tempos, pensava-se que a gravidez das fêmeas fosse determinada pelos deuses; desconhecia-se a importância do líquido seminal, de sorte que homens e mulheres viviam em regime igualitário. Os humanos formavam uma grande família. A questão de propriedade não existia e tudo era compartilhado.


O diabo aproximou-se do companheiro e sugeriu: meta-lhes na cabeça o ciúme. Quê? Indagou deus. Tu és surdo? Perguntou o diabo, Eu fui claro, faça-os terem ciúme uns dos outros, de tal sorte que se sintam proprietários uns dos outros. Deus ponderou, Mas isto irá acabar com a felicidade deles. A vida deles será um inferno.


O diabo deu de ombros e sorriu maliciosamente. Venci mais uma vez.


Fernando Bastos – cartunista e escritor, autor de Teofania, homens que viam e conversavam com Deus (Design Editora, 2009)

domingo, 10 de julho de 2011

High Society (Sônia Pillon)

Nunca pensei que viria tanta gente para esse coquetel!... Canapés de camarão, salgadinhos, docinhos, vinho, espumante, cerveja... Os garçons não param de aparecer com uma bandeja na minha frente, e já desisti de seguir com a dieta hoje... Já perdi a conta de quantas vezes andei por esse salão, com uma taça na mão, percorrendo um a um os quadros dessa vernissage de arte contemporânea, que mais parece um desfile de modas e de frivolidades...

A nata da sociedade está aqui hoje, “la crème de la  crème”, diria um colunista mais esnobe...Se fosse somar o conteúdo da conta bancária desses milionários e o peso das joias das madames emplumadas, o chão com certeza desabaria!, pensei, sem conseguir conter o sorriso quando a cena me veio à mente...

Estou me sentindo um peixe fora d’água no meio desses ricaços, mas a revista me mandou para cobrir o evento, fazer o quê?... Já estou há mais de uma hora rondando aquela socialaite perto das bebidas, mas parece que ela nem me vê... Daqui a pouco ela vai ficar de pilequinho, para variar, e dar em cima de todo mundo, como sempre... Seria melhor se eu conseguisse a entrevista antes...

Ali está a dona Brígida, toda sorridente ao lado do marido, posando para o fotógrafo do concorrente... Olhando de fora, quem vai dizer que esses dois se odeiam, mas vivem em quartos separados na mesma casa?... Ah, o patrimônio!... Jogar tudo para o alto e perder dinheiro, status e poder? Nem pensar!...

A dona Abigail está na mesma situação, há anos fechando os olhos para os deslizes daquele bode velho, um pinguço de primeira! Quando ele morrer, vai nascer um pé de cana do lado da sepultura, com certeza!...

E veja só a Patrícia, tão jovem e bonita, casada com aquele empresário... Como é mesmo nome dele? Leônidas, isso! Trinta anos mais velho que ela, morre de ciúmes da mulher, que ele exibe como um troféu... Acha que está abafando!... Vivem dizendo que ela dá as suas escapadinhas à tarde, mas ninguém se atreve a falar nada. Quem tem telhado de vidro...

Aquela outra lá deixou até o marido em casa. Está com a pele bem mais esticadinha do que quando a vi na última vez. Essa é pegadora!...Quando ela sai com aquele conversível vermelho em direção a Florianópolis, dizem as más-línguas que vai caçar garotão na avenida Beira-mar... Vai ver que é por isso que ela está sempre com esse sorriso no rosto, com os olhos e a pele brilhando... O marido já não tem nem cara mais de aparecer ao lado dela. Melhor fazer que não vê, para não perder a vida boa...

Os artistas plásticos da exposição são os únicos que parecem mais naturais. Eles se esforçam em “explicar” suas obras aos patrocinadores, que fingem entender de arte...

 Já está na hora de fazer aquela entrevista pingue-pongue para a revista e decido me aproximar da socialaite, que agora se mostra menos esnobe e condescendente comigo. A minha presença aqui significa aparecer na página vip da revista, e isso é motivo mais do que suficiente para que ela me atenda bem...

