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domingo, 10 de outubro de 2010

O choro do inocente (Sônia Pillon)

O parto foi muito difícil. Joana sentiu contrações horríveis, e a dilatação alcançou seu ponto máximo. O médico do SUS insistiu para que seu parto fosse normal. Ela sempre quis ser mãe, todo mundo sabia disso! Olhava os três filhos da vizinha e pensava que seu dia iria chegar. Só não esperava que aquele "cachorro" do marido fosse se engraçar com a secretária, justamente quando mais precisava dele, no oitavo mês de gravidez!...


E agora ela estava ali, completamente sozinha, na sala de parto... Parecia um pesadelo, mas era a mais pura realidade!
Involuntariamente, enquanto aguardava pelo obstetra de plantão, há uma hora atrás, lágrimas escorreram pelo seu rosto, que ela cobriu com as mãos. Finalmente chegou o médico, visivelmente contrariado por ter interrompido seu almoço de domingo com os amigos... Ele nem se sensibilizou com os olhos inchados da parturiente, nem com o desencanto de seu olhar. Quanto antes ele terminasse aquilo tudo, melhor para ele!...


A dor se tornou atroz, a cabeça de Joana parecia que iria explodir, mas o médico mesmo assim optou pelo parto normal. Um menino franzino finalmente nasceu chorando, frágil e pedindo o aconchego da mãe, que desmaiou em seguida. Uma perigosa hemorragia a manteria por mais uma semana no hospital público. Ela mal conseguia amamentar aquele ser, tão magro e assustado, que parecia pressentir a insegurança de sua situação.
Finalmente o médico plantonista comunicou a alta, dez dias após o parto. A mãe e a tia a amparam na saída, com olhares compadecidos. Era tudo o que ela não queria: aquele odioso olhar de piedade estampado nos olhos da família!


Ao voltar para casa, Joana olhou para seu filho e se sentiu impotente. Uma crise de choro se apossou dela enquanto carregava nos braços aquele ser, que esperava por carinho e amor. Subitamente, a rejeição ao menino veio com força total.
Sem entender o que estava fazendo, Joana pega o bebê e o joga do 17º andar. A mãe e a tia gritam, desesperadas, mas nada mais pode ser feito. O chorinho do inocente parou, pouco depois que seu corpo encontrou a calçada. Uma multidão se reuniu estarrecida em volta daquele corpinho já sem vida. E a PM bateu à sua porta, minutos depois.


Texto originalmente escrito em fevereiro de 2008, e adaptado em setembro de 2010.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

OVNI Chinês (Tiago Nascimento)

[caption id="attachment_68" align="aligncenter" width="300" caption="http://inconscientecoletivo.net/wp-content/uploads/2009/05/ufo_china.jpg"][/caption]

Um OVNI chinês me salta aos olhos, parece querer saltar da home do site de notícias.

Manchetes alarmantes maltratam meus olhos. Enchentes, furacões, morte e destruição.

Onde está o nexo disso tudo?

Como saber se sei tudo o que está acontecendo no mundo?

Como saber se não existe um complô contra o belo?

Meus alunos parodiam o hino nacional e destilam pessimismo em suas canções.

Meus confrades torcedores ironizam o técnico, o elenco, corneteiam até o roupeiro do clube…

Um secretário municipal desacredita de sua capacidade de mudar o mundo, a política, o município, tudo (nada) enfim…

A TV faz-me ver o quão ruim e duro é viver o século XXI.

Mas sou um otimista. E ensino meus meninos que a gente pode mudar. Que o mundo tem conserto. Que o belo ainda subsiste. Que nem sempre foi assim ou que nem sempre assim será…

Acredito!