Pronto, terminei a entrevista! Acho que agora está na hora de vazar daqui. E é o que estou fazendo. Mas uma cena me chama a atenção enquanto me dirijo à porta de saída, com a chegada de um jovem casal. Eles usam jeans e camisetas, bolsas  de couro atravessadas no peito e tênis. Meio ripongas. Ela é filha do dono da maior rede de lojas de calçados da cidade, e o namorado, um estudante de engenharia civil (um pé-de-chinelo, como querem os fofoqueiros, torcendo o nariz)... A plateia se vira para eles e os olha de cima a baixo, censurando silenciosamente os trajes dos dois. Apaixonados, eles entram abraçados, sorridentes e cumprimentam a todos, sem ligar para os olhares de reprovação e risinhos debochados. “Excêntricos”, dizem alguns, “felizes”, digo eu, que vou embora com a certeza de que presenciei uma das poucas cenas de alegria genuína, naquela noite...

Sônia Pillon é jornalista e escritora em Jaraguá do Sul, Santa Catarina.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Carta de divórcio (Tiago Nascimento)

Depois de deduzidos os impostos;
pagas as duas prestações;
feitas as compras do mês;
pago o aluguel do mês passado,
quem sabe ainda falte dinheiro
para encerrar a luz, a água
e o telefone.
É. Ser classe média é uma dureza...

Depois de enjoar da minha cara,
talvez. você vai embora sem que
eu possa ao menos entender
o tipo de mulher episódica que era você.
Quem sabe eu ainda consiga
juntar os cacos e recomeçar.
É. Ser abandonado é uma tristeza...

Sei lá, a gente não pensou bem,
só acho que se eu soubesse que ia ser assim
eu teria pedido o divórcio muito
antes de ontem a tarde.

sábado, 25 de junho de 2011

Nem que a vaca tussa! (Vana Comissoli)

Nem ela acreditou quando o primeiro cof cof saiu enroscado no ruminar constante.
Quando sentiu a coceirinha na goela de novo enfiou a cara no feno cheiroso do coxo. Abafar é preciso, viver não é preciso.
Isso é um absurdo, pensava quase sufocando. Ainda não sabia que o absurdo é o normal e o normal é um absurdo já que não existe. É uma criação das pessoas que pensam atingir essa esfera de perfeição que é a normal imbecilidade. Todos sonham alguma coisa, esse é o sonho mais
constante, mais inatingível e mais idiota.
Ser normal é uma vaca perdida na boiada com olhos de bovina resignação. A normalidade é um engodo.
− Cof cof!
Ali ao lado o cavalo relinchou baixo, abanou as moscas inexistentes com a cauda. Moscas sempre existem, pensou antes de assimilar o som que ouvira, moscas saem de dentro para fora.
− A vaca tossiu! – Registrou quando o som abafado rompeu a garganta ardida da companheira de cela, digo de cubículo.
Há anos conviviam pacificamente sem perturbações, tudo absolutamente normal, nem se incomodavam quando Henry, o dono da fazenda, já habituado aos costumes da terra tupiniquim dizia com raiva:
− Não pago estes impostos exorbitantes nem que a vaca tussa! – E escondia o dinheiro verde amarelo nas encovadas contas das Bahamas, ou qualquer outro paraíso fiscal a que só os gringos ou os ricos têm acesso.
Não se incomodavam quando era o peão grosseiro, de bigodes cheirando a fumo, de dedos amarelados e sempre pronto a acobertar uma ovelha nas barrancas do rio, que dizia:
− Não trabalho no feriado nem que a vaca tussa!
Era tão banal ouvir isso e ao mesmo tempo tão impossível a pobre Amélia tossir que não tinha razão dar importância a estes ditos populares que são o escape da raiva e do “sem razão alguma”.
Agora, de uma hora inexplicável para a outra, o sistema tinha sido rompido ou corrompido.
Amélia, a vaca, tossira!
Por longos dias, sufocando focinho e olhos dentro do coxo, numa experiência ainda mais dolorosa, levantando as patas e tapando o buraco tossidor, enfiando a cara no rabo do cavalo sem nenhum escrúpulo ou nojo, ela tentou voltar ao “status quo”. Ameaçou a alma com os fogos do inferno, com as bruxarias das mulheres, com o sêmen dos homens desviados e nada adiantou. A maldita contra regra atravessava as horas, o peito, como grito transgressor.
Suava, no fundo de sua ruminância passiva e inerte, pressentia o perigo: não se quebra as regras impunemente, algo de terrível aconteceria quando os homens não tivessem um impossível
onde se refugiar. Quem os salvaria da ação? Quem os salvaria da salvação? O salvar a ação não feita, eis o fantasma que come a si mesmo.
O bulício da fofoca começou ao pé dos ouvidos, não era coisa de se falar alto: A vaca tossiu!
Depois nada segurou. A cidade tremia nos becos e nas avenidas: A vaca tossiu!
A polícia não pode deixar de correr atrás do ladrão, a vaca tossiu!
As traições deixaram de ser feitas, os assassinatos foram suspensos e o homem perdeu-se no mar de possibilidades que a tossida trazia no seio.
− “Não vou à missa nem que a vaca tussa!” – Ela tossiu, dá-lhe terço, genuflexão e beija mão do padre.
− “Como essa mulher nem que a vaca tussa!” – Não comeu mais, foi para casa bem aquietado, murcho, assistindo cinco vezes as mesmas notícias enquanto na cozinha um arrastar de panelas mastigado por “Não faço comida nem que a vaca tussa!” se perdia num monte de pernas de frango e feijão queimado.
Foi quando Fabiana na frescura incomparável dos olhos verdes e cabelos recém aloirados e mechados, peitos novinhos em folha, muito bem siliconados, saiu de casa:
−“Hoje eu pego aquele gato, nem que a vaca tussa!”
O gato queria ser pego, a vaca podia tossir quanto quisesse.
Amélia, lá no curral, levada aos trancos e barrancos para as fronteiras perdidas do sem fim onde não se é ouvido, gemia, tossia. A maldita tosse crescia num volume assustador, quanto mais distância, mais forte ficava e, de alguma maneira alucinante, todo o eco das ações rompidas ou executadas à força chegavam até ela.
Quando Fabiana não achou nenhuma graça embaixo do gato que não dera nenhum trabalho de caçar foi que a coisa começou a ficar escranchada. Saiu meio nua, meio não, a gritar que essa história de vaca tossir era uma praga pior do que a do Egito e só podia ser castigo de Deus como em Sodoma e Gomorra. O mundo estava perdido. Era o fim, o apocalipse. Os anjos da ordem tinham que descer dos céus e dar um jeito na aberração.
Ao fundo do discurso escutado não apenas na cidadezinha até então desconhecida, mas até em Nova York, ouvia-se cada vez mais forte, mais alto, a tosse da vaca Amélia, resignada por ser a portadora da ira de Deus contra os homens pecadores.
O negror foi tomando conta do planeta, crianças não explodiam na Palestina, nem morriam de fome na África, os pés de maconha secaram e a cocaína não aceitou refino, o crack estourava antes de ser sorvido e os revólveres viraram seus canos negros para trás: ou suicídios, ou calados.
Os homens desistiram de se matar, a vaca tossia.
E tudo foi ficando muito chato porque a grande transgressão impedia as pequenas, tão banais da humanidade. O que é um estupro, ou um roubo colossal, ou um iate indo a pique diante da tosse da vaca? Que são mísseis, ou napalm se a vaca tosse? Quem se importa com a Gisele
Bündchen desfilando com trilha sonora de vaca tossindo? O Ronaldo, Fenômeno, resolveu experimentar um sexo alternativo, com a tossida da vaca não dá Ibope nenhum!
Eram as três horas sacras. No Gólgota se viu a nuvem negra e terminal tomando forma de cogumelo atômico. Amélia subiu arrastando a tosse, a sua cruz.
Não precisou do madeiro, nem de soldados, afinal era apenas uma vaca. Levava um cutelo, com muito esforço prendeu-o entre as pedras com a ponta aguda bem certeira do caminho que seguiria.
Quando se atirou nauseada e bendita ouviu-se um canto vindo das profundezas do inferno, uma aleluia às avessas:
-“ Hosana, a tosse morreu, o Pecado está salvo!”